Nelson Mandela faz 90 anos e denuncia a desigualdade social

Em seu aniversário, líder anti-apartheid pede para que ricos compartilhem fortuna com os mais pobres

Efe e Associated Press,

18 de julho de 2008 | 08h36

Nelson Mandela celebrou o seu aniversário de 90 anos com um pedido para que os ricos compartilhem sua fortuna com os mais carentes e desejando que pudesse ter passado mais tempo com sua família durante a luta contra o apartheid. Em uma entrevista em sua casa na região rural na África do Sul, o ícone da luta contra a segregação racial afirmou que tem muita sorte por alcançar os 90 anos,  mas observou: "A pobreza deteve nosso povo. Se você for pobre, é improvável que viva tanto".  Mandela foi libertado em 1990, após passar quase três décadas na prisão. Ele se tornou o primeiro presidente da África do Sul na era pós-Apartheid e se aposentou depois de exercer um mandato. A saúde de Mandela parece ser boa, mas ele faz cada vez menos aparições em público. Mandela foi o prisioneiro 46664 por 27 anos, onde viveu sob duras condições enquanto autoridades negaram qualquer pedido de liberdade. Ele se tornou um símbolo pela liberdade e dos direitos civis. Durante a entrevista aos jornalistas em sua casa, onde passou o aniversário, o Nobel da Paz foi presenteado com flores pela neta, que lhe deu um beijo. Nesse momento, o líder sul-africano lamentou que gostaria de ter tido mais tempo com a sua família durante o tempo da luta contra o apartheid e os anos liderando o país, "mas não me arrependo". Na rádio oficial sul-africana, Mandela agradeceu as felicitações pelo seu aniversário recebidas do mundo todo. No país, os 90 anos de Mandela foram destaque em toda a imprensa desde o início do dia, e emissoras de rádio e televisão transmitem a todo momento mensagens de parabéns, programas comemorativos e canções dedicadas ao ex-presidente. As capas dos jornais também foram praticamente exclusivas para o aniversário, e os editorais ressaltam sua história. O governo parabenizou o "primeiro presidente de uma África do Sul sem discriminação por raça, por sexo e democrática". "Sua vida inspira a todos para lutar por um mundo melhor, livre da pobreza, da fome e contra toda forma de opressão da sociedade", diz uma nota difundida pelo Executivo. Luta contra segregação racial Mandela nasceu no dia 18 de julho de 1918, filho de um conselheiro do chefe supremo do povo thembu, perto de Qunu, onde hoje fica Cabo Oriental. Ele dedicou toda a sua vida a combater a dominação branca, tendo abandonado a universidade Fort Hare no começo dos anos 1940, antes de se formar. Com Oliver Tambo e Walter Sisulo, fundou a Liga Jovem do Congresso Nacional Africano (CNA). O ex-presidente esteve entre os primeiros a defender a resistência armada contra o apartheid, tendo passado para a clandestinidade em 1961 a fim de fundar o braço armado do CNA - Umkhonto we Sizwe (A Lança da Nação). No Julgamento de Rivonia (1963), acusado de crimes puníveis com a pena de morte, Mandela fez do banco dos réus uma declaração que entrou para a história como seu testemunho político. "Eu estimo o ideal de uma sociedade livre e democrática, na qual todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. Esse é um ideal ao qual pretendo dedicar minha vida e que pretendo alcançar. No entanto, se for preciso, esse é um ideal pelo qual estou disposto a morrer". Mandela foi condenado à prisão perpétua em 1964 e foi solto no dia 11 de fevereiro de 1990. Um ano mais tarde, ele foi eleito presidente do CNA e, em maio de 1994, assumiu o cargo de presidente do país, tornando-se o primeiro negro a ocupar o posto. Mandela usou seu carisma e prestígio para evitar um confronto aberto entre negros e brancos, criando a Comissão de Verdade e Reconciliação, o órgão encarregado de investigar os crimes cometidos pelos dois lados durante a luta travada em torno do apartheid. Em 1999, Mandela repassou o poder para líderes mais jovens e, teoricamente, mais aptos a administrar uma economia moderna, num raro momento de afastamento voluntário do poder citado como exemplo para outros dirigentes africanos.  Uma aposentadoria tranquila não constava dos planos de Mandela, e o agora ex-presidente voltou suas energias ao combate da Aids na África do Sul, levantando milhões de dólares para enfrentar a doença. A luta dele contra a doença adquiriu cores marcadamente pessoais no começo de 2005, quando perdeu seu único filho ainda vivo para a doença. O país compartilhou a dor do divórcio de Mandela, em 1996, de sua segunda mulher, Winnie Mandela, e viu-o aproximar-se de Graça Machel, viúva de Samora Machel, presidente de Moçambique. Os dois casaram-se em 1998, quando Mandela completou 80 anos.  Em 2007, Mandela comemorou seu aniversário de 89 anos criando um grupo internacional de estadistas mais velhos, entre os quais Desmond Tutu e Jimmy Carter (ambos vencedores, como Mandela, do Prêmio Nobel da Paz). O grupo tem por objetivo enfrentar os problemas que atingem o planeta, entre os quais as mudanças climáticas, a Aids e a pobreza.  Matéria atualizada às 11h50. 

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