Jeenah Moon/WP
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Negros e latinos correm 3 vezes mais risco de contrair covid-19 nos EUA 

Para especialistas, causa da disparidade está no fato de que 43% deles trabalham nos setores de serviço e produção, na linha de frente da exposição ao vírus, e não podem desempenhar as funções de casa

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2020 | 05h00

NOVA YORK - Um levantamento publicado na segunda-feira, 6, pelo New York Times indica que a covid-19 vem afetando mais do que se imaginava as minorias raciais nos EUA. Segundo a análise, negros e latinos americanos correm três vezes mais risco de serem infectados do que os brancos e duas vezes mais de morrer. Em faixas etárias mais avançadas, a desigualdade é ainda maior. 

Desde o início da pandemia já se sabia que o impacto do vírus era maior entre negros e latinos. O que não se sabia era o tamanho da desigualdade. Os dados publicados na segunda foram obtidos pelo New York Times graças a uma ação judicial, usando a lei americana de acesso à informação, que obrigou o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) a revelar 640 mil diagnósticos de 974 condados, que representam 55% da população dos Estados Unidos. 

O levantamento constatou que, em 235 dos 249 condados com mais de 5 mil habitantes negros, eles eram mais infectados do que a população branca. Da mesma forma, em 178 dos 206 condados com mais de 5 mil latinos, há um índice de contaminação desproporcional com relação aos brancos. Conforme a pandemia se expande para zonas rurais dos EUA, a tendência é que a desigualdade seja maior. 

“O racismo estrutural não está apenas no sistema de Justiça criminal”, disse Quinton Lucas, prefeito negro de Kansas City, no Missouri, Estado onde 40% dos infectados são negros ou latinos, que representam apenas 16% da população local. “É algo que mata não só nas zonas urbanas dos EUA, mas também nas áreas rurais e em todos os lugares onde as pessoas merecem oportunidades iguais de viver.”

Especialistas dizem que a causa da disparidade está no fato de que 43% de negros e latinos trabalham nos setores de serviço e produção, na linha de frente da exposição ao vírus, e não podem desempenhar as mesmas funções de casa. Apenas um em cada quatro empregados nessas atividades é branco.

Outros fatores importantes são a dependência de transporte público e o fato de ser mais comum que negros e latinos vivam em apartamentos ou casas onde moram várias gerações de uma mesma família. 

As diferenças são ainda maiores quando se leva em conta a faixa etária: latinos entre 40 e 59 anos foram infectados cinco vezes mais que os brancos da mesma idade. Mais de 25% da população latina que morreu de covid-19 tinha menos de 60 anos. Entre os brancos, apenas 6% morreram em razão do vírus. 

O maior número de mortes entre negros e latinos também teria ligação com comorbidades identificadas nesses grupos, principalmente diabetes e obesidade. No entanto, muitos cientistas afirmam que tudo – até as comorbidades – está relacionado à desigualdade social. 

“O foco nas comorbidades me irrita, porque no fundo sofre mais quem tem de sair de casa para trabalhar, quem é obrigado a viver em um apartamento apertado, pegar transporte público lotado e ir para um ambiente de trabalho lotado”, disse Mary Bassett, diretora do Centro FXB de Saúde e Direitos Humanos da Universidade Harvard. “Muitos de nós também temos problemas de obesidade e diabetes, mas não estamos sendo expostos e não estamos ficando doentes.” / NYT

 

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