Loay Ayyoub/ W. Post
Loay Ayyoub/ W. Post

Nem os dias de praia escapam do conflito em Gaza

Níveis em disparada da poluição da água, atribuídos à desordem política e econômica, criam nova barreira aos palestinos nessa área costeira de 40 quilômetros

James McAuley e Hazem Balousha / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2019 | 21h00

CIDADE DE GAZA - Outrora o mar era a única fuga, o único lugar neste minúsculo enclave onde os moradores conseguiam se afastar um pouco da vida prisioneira, mesmo que por uma hora. Mas agora um conflito incessante que tem afetado todos os aspectos da vida das pessoas também chega ao Mar Mediterrâneo. Devido aos níveis em disparada da poluição da água, atribuídos à desordem política e econômica, essa área costeira de 40 quilômetros é mais uma barreira num lugar onde as barreiras são comuns.

As pessoas ainda vão ver as ondas. E ainda param para sentir a brisa salgada do mar. Mas hoje muita gente não nada ali. Mesmo no auge do verão, nadar é arriscado. “Esse é o único lugar para respirar um pouco de ar em Gaza”, disse Rawya Thalenty, 37 anos, mãe de seis crianças, sentada na praia com uma amiga, com as mãos na água. “Não existem opções em Gaza. Esse é o único lugar onde podemos ir”.

Há mais de uma década exposto a bloqueios por terra, mar e ar impostos por Israel e Egito para pressionar o grupo militante islamista Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2007, o enclave está em meio a uma crise hídrica gerada pela política explosiva da região. As três guerras que o Hamas travou com Israel desde 2009 devastaram o já frágil sistema de água e esgoto do território.

Além disso, as usinas de tratamento de esgoto de Gaza ficam inativas durante muitas horas por dia por falta de eletricidade. Isso porque a Autoridade Palestina, que tem sede na Cisjordânia, procura corroer o apoio popular do Hamas, seu rival, suspendendo os pagamentos para Israel do combustível utilizado para gerar energia elétrica. 

Israel também faz uso dessa política energética. No início da semana, com o aumento de disparos de foguetes por parte de Gaza contra o território israelense, o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, ordenou que a quantidade de diesel fornecido por Israel para Gaza fosse reduzida à metade.

Como resultado desse tratamento inadequado, alguns estudos estimam que mais de 108 mil metros cúbicos de esgoto não tratado são descarregados diretamente no mar diariamente, e as reservas de água potável diminuíram consideravelmente. Uma situação de calamidade pública agora paira sobre quase 2 milhões de palestinos que vivem na Faixa de Gaza, muitos deles refugiados ou descendentes de refugiados da guerra de 1948, que marcou a independência de Israel.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), doenças transmitidas pela água constituem um quarto de todas as enfermidades na Faixa de Gaza. Um estudo realizado em 2018 pela Rand Corporation foi também claro em sua conclusão, prevendo um iminente surto de infecções bacterianas, parasitárias e virais, como cólera, giárdia e meningite viral, respectivamente.

“Estamos apenas sentados”, disse Jabar Shamalakh, 21 anos, estendido numa cadeira de plástico na praia, no cento de um círculo de amigos. Ele disse que há cinco anos não entra na água. No caso do seu amigo Loay Hamouda, 23 anos, há três anos, e Ahmad Arafat, 21, um ano e meio.

“É muito frustrante”, disse Arafat. “Sinto falta do mar. Eu costumava surfar às vezes, mas agora não posso”. Shamalakh fez uma pausa ao ser indagado sobre o que mais sentia falta quando sentia a água na sua pele. “Alegria”, disse ele. “Quando a água está limpa, nós sentimos alegria."

A quantidade descomunal de esgoto no mar tem consequências para toda a região, incluindo Israel, onde a cidade costeira vizinha de Ashkelon tem sofrido também os efeitos do colapso sanitário em Gaza. Um estudo publicado em março pelo EcoPeace Middle East mostrou que o esgoto de Gaza se propaga pelas praias vizinhas, e também tem interferido nas operações da usina de dessalinização de Ashkelon. 

