'Nenhum dos lados quer o Irã com a bomba'

Político próximo ao líder supremo diz que país mudou com Rohani no poder e esta é uma administração 'sensata'

Entrevista com

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2013 | 02h04

"O Irã mudou" e sabe que a construção de uma bomba atômica levaria o país a um "caminho destrutivo". As afirmações são de um dos principais nomes da política iraniana, Ali Larijani, presidente do Parlamento e um dos mais próximos do aiatolá Khamenei, líder supremo do país.

A menos de uma semana da reunião em Genebra que marcará a volta das negociações sobre o dossiê nuclear iraniano entre Teerã e o Ocidente, Larijani falou por mais de uma hora com um grupo restrito de meios de comunicação, entre eles o Estado. Ele confirmou a mudança de tom de seu governo.

O político afirmou que o acordo nuclear que o Brasil negociou com o Irã em 2009 não poderá ser usado como base de um novo entendimento. Mas garantiu que não existe um problema nas relações entre Teerã e Brasília.

Larijani chegou a ser candidato a presidente, em 2005, contra Mahmoud Ahmadinejad, mas ficou com apenas 5,8% dos votos. Foi chefe da Guarda Revolucionária e negociador-chefe para os temas nucleares.

O que pode sair das negociações da semana que vem?

Um pequeno grupo de países que estava usando sanções e ameaças optou por uma solução política. Se a vontade coletiva é de se ter uma solução política, então a solução será relativamente fácil.

As bases do acordo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs ainda podem servir de modelo para o processo?

A base de Lula era para ajudar a criar algo totalmente diferente. Naquele momento, precisávamos de combustível enriquecido em 20% para o reator. Essa necessidade foi atendida de outra maneira e o caso está encerrado. A Agência (Internacional de Energia Atômica) e certos países se recusaram a nos permitir abastecer de combustível e tivemos de abastecer a nós mesmos com o que produzimos. A negociação hoje é totalmente diferente.

Em que é tão diferente?

O Irã está demandando o reconhecimento de uso pacífico de energia nuclear. É parte de nossos direitos. O outro lado diz estar preocupado que o programa conduza a uma bomba. Concordamos que uma bomba será um caminho muito destrutivo. Portanto, as duas partes precisam chegar à fórmula para que as duas preocupações sejam atendidas. Não pode ser tão difícil.

O Brasil ainda teria espaço nas negociações?

O Irã daria as boas vindas a qualquer tipo de papel que o Brasil desempenhar.

Houve um distanciamento entre o Irã e o Brasil nos últimos anos?

Não de nossa parte. Temos muitos pontos em comum e nossas relações comerciais são importantes.

Como o sr. vê a posição dos EUA? Washington diz que quer negociar, mas insiste que respostas militares estão sobre a mesa.

Esses comentários são problemáticos para eles mesmos. Ninguém dá mais valor a essas ameaças dos EUA.

O governo americano já deu algum sinal para restabelecer a confiança?

Precisamos ser realistas. Por 50 anos, eles mantiveram uma política de opressão contra o Irã. Montaram golpes de estado e guerra. Não podem restabelecer confiança da noite para o dia.

O que o Irã exige dos EUA para restabelecer relações diplomáticas normais?

Que eles não sabotem as negociações. Mudanças ocorreram com os dois lados. Países que achavam que poderiam colocar pressão para que o Irã mudasse de posição entenderam que persistimos em nossos objetivos e temos hoje acesso maior à tecnologia nuclear para fins pacíficos. Uma nova administração chegou ao poder no Irã e, claro, tem seu próprio estilo de negociação. O Irã mudou.

Os ativos iranianos congelados por anos pelos americanos fariam parte dessas ações para criar confiança?

Não sei quanto há bloqueado pelo mundo. Mas é algo avaliado em mais de US$ 10 bilhões. Só peço aos americanos que não peguem uma parte do dinheiro.

Com a ligação entre os presidentes do Irã e dos EUA, parece haver uma chance real para um diálogo. Quais são as propostas concretas?

A retomada da negociação é de fato uma janela de oportunidades, mas as partes precisam usá-la. Se uma delas dormir no ponto, vamos perder. Precisamos ter um plano da direção a que vamos e eu garanto que esses planos existem. No encontro que teremos, não será uma noite para recitar poemas.

Países no Ocidente esperam obter do Irã um compromisso no que se refere ao máximo de atividades de enriquecimento de urânio. O sr. está preparado para aceitar isso?

Minha impressão é de que não estamos na posição zero nas negociações. Na questão de transparência, não há diferenças. Somos parte da AIEA. Até hoje há inspeções e câmeras em nossas instalações. Mas não podem ser feitas regras apenas para o Irã.

A situação econômica que vive o Irã pesou para que o país aceitasse voltar a negociar?

Os problemas enfrentados com a economia não tem qualquer relação com sanções. Tivemos problemas de gerência e isso já está sendo trabalhado.

Quais eram suas diferenças com o ex-presidente Ahmadinejad?

Não era uma competição. Mas tínhamos ideias diferentes. Acredito que a nova administração é sensata.

Como o sr. vê o que está ocorrendo no Egito?

Não estamos contentes. Uma grande revolução ocorreu no Egito. Mas algum tempo depois ela encontrou problemas. O exercício democrático começou e o experimento foi apoiado pelo Irã. Lamentavelmente, alguns partidos criaram problemas. Garanto que, no caso de Egito, Bahrein ou Síria, uma opção militar não é a resposta efetiva.

E a situação na Síria?

Não haverá solução da noite para o dia. O envolvimento de terroristas é algo preocupante. Eles entraram na Síria dos quatro cantos do mundo, mesmo da Europa. Criaram uma série de ilhas terroristas, trouxeram armas e cresceram. Se esse terrorismo continuar, vai ter repercussões globais. Se alguns países pararem de dar armas, então pode ser rapidamente solucionado. Os governos que ajudaram a radicalizar o conflito entenderam que uma solução militar não é possível.

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