Nem todo contato com extremistas é ruim

Suprema Corte dos EUA condena interação com grupos terroristas; medida impede que pesquisadores entendam melhor o radicalismo e evita ações mais eficazes

Scott Atran Robert Axelrod, The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2010 | 00h00

Nem todos os grupos classificados pelo governo americano como organizações terroristas são maus ou perigosos. Nem todas as informações transmitidas a eles com base no conhecimento político, acadêmico ou científico são um risco à segurança nacional.

Infelizmente, a Suprema Corte, que na semana passada defendeu uma lei proibindo dar "apoio material" a grupos terroristas estrangeiros, não considera relevantes tais fatos. Muitos grupos antes considerados terroristas, entre eles alguns que já estiveram na lista oficial do Departamento de Estado, tornaram-se nossos parceiros na busca da paz.

O Congresso Nacional Africano (CNA) é agora o partido que governa a África do Sul. O Exército Republicano Irlandês (IRA) hoje rejeita a violência e seu líder, Martin McGuiness, é vice-premiê da Irlanda do Norte. Mahmoud Abbas e a Organização pela Libertação da Palestina tornaram-se figuras centrais nas negociações de paz do Oriente Médio.

Ambos os autores deste artigo são cientistas sociais que estudam e interagem com grupos violentos para encontrar saídas para conflitos. No decorrer do desenvolvimento deste trabalho, vimos como reuniões informais e trocas de conhecimento se mostraram frutíferas. Assim, ficamos desapontados ao ver que a Suprema Corte decidiu que todo tipo de "apoio material" a um grupo terrorista estrangeiro, incluindo conversas, a transmissão de conhecimento especializado e informação científica, ajuda a conferir "legitimidade" à organização.

Sem dúvida, isso se aplica em alguns casos, mas a Justiça americana precisa encontrar uma maneira de estabelecer uma distinção entre o apoio material ilegal e as medidas legais que envolvam a comunicação particular com terroristas para reduzir o terrorismo e promover a segurança nacional.

Há grupos, como a Al-Qaeda, contra os quais combateremos até o fim. A opinião majoritária da Suprema Corte sugere, com razão, que todo tipo de ajuda oferecida a tais inimigos pode proporcionar a eles mais força para o extremismo. Ainda assim, a guerra e a violência fazem-se sempre presentes, e sua prevenção exige dos EUA esforços e inovações. Às vezes, isso significa conversar com nossos inimigos, sondando as zonas cinzentas para descobrir quem são eles e quem pode ser transformado em aliado.

É importante perceber que, numa disputa política, os líderes desejam se comunicar com o outro lado sem que seus partidários tomem conhecimento. Assim, a ideia de que todas as negociações devem ser realizadas abertamente é pouco prática. Na ausência de intermediários, os próprios cidadãos podem preencher essa lacuna.

Diferenças. As condições, é claro, devem ser rigorosas. É preciso que todos os lados estejam certos da exatidão das informações transmitidas e da garantia de confidencialidade. Essa exatidão exige habilidade para ouvir e explorar certo grau de compreensão cultural e, sempre que possível, o distanciamento intelectual proporcionado por dados científicos e pesquisas.

No trabalho que desenvolvemos com grupos classificados como terroristas, detectamos diferenças em suas atitudes. Por exemplo, em nossa interação com Ramadan Shallah, líder do grupo palestino Jihad Islâmica, vimos nele uma recusa irredutível em algum dia reconhecer a existência de Israel ou avançar no sentido de uma solução de dois Estados. No entanto, quando conversamos com Khaled Meshal, líder do Hamas, grupo tido como terrorista pelos EUA, ele disse que aceitaria uma "paz" de dois Estados. No tempo que passamos com ele, também confirmamos algo que nos foi relatado pelos serviços saudita e israelense de espionagem: o Hamas lutou para afastar a Al-Qaeda de sua área de influência e não mostrou interesse numa Jihad global.

Determinar se as diferenças entre Al-Qaeda, Jihad Islâmica, Hamas e outros grupos são fundamentais, em vez de temporárias ou táticas, é algo que somente uma exploração mais profunda pode fazer. E é um grave erro supor que seja errado dialogar com esses grupos.

No trabalho que desenvolvemos com líderes jihadistas, descobrimos variações nas aspirações políticas, nas metas pretendidas e no seu compromisso com a violência. Essas diferenças podem ser usadas como forma de influenciar a próxima geração de militantes e conquistar sua cooperação, evitando que se tornem nossos inimigos.

É uma verdade desagradável, mas a interação com grupos terroristas é, às vezes, indispensável. Mesmo que no fim as negociações não produzam resultado, conversar e ouvir ajuda a compreender melhor o motivo de tal grupo desejar nos combater, de modo que possamos rechaçá-lo com mais eficiência. O Congresso deveria esclarecer suas leis de combate ao terrorismo e compreender que a proibição de todo tipo de interação prejudicará nossa segurança nacional e as perspectivas de paz para muitos conflitos mundiais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ANTROPÓLOGO DO CENTRO NACIONAL DE PESQUISA CIENTÍFICA DA FRANÇA E ESCRITOR É PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICAS DA UNIVERSIDADE DE MICHIGAN

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