'Nenhum deles se atreve a falar da violência'

Cientista político analisa por que principais temas da campanha são conchavos e corrupção, e não a insegurança

Entrevista com

RODRIGO CAVALHEIRO, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h07

A julgar pelo noticiário internacional sobre o México, os 47,5 mil cadáveres que o conflito em torno do narcotráfico produziu desde 2006 deveriam ser o principal tema na campanha presidencial. Não são. Nos dois debates entre os candidatos, o tema foi praticamente ignorado. Falou-se, basicamente, de emprego e de combate à corrupção. São raros os outdoors com soluções para a insegurança pública - que, segundo, o ex-ministro de Finanças do país, Ernesto Cordero, diminui em 1,2% o crescimento anual do país.

O cientista político e especialista em estudos da violência Alejandro Hope, do Instituto Mexicano para a Competitividade, trabalhou no Centro de Investigação e Segurança Nacional entre 2008 e 2011. Conhecedor da máquina pública, acredita que o silêncio dos candidatos é eloquente e reflete a experiência deles sobre o tema - uma espécie de telhado de vidro coletivo.

A violência está nas ruas e fora da campanha. Por quê?

A violência esteve surpreendentemente ausente na campanha por uma razão simples, não é um assunto em que qualquer dos candidatos seja referência. Ninguém se atreve a falar da violência. O PRI governa agora os Estados mais violentos do país. A candidata do PAN tem o problema de representar o governo federal. E a esquerda de López Obrador, historicamente, vê a violência como um assunto derivado, um subproduto da pobreza. Não vê sentido em enfrentá-la diretamente. Ninguém apresenta propostas muito diferentes das do presidente (Felipe) Calderón e mais ou menos todos concordam com o uso das Forças Armadas.

Há um mês, o movimento estudantil 'Yosoy132' mudou o perfil da campanha com grandes manifestações contra Peña Nieto e o PRI. O grupo é apartidário como se apresenta?

O movimento estudantil está com López Obrador, mas há uma tensão entre aqueles que defendem um movimento amplo, simplesmente contrário à concentração de poder, e aqueles que defendem abertamente Obrador. Recentemente, houve até uma ruptura e se formou um subgrupo que agora se chama Generación.

O jornal 'The Guardian' e o site WikiLeaks denunciaram recentemente manipulação da rede de TV Televisa, a principal do país, em favor de Peña Nieto. Como isso repercutiu na campanha?

É uma notícia velha, apresentada pela revista Proceso há sete anos. Traz alguns elementos adicionais, mas, infelizmente, no México, comprar espaço nos meios de comunicação é comum. A Televisa nega as acusações, mas há casos de compra de cobertura nos noticiários de TV. Isso ocorre com apresentação de governadores ou secretários inaugurando obras. O mesmo serviço foi oferecido ao então presidente Fox e a López Obrador. A reforma eleitoral de 2007 limitou a capacidade dos partidos de comprar spots nos meios. Não há aí uma proximidade ideológica, mas é simplesmente uma questão comercial.

Partidários de Peña Nieto respondem a estas ilações dizendo que López Obrador tem o bilionário Carlos Slim em sua campanha. Esse apoio é explícito?

Há uma boa relação entre eles. Quando Obrador era prefeito do Distrito Federal, Slim fez muitos investimentos para melhorar o centro da Cidade do México. Os dois se aproximaram.

A briga entre Slim e a Televisa por mercado não explica essa divisão nos apoios?

Os dois são competidores férreos. A Televisa começou a fazer uma aposta estratégica em comunicações na qual a telefonia celular e os canais a cabo são o foco. Isso a coloca em confronto direto com Slim, que, por enquanto, não pode entrar no ramo da televisão.

A candidata do governo, Josefina Vásquez Mota, foi abandonada até por Vicente Fox, um ex-presidente que pertence a seu partido e recomendou o voto em Peña Nieto. Por quê?

Fox foi pouco prudente no uso da palavra, e isso não é de agora. Dizem que ele quer impunidade para os filhos de sua esposa (acusados de tráfico de influência). Outra hipótese é que ele tenha percebido o risco de uma vitória de López Obrador, com quem tem uma relação muito ruim. Ele temeria problemas com a Justiça em um governo de Obrador.

Embora Peña Nieto lidere com folga as pesquisas, os eleitores de outros candidatos são mais visíveis. É motivo de vergonha dizer que vota em Peña Nieto?

Esta visibilidade depende da região do país. A Cidade do México não é território de Peña Nieto. O PRI é muito presente na zona rural, no sul do país. Oaxaca, Chiapas e Veracruz. E o PAN perdeu terreno em Guadalajara e Monterrey, onde tinha penetração na classe média. A violência a consumiu.

Como crê que o cenário da violência estará em cinco anos?

A violência tem diminuído. O pico foi no fim de 2010. Em Ciudad Juárez, caiu o número de homicídios, em parte, porque algumas facções ganharam. Em Tijuana ocorreu a mesa coisa. Influenciou também na redução da violência o fato de que, entre 2006 e 2011, houve um aumento de 75% nos gastos em agências de segurança. No nível federal, a corrupção diminuiu muito. No entanto, nos níveis estadual e municipal, não. Hoje, esse é o principal desafio do México.

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