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Nem todos morriam, mas todos eram atingidos

Coronavírus atinge tanto ricos quanto pobres, mas a diferença entre ricos e pobres nunca foi tão profunda quanto em tempos de coronavírus

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 03h00

Poema de La Fontaine, poeta do século XVII: “Um mal que espalha o terror / mal que os céus, em sua fúria, enviaram para punir os crimes da terra / Uma peste - pois é preciso chamá-la por seu nome / capaz de abastecer o Aqueronte num único dia / fez entre os animais a guerra / Nem todos morriam, mas todos eram atingidos”. Jean de La Fontaine.

La Fontaine não fala do coronavírus, que ainda não havia sido inventado, mas da praga que ocorreu muitas vezes nos séculos passados e provocou terríveis devastações. O ponto comum é que a peste, como o nosso vírus, cega que é, ataca igualmente homens ricos e andorinhas, homens pobres e leões, tigres e camundongos. Mas, na verdade, nem sempre a praga os atinge da mesma maneira. Sem dúvida, a diferença entre ricos e pobres nunca foi tão profunda quanto em tempos de peste - ou de coronavírus.

Não podemos dar as costas aos países pobres que o coronavírus está prestes a massacrar. Há dezenas deles. “O colapso de vastas nações, às vezes de uma região inteira ou mesmo de um continente inteiro”, publicou a Foreign Affairs, “pode nos remeter à queda do Império Romano. Quando o Império Romano do Ocidente se desintegrou, entre os séculos IV e VI, diz o historiador Wakbanks, surgiu uma série de pequenos territórios”. Fim da globalização, do comércio, das viagens. Cada um vive no seu canto, cultiva uma roça de alho-poró, colhe um punhado de centeio, cria uns coelhos, coleta cinco ovos pela manhã. No mercado, uns poucos produtos locais. Nada mais de frutas que chegam depois de pegarem três voos, de morangos colhidos nos antípodas, de peras da outra metade do globo, de camarões pescados a 10 mil quilômetros.

Fim dos grandes negócios. Retorno do pequeno comerciante que empilha produtos locais numa vendinha escura. Cada pedaço de chão precisa se contentar com as mercadorias de seu vizinho. “Nesses enclaves, diz a Foreign Affairs, veremos o retorno da produção de subsistência, destinada apenas ao mercado local e às redondezas”.

Muito bem. Mas existem cidades, regiões, países que só sobrevivem graças ao comércio.

A maior cidade da Nigéria tem cerca de 25 milhões de habitantes e é estritamente comercial, um dos principais centros de comércio e finanças da África. Acaba de ser ferida de morte. Como uma população que já é pobre poderá alimentar seus 25 milhões de habitantes sem o auxílio das receitas do comércio exterior? O que se prenuncia é pobreza absoluta, fome. Na capital, Abudja, uma mulher responde, chorando: “Não posso me dar ao luxo de ficar em casa. Sei que é arriscado sair. Mas, se não conseguir alguma coisa para alimentar minha família, morreremos antes de sermos mortos pelo vírus”.

Este pranto materno atravessa todo o continente. As mulheres africanas sabem que, durante a Revolução Francesa de 1789, uma reviravolta decisiva se deu neste dia de 1792, quando (depois de quatro horas de estrada) uma multidão de mulheres abatidas, muito ameaçadoras, muito perigosas, marchou até o Palácio de Versalhes e exigiu: “pão, pão, pão!” (na França dos tempos clássicos, o rei tinha a obrigação de fornecer pão, um alimento sagrado, a cada cidadão. Isso explica o choro dessas mulheres). E, agora, os gritos das mulheres da Revolução Francesa são repetidos séculos depois pelas mães da África. Nas cidades da fome, procissões de mães gritam: “Comida! Comida! Comida!”.

Outro torniquete que inexoravelmente aperta o pescoço dos pobres: o trabalho informal. Na Itália, por exemplo, segundo o Istat (Instituto Nacional de Estatística), três milhões e setecentas mil pessoas trabalham sem contrato - garçons, trabalhadores braçais, empregadas domésticas. Desnecessário dizer que essas pessoas não têm assistência social. “Nada de documento, nada de auxílio do governo para esses fora-da-lei. Bem feito para eles!”. Obviamente, a grande maioria desses miseráveis vive no sul da Itália, região mais pobre do país.

Um país americano (provavelmente mais do que um único país) está seguindo o mesmo rumo. No México, contam-se aos milhões as pessoas que pertencem à economia invisível ou informal - em todo caso clandestina. Sem contrato, sem auxílio, o que resta é a morte? Vendedores ambulantes, empregadas domésticas, trabalhadores que ganham por jornada: “Trabalhamos dia após dia. Às vezes pulamos as refeições, as crianças também. E, como não somos declarados...”. De acordo com o Ineggi (Instituto Nacional de Estatística), três milhões de mexicanos trabalham sem existir. Como colocá-los em quarentena? Obviamente, a lei deveria valer para todos, até mesmo para as pessoas “invisíveis”.

“Não posso sair mais de casa? E quem dará de comer aos meus filhos?”. No México, em quase toda a África e aqui e ali nos outros continentes, uma bomba social está pronta para explodir. / Tradução de Renato Prelorentzou

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