Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Nem tão perto, nem tão longe

Não dá ainda para garantir que o Brasil esteja imunizado contra os estragos que poderiam ser produzidos pela nova política protecionista dos EUA

Celso Ming, Colunista, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2017 | 05h00

É nessas horas, em que Donald Trump aponta sua metralhadora giratória para o sul, que a gente se lembra de Porfírio Dias, presidente do México em dois mandatos, de 1877 a 1880 e de 1884 a 1911: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”, disse ele.

Decididamente, o 45.° presidente dos Estados Unidos não gosta dos mexicanos. Acusou-os (embora não necessariamente o governo deles) de introduzir “drogas e estupradores” em território americano por meio da porosa fronteira sul. E avisou que os deportaria sumariamente. Disse que os mexicanos vêm exportando veículos baratos para os Estados Unidos e, nessas condições, contribuem para destruir postos de trabalho em território americano. E anunciou que construiria um muro ao longo da fronteira e depois os obrigaria a pagar por isso. 

Enfim, o presidente Trump pintou a cara para uma guerra comercial e o México foi escolhido como alvo preferencial dessa nova política, embora Canadá também faça parte do Nafta, o acordo norte-americano de livre-comércio, sem que em nenhum momento tivesse sido ameaçado. 

Como precisa agora dar alguma satisfação a seus eleitores, é mais provável que comece a agir pelo seu quintal, onde tudo fica mais próximo e pode ser apreciado pelas janelas da vizinhança.

Alguns comentaristas se anteciparam ao concluir que o Brasil não teria como ser mais seriamente prejudicado por essa política protecionista e xenófoba, porque não mantém um acordo comercial de peso com os Estados Unidos nem um contingente significativo de “ilegales” em território americano, embora “cucarachos” patrícios nessas condições também existam por lá.

O Brasil não está nem tão longe de Deus nem tão perto dos Estados Unidos. Mas não dá ainda para garantir que esteja imunizado contra os estragos que poderiam ser produzidos pela nova política protecionista dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, porque não se sabe quanto da retórica eleitoral agressiva e populista o governo Trump conseguirá transformar em políticas de governo.

Em segundo lugar, porque não se poderiam ignorar os efeitos sobre o Brasil de uma política comercial de substituição de importações se ela realmente for empreendida por Trump.

Se conseguir, por exemplo, prejudicar as exportações da China para os Estados Unidos, indiretamente atingirá também o Brasil, na medida em que este vende para os chineses nada menos que US$ 35 bilhões por ano (ou 19% do total exportado em 2016), em grãos, matérias-primas e produtos intermediários.

Trump promete também um amplo programa de infraestrutura, que não se limitará à construção do muro ao longo da fronteira com o México. Esse aumento de despesas públicas exigirá do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) uma política mais atuante de enxugamento de recursos do mercado (alta de juros). Se isso se confirmar, o dólar tende a se valorizar em relação ao real e isso pode tirar competitividade do produto brasileiro de exportação.

O resto são riscos e eles são relevantes. Em seus documentos de explicação da política monetária (política de juros), o Banco Central do Brasil vem alertando para o enorme grau de incerteza que provém da perspectiva de mudanças da política econômica dos Estados Unidos. E enquanto durarem essas incertezas, algum impacto haverá sobre o fluxo de investimentos estrangeiros no Brasil.

É COLUNISTA

 

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