No início deste ano, Israel prometeu construir uma quarta adutora de água em Gaza como também uma rede de esgoto para tratar os resíduos de Gaza do lado israelense da fronteira. O Catar, por outro lado, tem procurado resolver a escassez de eletricidade em Gaza, mas não tem fornecido dinheiro suficiente para compra dos estimados 400 a 600 megawatts diários que o enclave necessita.

Os engenheiros em Gaza afirmam que o bloqueio de Israel tornou praticamente impossível um tratamento adequado do esgoto. Housam Badawi, engenheiro eletromecânico, está supervisionando a construção de uma nova usina de tratamento de lixo em Gaza, projeto que inicialmente estava programado para ser concluído em 2005.

Segundo Badawi, o atraso tem a ver com o fato de as autoridades israelenses terem classificado determinados itens e materiais necessários para o término como de “dupla utilização”, o que significa que podem ser usados também para fabricação de bombas.

A nova usina é financiada pelo banco de desenvolvimento alemão KfW, que continuará a pagar uma fração dos custos operacionais depois da conclusão da central. Thomas Gaier, engenheiro alemão que cuida do projeto no local, disse que o trabalho no momento está paralisado por causa de uma disputa sobre instrumentos de medição, que as autoridades israelenses estão retendo há mais de três meses.

A COGAT, organização dentro do Ministério da Defesa israelense, que coordena as atividades de Israel nos territórios palestinos, confirmou em comunicado que os instrumentos de medição foram classificados como “equipamento tecnológico avançado de dupla utilização”. Mas o COGAT também disse que o banco KfW tem autorização para obter os equipamentos, mas não os retirou dentro do prazo de 30 dias após a autorização ser expedida.

Os atrasos no caso da nova usina, programada para processar 60 mil metros cúbicos de esgoto, contribuiu para esse fluxo ininterrupto de dejetos para o mar, com três outras usinas com capacidade para tratar somente de 85 mil metros cúbicos por dia.

Muitos habitantes de Gaza estão conscientes da poluição no Mediterrâneo, mas muita gente não consegue abandonar a praia. “A praia é a única fonte de vida para os moradores de Gaza – especialmente quando falta luz nas casas”, disse Abulhaheem Abu Qumbuz, diretor do Departamento de Águas da municipalidade. “Nós consideramos o mar uma tábua  de salvação, especialmente no verão."

Em algumas áreas o odor pútrido é inescapável. E se multidões vão à praia no auge do verão, elas apenas se sentam e olham o mar. As crianças ainda brincam na água, mas somente porque os pais dizem que não têm nem força nem coração para impedi-las, indiferentes às preocupações com o saneamento. “Eu me preocupo, mas não posso impedir as crianças, porque elas vêem outros nadando e começam a chorar”, disse Alaa Louh, 30 anos, sentada na areia e olhando os dois filhos e sua filha brincando nas ondas.

Num enclave onde o salário mensal médio é de US$ 420 e 63% dos moradores vivem abaixo da linha de pobreza de US$ 2 por dia, a praia é gratuita. A classe média e os ricos de Gaza costumam ir a piscinas particulares, onde têm acesso pagando um ingresso por um dia em um dos hotéis da região. Ou então alugam chalés que têm piscinas, que podem custar entre US$ 100 e US$ 200 por dia. Para muitos, isso é impensável.

“Se eu pudesse me dar ao luxo de ir a uma piscina – ou um chalé – não hesitaria. Mas não posso”, disse Mohammad Tota, 19 anos, que estava nadando pela primeira vez este ano, comemorando sua entrada na universidade. Para ele, a sensação de liberdade de estar na água não tem preço. “Brincar na água, sentir as ondas, libera o estresse e faz com que você esqueça os problemas”, disse ele. “Isto lembra minha infância e tempos melhores”. / TRADUÇÃO DE TEREZA MARINHO 

 

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