Nem ladrões querem bolívares

Na Venezuela, o desafio é obter dólares, supervalorizados no mercado negro

Wlliam Neuman e Patricia Torres, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2015 | 02h02

Pobre bolívar da Venezuela, batizado com o nome do seu herói da independência, Simón Bolívar! Até os ladrões às vezes o desprezam.

Quando assaltantes roubaram o automóvel do engenheiro Pedro Venero, no início deste ano, ele achou que o levariam ao seu banco para descontar um cheque com um valor elevado em bolívares - o tipo de experiência com a qual os venezuelanos, testemunhas de tantos crimes, há muito acabaram se acostumando. Mas os assaltantes, armados de fuzil e uma granada, certos de que ele guardava muitos dólares em casa, não queriam nada com os bolívares de sua conta bancária.

"Eles me disseram logo de cara: 'Não se preocupe, esqueça'."

A ânsia de se desfazerem dos bolívares ou ignorá-los totalmente mostra até que ponto os venezuelanos perderam a confiança em sua economia e na capacidade do governo de encontrar uma saída deste caos.

Um ano atrás, US$ 1 comprava cerca de US$ 100 bolívares no mercado negro. Hoje, frequentemente são necessários mais de 700 bolívares, o que indica o total desencanto nacional com a economia. O FMI previu que a inflação na Venezuela chegará a 159%, este ano (embora o presidente Nicolás Maduro tenha afirmado que será a metade desta cifra) e a economia encolherá 10%, a pior projeção de desempenho econômico em todo o mundo (não existem estimativas para a Síria, devastada pela guerra).

Este seria um verdadeiro salto no precipício com consequências desastrosas para um país que tem as maiores reservas petrolíferas mundiais e se considera rico, em comparação a muitos dos seus vizinhos.

Entretanto, a situação real vai além dos números, como revelam os absurdos da vida de uma nação cujo governo se recusa há meses a divulgar dados econômicos fundamentais como inflação ou Produto Interno Bruto.

Ainda que a renda do país tenha encolhido com o colapso dos preços do petróleo - o único produto de exportação significativo da Venezuela - e o mercado negro de dólares tenha subido vertiginosamente, o governo insiste em manter a principal taxa cambial congelada em 6,3 bolívares por dólar.

Esta espantosa disparidade é responsável por uma economia de preços muito elevados na qual é difícil saber ao certo o valor do que quer que seja, e na qual é o dólar no mercado negro que dita cada vez mais os preços.

Um ingresso de cinema custa cerca de 380 bolívares. Calculado ao câmbio oficial, são US$ 60. No mercado negro, apenas US$ 0,54. Um balde de pipoca e um refrigerante, dependendo de como o preço é calculado, podem custar US$ 1,15 ou US$ 128.

O salário mínimo é de 7.421 bolívares mensais. Isso pode equivaler a decentes US$ 1.178 por mês, ou a miseráveis US$ 10,60.

De qualquer maneira, não consegue comprar muita coisa. Segundo o Centro de Documentação e Análise Social da Federação de Professores Venezuelanos, para comprar os alimentos consumidos em um mês, uma família de cinco pessoas gastava 50.625 bolívares em agosto, mais de seis vezes o valor do salário mínimo e mais de três vezes o que custava no mesmo mês no ano passado.

Jantar para dois num dos melhores restaurantes da cidade pode custar 30 mil bolívares. Ou seja, US$ 42,85 no mercado negro, ou US$ 4.762 no câmbio oficial.

A inflação cresceu tanto que as seguradoras de veículos ameaçaram emitir apólices que expiram em seis meses, a fim de minimizar o risco decorrente do aumento constante do custo das autopeças. Um galão de tinta branca custava cerca de 6 mil bolívares numa terça-feira recente. Na mesma loja, três dias mais tarde, seu preço já chegava a mais de 12 mil.

As cruciais eleições legislativas estão marcadas para dezembro, e o governo começou a colocar no mercado geladeiras, aparelhos de ar condicionado e eletrodomésticos para os funcionários públicos e os filiados do partido a preços mínimos. Um funcionário disse que comprou um televisor de plasma de 48 polegadas, de fabricação chinesa, por 11 mil bolívares, ou apenas US$ 15,71 no câmbio do mercado negro.

Maduro atribui os problemas a uma "guerra econômica" desencadeada por seus inimigos, internos e externos. Mas para a maioria dos economistas, os problemas são causados pela queda dos preços do petróleo e pelas medidas adotadas pelo governo, como os controles rigorosos dos preços, e pela taxa cambial usada para as importações.

Enquanto a crise ia se avolumando, Maduro hesitou em adotar mudanças que até nos escalões mais altos do governo são consideradas imprescindíveis, como a elevação do preço da gasolina, fortemente subsidiada a ponto de ser praticamente gratuita - talvez porque ele teme uma reação muito forte antes das eleições. As coisas se tornam a cada dia mais estranhas.

Você precisa de uma bateria nova para o seu carro? Traga um travesseiro, talvez tenha de dormir uma noite no seu automóvel em frente à loja. Recentemente, a fila tinha mais de 80 carros.

Quer uma nova carreira? Muitos venezuelanos abandonaram seus empregos para vender produtos de primeira necessidade como fraldas ou farinha de milho no mercado negro, triplicando ou mesmo quadruplicando o seu salário.

Precisa de dinheiro vivo? Mas não muito, não é? Alguns caixas automáticos limitam os saques ao equivalente de cerca de US$ 0,50 no mercado negro.

Considerando a escassez crônica de produtos básicos, os supermercados e as farmácias enchem longas fileiras de gôndolas com um único produto. Uma loja, recentemente, tinha as gôndolas de ambos os lados de um corredor repletos de pacotes de sal. Outra, fez a mesma coisa com vinagre. Numa farmácia podiam ser vistas prateleiras e mais prateleiras de cotonetes.

Mas, de todo tipo de escassez, a mais notável é a de notas de dinheiro, principalmente as de 100 bolívares, de cor bege rosado, as mais comuns (valor no mercado negro, cerca de US$ 0,14) e com o retrato de Simón Bolívar.

"Você quer entender por que há um monte de dinheiro e não há dinheiro?", indagou com uma gargalhada Ruth de Krivoy, ex-presidente do Banco Central. Segundo ela, o problema fundamental é que o governo não tomou nenhuma medida quando os preços começaram a subir rapidamente emitindo notas de valor alto, como as de 1.000 ou 10.000 bolívares. Por isso, as pessoas precisam de uma quantidade maior de papel para comprar os mesmos produtos que adquiriam um ano atrás.

Além disso, como as pessoas recorrem ao mercado negro para adquirir mais produtos que não podem ser encontrados nas lojas, as transações que outrora podiam ser feitas com cartões de crédito ou de débito, agora são realizadas com dinheiro vivo. Isso cria problemas logísticos, porque os bancos precisam movimentar enormes somas de papel-moeda e os caixas eletrônicos se esvaziam mais rapidamente.

Evidentemente Maduro tem ideia do impacto simbólico provocado pela emissão de notas maiores com mais zeros - e a inevitável comparação que provocaria com seu predecessor e mentor, Hugo Chávez. Em 2008, Chávez emitiu novas notas e tirou três zeros de uma moeda que há muito sofria com a desvalorização e a inflação, batizando-a de bolívar forte. Hoje, o bolívar é tudo menos forte./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

WILLIAM NEUMAN  E PATRICIA TORRES SÃO JORNALISTAS

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