Mark Abramson/The New York Times
Mark Abramson/The New York Times

Negros enfrentam altas taxas de infecção por coronavírus nos EUA

Os dados étnico-raciais sobre o coronavírus são limitados para tirar conclusões abrangentes, mas especialistas dizem que a desigualdade é o principal problema 

John Eligon, Audra Burch, Dionne Searcey e Richard Oppel Jr., New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 11h13

WASHINGTON - O coronavírus está infectando e matando pessoas negras nos  Estados Unidos a taxas desproporcionalmente altas, segundo dados divulgados por vários estados e grandes cidades. Para os pesquisadores de saúde pública, a causa dessas mortes é a desigualdade no acesso à saúde e a cuidados médicos.

As estatísticas são preliminares e muitos dados permanecem desconhecidos, porque muitas cidades e estados não estão registrando dados étnico-raciais nos números de casos confirmados e fatalidades.

As indicações iniciais de vários lugares, no entanto, são alarmantes o suficiente para que os formuladores de políticas públicas digam que devem agir imediatamente para conter a devastação potencial em comunidades negras.

A tendência preocupante está ocorrendo em todo o país, entre pessoas nascidas em décadas diferentes e trabalhando em empregos muito distintos.

Donnie Hoover, um juiz de Charlotte, na Carolina do Norte, que não conseguiu se curar de uma tosse seca que chegou em março. No lado sul de Chicago, LaShawn Levi, assistente médica que usa o ônibus para trabalhar todos os dias, recorreu ao xarope para tratar a tosse - “tudo o que minha avó ensinou", disse ela. E em Detroit, Glenn Tolbert, líder sindical dos motoristas de ônibus da cidade, tossia tanto que se submeteu ao teste.

"Este é um momento de apelo à ação para todos nós", disse Lori Lightfoot, prefeita de Chicago, que anunciou esta semana as estatísticas do surto em sua cidade. Os afro-americanos são responsáveis ​​por mais da metade dos que tiveram resultados positivos e 72% das fatalidades relacionadas ao coronavírus em Chicago, mesmo que eles representem pouco menos de um terço da população.

"Esses números deixam você assutado, realmente", disse Lightfoot, que é a primeira mulher negra da cidade eleita como prefeita. Ela acrescentou em uma entrevista que as estatísticas estão "entre as coisas mais chocantes que acho que já vi como prefeita".

Em Illinois, 43% das pessoas que morreram com a doença e 28% das que apresentaram resultados positivos são afro-americanas, um grupo que representa apenas 15% da população do estado.

Os afro-americanos, que respondem por um terço dos testes positivos em Michigan, representam 40% das mortes nesse estado, mesmo que elas sejam 14% da população. Na Louisiana, cerca de 70% das pessoas que morreram são negras, embora apenas um terço da população desse estado seja afro-americana.

A Carolina do Norte e a Carolina do Sul também relataram uma proporção de residentes negros para brancos que testou positivo para o vírus que excede em muito a taxa geral da população. Os negros estão super-representados entre os infectados na área de Las Vegas e entre os que testaram positivo para o vírus em Connecticut. Em Minnesota, os negros foram infectados com o coronavírus a taxas praticamente proporcionais à sua porcentagem da população do estado.

Na terça-feira, o presidente Donald Trump reconheceu os sinais crescentes de disparidade e disse que as autoridades federais estavam trabalhando para fornecer estatísticas nos próximos dois ou três dias que possam ajudar a examinar o problema. “Por que a mortalidade da comunidade afro-americana é muito, inúmeras vezes mais alta do que todas os outras?" ele disse em sua entrevista diária sobre o coronavírus.

Desigualdade é crucial para expansão do coronavírus

Para muitos especialistas em saúde pública, as razões por trás das disparidades não são difíceis de explicar: é o resultado de desigualdades estruturais crônicas, de longa data. Numa época em que as autoridades defendiam ficar em casa como a melhor maneira de evitar o vírus, os americanos negros, que me número muito maior pertencem a parte da força de trabalho que não tem o luxo de trabalhar em casa, teve de continuar trabalhando. Isso os coloca em alto risco de contrair a doença altamente infecciosa em trânsito ou no trabalho.

Levi, a assistente médica de Chicago que adoeceu, acha que sua viagem diária de ônibus para o trabalho poderia ter sido a fonte de sua exposição. Ou, ela disse, poderia ter sido no hospital onde trabalha, no supermercado ou no refeitório. "Eu não tenho certeza", disse Levi, de 45 anos, que tem asma e pressão alta.

Desigualdades de longa data também tornam os afro-americanos menos propensos a terem seguro-saúde e mais propensos a ter condições de saúde pré-existentes e a enfrentar preconceitos raciais que os impedem de receber tratamento adequado.

As indicações iniciais são de que é menos provável que os médicos encaminhem afro-americanos para testes quando visitam uma clínica com sintomas de covid-19, a doença causada pelo coronavírus. Como a doença pode progredir rapidamente, dizem os pesquisadores, uma disparidade nos testes pode levar a resultados consideravelmente piores. 

A falta de comunicação antecipada sobre a ameaça do covid-19 e mensagens confusas que se seguiram deixaram um vazio de informações em algumas comunidades negras que permitiram a disseminação de falsos rumores que os negros eram imunes à doença. Alguns lugares acabaram atrasando a tomada de medidas para diminuir a propagação.

