Nem festas infantis escapam à polarização

Cenário: Ariel Palacios

O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2012 | 03h02

A divisão entre kirchnerismo e anti-kirchnerismo tomou conta de todos os setores da sociedade argentina. Nas ruas, parlamentares, intelectuais ou jornalistas são ofendidos por transeuntes de um e outro lado. Analistas definem o fenômeno de "inimizade cívica" e afirmam que o país não vivia tal divisão desde os anos 50, quando a Argentina fraturou-se entre peronistas e anti-peronistas.

O ex-deputado e ex-secretário de Cultura Julio Bárbaro, integrante da seleta comitiva do avião que trouxe Juan Domingo Perón do exílio nos anos 70, disse ao Estado que Perón voltou buscando a unidade nacional. "Décadas antes tinha dito 'não há nada melhor para um peronista do que outro peronista'. Mas, ao retornar disse 'nada melhor para um argentino do que outro argentino'. Cristina não busca a unidade nacional". Segundo Bárbaro, ao contrário dos anos 70, a violência hoje é psicológica: "o clima é de psicose no qual exageram-se as lealdades".

Nem mesmo festas de criança estão livres. Em uma este mês, os pais do aniversariante, para evitar discussões em meio à celebração, distribuíram os convidados em cinco mesas de dez pessoas cada uma, separando os kirchneristas dos anti-kirchneristas. Apenas uma mesa tinha - onde estavam os próprios anfitriões - pessoas de ambos lados.

O historiador Luis Alberto Romero disse ao Estado que o atual clima "serve ao governo Kirchner para manter a tensão dos apoios políticos". Romero, autor de Setores populares, cultura e política, afirma que mesmo dentro da centro-esquerda existem divisões profundas entre pessoas a favor ou críticas aos governo. Amigos deixam de se ver por essas divergências. Ou, se reúnem, mas fazem um esforço deliberado para não falar "do assunto". "Evitamos falar sobre temas que causariam 'urticária'. Muitos decidimos não perder os amigos por uma conjuntura política temporária".

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