Nem todos querem ir ao museu do 11/9

Para alguns moradores de Nova York, trauma dos atentados de 2001 ainda é muito recente

Alan Feuer*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

19 Maio 2014 | 02h06

O Museu e Memorial Nacional 11 de setembro pretende ser um exercício do poder catártico da memória. Em sua inauguração, na quinta-feira, o presidente americano, Barack Obama, pronunciou um discurso triste, ressaltando que as vidas dos que morreram nos ataques terroristas de 2001 serão homenageadas pelas histórias contadas "nas marcas de duas torres poderosas".

Mas para alguns nova-iorquinos, as lembranças e as histórias ainda estão demasiado presentes, e apesar da importância da mensagem transmitida pelo museu - e apesar dos comentários da imprensa - não pretendem visitá-lo quando for aberto ao público amanhã.

Algumas pessoas disseram que não precisam de uma exposição para recordar uma tragédia pessoal que jamais poderão esquecer. Outras alegaram simplesmente que não encontrariam consolo ou alívio no memorial - apenas mais dor.

Os sentimentos ambivalentes da população são uma mescla complexa de um certo orgulho dos sobreviventes ("Não conte para mim o que eu vi") e de desgaste emocional ("Não quero ver isso nunca mais"). Mas também podem ser explicados pela complexa missão do museu, que, como Holland Cotter observou em sua matéria no New York Times é ser ao mesmo tempo "um documento histórico, um monumento aos mortos" e "uma atração turística no estilo de um parque temático".

"Não sei o que eu deveria sentir", disse Hustine Tourneau, uma atriz de 30 anos. "Deveria chorar? Ou ficar indignada? Ou apenas permanecer aqui, em silêncio? É muito confuso. Preferiria ficar aqui".

A hesitação parece particularmente maior entre os que estavam na cidade no dia dos ataques e que perderam algum ente querido.

"Veja bem, este não é o Museu de História Natural", observou Jim Riches, ex-chefe do Departamento de Combate ao Fogo, cujo filho, Jim Jr., também bombeiro, morreu em 11 de setembro. "Conheço muitos rapazes que não querem ir porque ficaram lá durante meses, quando era o inferno de Dante. As lembranças são muito fortes. Eles não vão voltar". Na época dos ataques, Bill Grueskin trabalhava no World Financial Center, em frente ao WTC. Ele ainda não esqueceu a nuvem de fumaça fantasmagórica que tomou conta das ruas.

Para piorar a situação, Grueskin morava pouco distante dali, em Battery Park City, naquela época. Portanto para ele, a experiência foi completa - ele não tinha como fugir.

"Na realidade, eu gostaria de ver o museu", disse Grueskin, "mas não tenho certeza se vou conseguir fazer isto cercado de gente que não passou por tudo aquilo que eu passei. Não quero dizer que seja um direito meu, mas realmente gostaria de ver o lugar sozinho. Não suporto a ideia de ficar lá com todos aqueles ônibus e turistas com aqueles chapéus idiotas".

Esta semana, os parentes de algumas das vítimas foram até o memorial para protestar contra a decisão das autoridades de transferir os restos mortais não identificados de algumas delas do laboratório de medicina legal de Manhattan para uma sala reservada com esta finalidade, em baixo do museu. As famílias vêm discordando quanto ao seu objetivo e design praticamente desde o momento em que o projeto do museu começou a tomar corpo.

O mal-estar é sentido não apenas por aqueles que têm uma relação íntima com os ataques. O Times de quarta-feira pediu aos leitores que respondessem à pergunta: "Você pretende visitar o Museu?" Das cerca de 150 respostas, a maioria foi negativa: "Acho que não", "É improvável", "De jeito nenhum", "Sem chance".

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