Nelson Mandela, comunista

Ícone da luta antiapartheid teria sido filiado ao PC sul-africano, fato que diz mais sobre seu pragmatismo do que sobre sua ideologia

BILL, KELLER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2013 | 02h06

Em 2011, o historiador Stephen Ellis publicou um estudo concluindo que Nelson Mandela havia sido membro do Partido Comunista da África do Sul. Apesar de o Congresso Nacional Africano (CNA) ter sido aliado dos comunistas contra o apartheid, Mandela sempre negou ser membro do partido. Ellis, porém, com base em testemunhos e arquivos, fez uma defesa convincente de que Mandela tornou-se membro por volta de 1960, vários anos antes de ter sido sentenciado à prisão perpétua por conspirar contra o governo.

Que importância tem isso? A notícia agitou críticos e revisionistas, que diziam que o CNA era uma fachada do stalinismo. "Santo Mandela? Devagar com andor!", exultou um blog de direita. A revelação animou alguns americanos ávidos por justificar o apoio dos EUA ao regime branco durante a Guerra Fria. Ellis não é nenhum apologista do apartheid, mas afirma que a ligação com os comunistas moldou a ideologia do CNA.

"Hoje, o CNA afirma que ainda está no primeiro estágio de uma revolução em duas etapas", disse Ellis. "É uma teoria do pensamento soviético." Na verdade, remanescentes do protocolo e do jargão comunistas - "camaradas" e "contrarrevolucionários" - estão vivos na plataforma e nas atitudes do partido governante da África do Sul.

Minha perspectiva sobre isto, moldada pela cobertura da União Soviética, de 1986 a 1991, e da África do Sul, de 1992 a 1995, é cautelosa. Tanto na Rússia de Gorbachev como na África do Sul em transição, percebi que o que as pessoas defendem publicamente nem sempre é um guia confiável para o que elas fizeram ou para o que elas acreditam. No entanto, a filiação comunista de Mandela não é um mero fragmento da história. Ela não justifica uma exultante malhação do comunismo e não diminui um legado heroico. Mas, sob alguns aspectos, é significativa.

Primeiro, a breve participação de Mandela no PC sul-africano e sua prolongada aliança com comunistas diz menos sobre sua ideologia do que sobre o seu pragmatismo. Ele foi, em vários momentos, um nacionalista negro e um antirracista, um adversário da luta armada e um defensor da violência, um sujeito "estourado" e um homem calmo, um consumidor de tratados marxistas e um admirador da democracia ocidental, aliado dos comunistas e dos capitalistas da África do Sul.

A colaboração inicial do CNA com os comunistas foi um casamento de conveniência para um movimento que tinha poucos amigos. O PC sul-africano e seus patronos, na Rússia e na China, foram uma fonte de dinheiro e armas para a luta armada e, para muitos, significou a solidariedade a uma causa maior do que a África do Sul.

A ideologia comunista seguramente se instilou no CNA, onde se tornou parte de um coquetel exclusivamente sul-africano e de nacionalismo africano, consciência negra, liberalismo religioso, ódios, ressentimentos e anseios incipientes. No entanto, em conjunturas importantes - nas negociações para pôr fim ao regime branco, depois na redação de uma nova Constituição - as facções de nacionalistas e de pessoas que buscam vingança perderam para os transigentes.

Nas conversações que preparam o terreno para a democracia, Joe Slovo, o antigo líder dos comunistas sul-africanos, foi o defensor mais ardoroso da partilha de poder com o regime branco. A doutrina que prevaleceu foi a de qualquer coisa que contribuísse para a causa de uma África do Sul governada por sul-africanos. Isso valeu para Mandela e também para seu sucessor, Thabo Mbeki. O atual presidente, Jacob Zuma, parece não ter absolutamente nenhuma ideologia, exceto o enriquecimento pessoal.

Em um de seus vários julgamentos, questionaram Mandela se ele era comunista. "Se por comunismo vocês querem dizer membro do Partido Comunista e uma pessoa que acredita na teoria de Marx, Engels, Lenin, Stalin e adere rigidamente à disciplina do partido, eu não me tornei um comunista", respondeu. A resposta é evasiva e perfeitamente exata.

Talvez o efeito pessoal mais importante e duradouro do PC sul-africano em Mandela foi que o tornou - ou ajudou a tornar - um não racista comprometido. Em seus anos de formação, o CNA admitia apenas negros. Por muito tempo, o PC foi o único parceiro do movimento que incluía brancos, indianos e membros de raças misturadas. Essa relação é uma das principais razões citadas por Mandela para sua rejeição ao nacionalismo negro e sua insistência para que a cultura multirracial estivesse no centro da ética do CNA.

A terceira razão da importância da filiação comunista é que ela ajuda a explicar por que a África do Sul não fez um progresso maior para melhorar as vidas de sua grande classe baixa, desarraigar a corrupção e unificar uma população fracionada. As muitas falhas do CNA em seus 19 anos de poder podem ser explicadas pelo fato de que ele nunca fez completamente a transição de movimento de libertação para partido político, quanto mais para governo.

O PC é tão responsável por isso quanto qualquer outro, mas creio que o que incapacita o CNA não é a doutrina stalinista - ou qualquer doutrina aliás. É alguma coisa na natureza, na cultura dos movimentos de libertação. Unidos pelo que são contra, eles tendem a ser conspirativos, a desestimular o dissenso, a privilegiar os fins aos meios.

No fim das contas, é claro, o maior favor que o comunismo prestou a Mandela e ao CNA foi implodir. Com a desintegração do bloco soviético e a China se tornando capitalista, os últimos governantes brancos da África do Sul já não poderiam posar de aliados necessários da direita na Guerra Fria. Eles sabiam que o jogo havia terminado. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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