Nem todos ficarão satisfeitos

Regimes não devem tentar satisfazer o país inteiro

Richard Haas, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

Revoluções ocorrem por um motivo. No caso do Egito, os motivos são muitos: mais de 30 anos de governo de um único homem; os planos de Hosni Mubarak de transmitir a presidência ao seu filho; corrupção, clientelismo e nepotismo generalizados; e reformas econômicas que não beneficiaram a maioria dos egípcios, mas que ainda assim contrastaram muito com a quase total ausência de mudanças políticas.

Como resultado, muitos egípcios sentiam-se não apenas alienados como humilhados. A humilhação tem um grande poder de motivação. O Egito estava amadurecendo uma revolução; mudanças dramáticas ocorreriam em algum momento no futuro próximo.

Mídias sociais são um fator significativo, mas o papel desempenhado por elas foi retratado de maneira exagerada. Essa não é a primeira tecnologia potencialmente perigosa a surgir: na época de sua invenção, a prensa de tipos móveis, o telégrafo, o telefone, o rádio, a televisão e as fitas k-7 apresentaram desafios à ordem vigente. E como ocorreu com as tecnologias anteriores, as mídias sociais podem ser reprimidas pelos governos e também empregadas pelos próprios governos para motivar partidários.

O ritmo e o oportunismo são muito importantes na política. Se tivesse sido feita em dezembro, a declaração de Mubarak dizendo que não buscaria uma reeleição teria provavelmente evitado uma crise. Mas, quando ele finalmente fez o anúncio, o clima nas ruas tinha evoluído para uma situação que ele não poderia mais aplacar.

O sucesso inicial das revoluções é determinado menos pela força dos manifestantes do que pela vontade e pela coesão do regime vigente. O colapso da Tunísia se deu rapidamente, pois o presidente perdeu a cabeça e o Exército, enfraquecido, não se dispôs a apoiá-lo. O establishment egípcio e o Exército do país estão demonstrando muito mais determinação.

A partida de Mubarak é um fato importante, mas não decisivo. É verdade que representa o fim de uma longa era na política egípcia. Marca também o fim da primeira fase da revolução no Egito. Mas não passa do fim do começo. Agora tem início a disputa pelo futuro do país.

O objetivo deve ser o retardamento do relógio político. Os egípcios precisam de tempo para construir uma sociedade civil e abrir um espectro político que se manteve fechado por décadas. Um governo híbrido, tutelar, formado por elementos do Exército e da população civil, pode ser o melhor rumo a seguir. Mas retardar o relógio não significa pará-lo. Uma transição política genuína precisa avançar, ainda que num ritmo contido.

Eleições precoces devem ser evitadas, para impedir que aqueles que foram capazes de se organizar ao longo dos anos (como a Irmandade Muçulmana) gozem de uma vantagem injusta. Enquanto aceitar a legitimidade do processo político, do estado de direito e da Constituição, a Irmandade Muçulmana deve ser aceita como parte desse processo. A história e a cultura política do Egito sugerem a existência de um limite natural para o poder de sedução da irmandade se os egípcios forem capazes de superar suas principais diferenças, manter a ordem e restaurar o crescimento econômico.

A reforma constitucional é um ponto crítico. O Egito precisa de uma Constituição que goze de amplo apoio - e inclua pesos e contrapesos capazes de impedir que minorias (mesmo aquelas que recebem o voto da maioria dos eleitores) governem maiorias.

Invariavelmente, os movimentos revolucionários de dividem em facções.

Seu único objetivo comum é derrubar o regime existente. Assim que este objetivo se aproxima da concretização, elementos da oposição começam a se posicionar para a segunda fase da luta e para a futura disputa pelo poder. Já começamos a ver sinais disso no Egito, que devem se tornar mais evidentes nos próximos dias e semanas.

No Egito, alguns ficarão satisfeitos com a democracia; outros (provavelmente a maioria) estarão mais preocupados com a ordem pública, mais transparência na administração do governo, certo grau de participação política e melhorias econômicas. Nunca é possível satisfazer às demandas de todos os manifestantes, e trata-se de algo que os regimes não devem tentar fazer.

Os estrangeiros tiveram e seguirão tendo influência limitada sobre o curso dos acontecimentos. Nos últimos 30 anos, pedidos intermitentes feitos pelos EUA no sentido de uma reforma política limitada foram ignorados sem cerimônia. Uma vez iniciada a crise, os principais protagonistas foram o povo nas ruas, o próprio Mubarak e, principalmente, o Exército. Na sua continuação, serão novamente os próprios egípcios os principais encarregados de determinar o rumo seguido por seu país.

Cabe aos egípcios definir para si mesmos o tipo e o alcance da democracia que querem. Os estrangeiros podem ajudar - oferecendo, por exemplo, ideias para a reforma constitucional e procedimentos eleitorais -, mas isso deve ser feito em particular e como sugestões, e não exigências.

O desenrolar dos fatos no Egito terá consequências assimétricas na região. Nem todos os países próximos serão afetados por igual. As verdadeiras monarquias, como a Jordânia, possuem legitimidade e estabilidade com as quais os líderes de monarquias falsas (Síria, Líbia e Iêmen) não podem contar, e nem o regime iraniano. Muito depende do que vai ocorrer e de como ocorrerá. É cedo demais para saber se a mudança no Egito será ampla e duradoura, ou mesmo positiva, e portanto ainda não podemos compreender seu impacto histórico. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-DIRETOR DE PLANEJAMENTO PARA AS POLÍTICAS DO DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA

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