DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
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Nem EUA nem China estão interessados em encerrar disputa, diz analista

Para professor de relações internacionais da FGV, opinião pública chinesa e americana esperam respostas à altura para a disputa entre as duas nações

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2020 | 09h12

A ordem dos Estados Unidos para que a China feche seu consulado no Texas e a resposta chinesa determinando o fechamento do consulado americano em Chengdu é algo sem precedentes na história da relação diplomática entre os dois países, iniciada nos anos 1970, e só tende a piorar daqui para a frente. A avaliação é do pesquisador Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV. 

"É uma espiral e nenhum dos dois estão interessados em encerrar esse processo agora. Há uma demanda pública na China para que o país responda à altura essas ações dos americanos". Além da representação em Houston, no Texas, que exerce funções consulares para outros oito estados americanos e foi aberta em 1979, há consulados chineses em Nova York, Chicago, Los Angeles, São Francisco e a embaixada na capital Washington.

A determinação do fechamento ocorreu um dia após os EUA acusarem dois chineses de espionagem para tentar roubar dados sobre o desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus. Já os EUA têm consulados em Wuhan, Xangai, Shenyang, Chengdu, Guangzhou, Hong Kong e a embaixada em Pequim. Na sexta, os chineses determinaram o fechamento do posto em Chengdu, metrópole de cerca de 15 milhões de habitantes localizada no sudoeste da China. 

Stuenkel lembra que os Estados Unidos já chegaram a pedir fechamentos de outros consulados, como o da Rússia, mas que esse passo com relação à China é "novo e muito grave". "Faz parte de uma deterioração muito grande e essa decisão não vai reduzir as tensões. A situação vai piorar ainda mais". 

"Fechamos o consulado porque era um centro de espionagem e roubo de propriedade intelectual", afirmou o secretário de Estado Mike Pompeo durante discurso na Califórnia na quinta"A China nos tirou nossa propriedade intelectual e segredos comerciais que custam milhões de empregos em todo o país. Se o mundo livre não muda a China comunista, a China comunista nos mudará". 

Na avaliação de Stuenkel, há duas tendências a serem destacadas. A primeira é a eleitoral: ele vê a disputa política com a China como uma das maneiras de Donald Trump tentar conquistar mais apoio entre os americanos com demonstração de firmeza e se projetando contra o país em uma disputa geopolítica. "Ele quer, obviamente, dizer que Joe Biden seria mais fraco em relação à China. Faz parte desse contexto eleitoral", afirma.

No fim de junho, uma pesquisa do New York Times/Siena College mostrou que Biden tem 50% das intenções de voto e Trump, 36%. Na quinta, uma pesquisa da Quinnipiac University mostrou vantagem de 13 pontos de Biden sobre Trump (51-38) na Flórida, um estado-chave para a disputa. 

"O que acontece agora nas relações entre Estados Unidos e China já era esperado e vai piorar muito. Não podemos descartar posturas muito radicais como banir viagens de membros do Partido Comunista e de suas famílias para os EUA", medida que, segundo o governo Trump, impactaria cerca de 270 milhões de pessoas.

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Stuenkel ressalta que a situação bilateral não melhoraria nem mesmo com uma derrota de Trump, já que Biden também tem uma forte postura anti-China. O especialista argumenta que o grupo em Washington que defendeu a aproximação e cooperação com os chineses perdeu força. "A postura que aposta mais na cooperação foi totalmente marginalizada".

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