O coronavírus e a segregação

Sharrelle Barber, professora assistente de epidemiologia e bioestatística na Universidade Drexel, disse que os efeitos das políticas de redefinição do governo que começaram na década de 1930 permanecem. Muitos moradores negros vivem em bairros segregados que não têm oportunidades de emprego, moradias estáveis, mercearias com alimentos saudáveis ​​e muito mais.

Altos níveis de segregação em grandes municípios urbanos diminuem a expectativa de vida dos residentes afro-americanos, mas têm pouco efeito sobre a expectativa de vida dos residentes brancos, de acordo com uma análise do County Health Rankings pelo Instituto de Saúde da População da Universidade de Wisconsin. Antes da pandemia, as autoridades haviam calculado que os brancos de Chicago tinham uma expectativa de vida média de 8,8 anos a mais do que os negros.

"Essas comunidades, estruturalmente, são criadouros para a transmissão da doença", disse Barber. "Não é biológico. São realmente essas desigualdades estruturais existentes que moldarão as desigualdades raciais nesta pandemia."

O trabalho impediu que Glenn Tolbert, de 54 anos, que dirige um ônibus em Detroit há 24 anos, ficasse em casa quando o vírus se espalhou.

Durante todo o mês de março, disse Tolbert, ele prosseguiu com suas responsabilidades de verificar o bem-estar dos motoristas na estação de ônibus e dos passageiros nas rotas da cidade.

Em 2 de abril, Tolbert tossiu tanto durante uma reunião com Mike Duggan, o prefeito de Detroit, que Duggan sugeriu que ele fosse testado. Ele foi uma das primeiras pessoas na cidade a fazer um teste rápido e obteve seus resultados em 15 minutos.

"Eu achava que estava em distanciamento social - pelo menos eu pensava que era", disse Tolbert. "Não sei onde isso pode ter acontecido."

"O que é realmente importante é quem está sucumbindo à infecção", disse o Dr. Phillip Levy, presidente associado de pesquisa no departamento de medicina de emergência da Wayne State University. "Isso dá uma idéia da gravidade da doença e do impacto na comunidade negra."

Um fator que pode tornar o coronavírus mais devastador para os negros nos Estados com muitos afro-americanos é que eles experimentam altos níveis de desgaste causado pelo estresse, disse Arline Geronimus, professora de saúde pública da Universidade de Michigan que estuda o conceito.

Estresses como exposição a toxinas, falta de sono e discriminação racial, disse Geronimus, podem causar uma espécie de envelhecimento acelerado. O coronavírus é mais letal em pessoas com mais de 65 anos.

Observando notícias de disparidades raciais de coronavírus nesta semana, Geronimus disse que se viu gritando com a televisão. “Eles estão dizendo: 'Nós não sabemos o porquê””, disse o Dr. Geronimus, “e eu me vi gritando: ‘é a discriminação!’”.

Médicos especialistas, ativistas da comunidade e formuladores de políticas estão pressionando por uma maior transparência nos dados étnicos-raciais.

Os funcionários que estão relatando estes dados o fazem apenas nos casos em que a raça do paciente é conhecida. Para uma grande porcentagem do total de casos em alguns lugares - às vezes mais de 40% - nenhuma informação está disponível.

E autoridades em muitos estados, incluindo os afetados pela pandemia - Califórnia, New Jersey, Nova York e Washington - não forneceram informações em todo o estado sobre a raça dos pacientes.

A falta de dados irritou políticos e ativistas. As senadoras Elizabeth Warren, de Massachusetts, Kamala Harris, da Califórnia, e Cory Booker, de New Jersey, exigiram que o governo Trump colete dados étnico-raciais nos testes e tratamento do coronavírus. E Jumaane Williams, o defensor público da cidade de Nova York, enviou uma carta ao prefeito Bill de Blasio pedindo a liberação dos casos por raça.

No Condado de Mecklenburg, na Carolina do Norte, onde os residentes negros estão superrepresentados no número de testes positivos, George Dunlap, presidente da comissão do condado, disse que não acredita nos dados. 

Ele disse acreditar que havia tantos casos entre os afro-americanos naquele condado, que inclui Charlotte, porque o grupo estava sendo testado em uma taxa mais alta, de acordo com informações que ele disse ter recebido das autoridades de saúde do condado.

Mas a principal autoridade de saúde da Carolina do Norte disse que as disparidades estão alinhadas às tendências históricas. "Essa crise atual estabelece o que sabemos há muito tempo, que é o fato de o seu CEP ser determinante para o resultado da sua saúde", disse Mandy Cohen, secretária do Departamento de Saúde e Serviços Humanos da Carolina do Norte.

O juiz Hoover, do Tribunal Superior do Condado de Mecklenburg, que testou positivo para o vírus, tem 70 anos. Sua esposa, Josephine, também testou positivo. Ele estava recebendo quimioterapia para mieloma múltiplo e ela tem diabetes, problemas médicos subjacentes que os colocam em maior risco de doença grave.

Enquanto o juiz Hoover se recuperava em seu condomínio no centro de Charlotte, Hoover, professora aposentada de matemática, foi hospitalizada por duas semanas. Mesmo agora, eles estão separados pelo menos um metro e oitenta em sua casa.

"Suponho que peguei no tribunal e passei a ela", disse ele. “Nós estávamos com tanto medo. E ainda estamos assustados porque não sabemos ao certo se estamos fora de perigo.”

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