Negros dos EUA celebram vitória de Obama, mas temem frustração

Os negros norte-americanos celebraramna quarta-feira a vitória de Barack Obama na disputa pelaindicação democrata à Presidência, mas muitos não escondem omedo de que uma frustração lhes aguarde na eleição geral denovembro. No restaurante "K&K Soul Food", em Atlanta, muitos clientesnegros se puseram a refletir diante da notícia de que Obamaconseguiu delegados suficientes para se tornar o primeiro negroa disputar uma eleição presidencial por um grande partidonorte-americano. "É ótimo. Finalmente temos um irmão indicado parapresidente. É a melhor coisa que já vi", disse Alan Stephens,um soldador de 46 anos. "Mas será ainda melhor quando ele forpresidente." Para ele, a vitória de Obama deve ser colocada no contextode outros marcos da história afro-americana, uma opiniãocorrente entre um grupo no qual a discriminação e a luta pelasuperação se tornaram parte da própria identidade coletiva. William Jelani Cobb, autor de livros sobre a cultura negracontemporânea, diz que muitos afro-americanos estão felizes,mas temerosos pelo resultado da eleição de novembro, contra orepublicano John McCain. "Os norte-americanos negros estão avançando sobre um gelofino, se movendo muito delicadamente. Esta oportunidade éfrágil, [e muitos dizem] 'vamos garantir que não aconteça nadapara arruiná-la"', disse Cobb, professor de História no SpelmanCollege, de Atlanta. Obama deve fazer o discurso de aceitação da candidatura emDenver no dia 28 de agosto, exatos 45 anos depois do discursodo ativista de direitos civis Martin Luther King, emWashington, que começava com a célebre frase "Eu tenho umsonho". A campanha dos direitos civis acabou com a segregaçãoinstitucional no sul dos EUA, graças a uma coalizão entrenegros e brancos contra a prática. Da mesma forma, para Cobb, acandidatura de Obama também é resultado de uma coalizãomultiétnica. "Ele esmagou o velho modelo simplista de ser alinhado com opessoal negro ou popular com o pessoal branco", afirmou. Políticos como David Dinkins (primeiro prefeito negro deNova York, em 1990) e Douglas Wilder (primeiro governador negrodos EUA, da Virgínia, também em 1990) chegaram ao poder tambémdevido a essas coalizões multirraciais, mas nunca isso haviaocorrido em escala nacional, segundo o pesquisador. Ao mesmo tempo, Obama tira de cena uma geração de políticosnegros --como o ativista Jesse Jackson-- que dava ênfaseexcessiva ao combate à discriminação. MULTICULTURALISMO Neste restaurante de um bairro operário da zona sudoeste deAtlanta, tudo transcorria normalmente. Como em qualquer dia, aclientela, majoritariamente negra, fazia fila com bandejasmarrons para se servir de um cardápio que incluía rabada, peixefrito, couve e chá gelado, para em seguida pagar num guichê ecomer com talheres de plástico. Para alguns clientes, a vitória de Obama é um sinal demudanças mais amplas, como a redução das barreiras entre negrose brancos e uma aceitação mais geral de que muitos gruposcompetem na sociedade dos EUA. "É uma vitória do multiculturalismo", disse Vedia Jackson,36 anos, técnica de telecomunicações que cruzou a cidade paracomer ali. "Este país mudou bastante no quesito cor, e chegou ahora de as pessoas de cor estarem em situações influentes." "Não olho para [Obama] em termos de cor. Talvez meus pais ofizessem. Olho para ele como o melhor candidato", disse elaentre garfadas de peixe frito.

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