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'Nenhum país é alheio ao terrorismo internacional', diz secretário de Segurança espanhol

Para Ministério do Interior, grupos ligados à Al-Qaeda no Magreb são principal ameaça hoje

Christina Stephano de Queiroz, especial para o estadão.com.br,

10 Setembro 2011 | 18h38

Atualizado às 19h50

 

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

SÃO PAULO - Recursos de inteligência para melhorar a coordenação dos corpos de polícia com forças de segurança do exterior foram táticas adotadas pelo governo da Espanha depois do atentado em Madri, em 11 de março de 2004. Para o secretário de Segurança do governo espanhol, Justo Zambrana, "nenhum país é alheio ao terrorismo internacional". Zambrana é número dois do Ministério do Interior da Espanha.

 

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Em entrevistas exclusivas ao estadão.com.br, Zambrana, Josep Lahosa Cañellas, diretor dos serviços de prevenção de segurança da prefeitura de Barcelona, e o sargento Josep Manel Rodríguez, integrante dos Mossos de Esquadra (polícia autônoma da Catalunha), explicam como a experiência no combate aos ataques do ETA (organização separatista que luta em favor da independência do País Vasco) e à proximidade com o Norte da África permitem fazer frente a novas ameaças de grupos terroristas, entre eles os que se organizam no Magreb islâmico.

 

estadão.com.br: Quais os impactos a médio e largo prazo do atentado em Atocha?

Justo Zambrana: Da mesma forma que em Nova York e Londres, o atentado em Madri mostrou que nenhum país é alheio ao terrorismo internacional. Percebemos que temos de lidar com um tipo de organização mais complexa, se comparada às que havíamos combatido até 2004. Com isso, foi preciso integrar as políticas de segurança do país com toda a União Europeia, Estados Unidos e outras regiões do Mediterrâneo. Logo após o atentado, foram criadas medidas preventivas que permitiram, entre outros objetivos, enfraquecer a estrutura de financiamento das redes terroristas.

 

Josep Lahosa Cañellas: O Islã, como cultura ou opção religiosa, não tem nada a ver com terrorismo. Sobre Atocha, é preciso lembrar que durante décadas a Espanha lutou contra o terrorismo do ETA e essa experiência nos ajudou a superar o forte impacto emocional do atentado. De forma geral, não acho que o país modificou sua estratégia de segurança, especialmente no que se refere ao cidadão, que não percebe maior presença de policiais nas ruas. Houve sim um aumento nos recursos de inteligência e nos espaços de coordenação operativa para de análise e gestão da informação.

 

Josep Manel Rodríguez: Já contávamos com uma área dedicada a terrorismo de caráter islâmico antes do atentado. Depois, contratamos novos agentes especializados e reforçamos o trabalho conjunto com outras polícias, tanto da Espanha quanto do exterior, principalmente com a Europol (escritório europeu de polícia).

 

estadão.com.br: Que medidas foram tomadas pelo Governo da Espanha para combater ações de grupos terroristas?

Justo Zambrana: As estruturas das Forças e Corpos de Segurança do Estado (FCSE) foram melhoradas. Assim, desde 2004, o número de profissionais dedicados à luta contra o terrorismo em geral aumentou 50%, passando de cerca de 3,8 mil pessoas para 5,6 mil. Já para o terrorismo islâmico, elevamos os efetivos dos 100 funcionários em 2004 para 1,3 mil pessoas no presente. O governo contratou 70 tradutores, tanto nas FCSE como nas instituições penitenciárias e criou o Centro Nacional de Coordenação Antiterrorista (CNCA), para contar com mais inteligência nas investigações. Também desenvolveu o Plano de Prevenção e Proteção Antiterrorista que, em casos de ameaças mais graves, aciona o exército. O controle nas fronteiras aumentou e, hoje, as companhias de transporte devem passar informações antecipadas sobre os passageiros que chegam ao país de fora do espaço Schengen.

 

O governo mudou a legislação para controlar explosivos, pois havia uma falta de organização nesse aspecto e criou unidades de segurança especializadas em ameaças com armas nucleares, radiológicas, bacteriológicas e químicas. Além disso, alterou a lei para acessar dados telefônicos de suspeitos e identificar usuários de linhas pré-pagas. Especialistas do Corpo Nacional de Polícia e da Guarda Civil passaram a ser treinados em outros países, como Afeganistão. Contamos, por fim, com uma equipe de apoio para suspeitas de grandes ataques, que pode atuar em outros países. Esse grupo foi acionado, por exemplo, no atentado contra turistas da Espanha no Iêmen, em 2007.

 

estadão.com.br: Quais os principais desafios relacionados com ameaças terroristas?

Justo Zambrana: A criação da Al-Qaeda no Magreb islâmico supõe um desafio de grande importância. De outro lado, as mudanças feitas na estratégia de segurança permitiram prender 392 pessoas vinculadas ao terrorismo jihadista, desde 2004.

 

Josep Lahosa Cañellas: Da mesma forma que contávamos com profissionais treinados psicologicamente e operativamente para combater o ETA, a proximidade da Espanha com o Magreb e as relações com o Marrocos permitem conhecer bem os fenômenos jihadistas da região. Com isso, é possível aumentar a pressão sobre os coletivos supostamente perigosos e sobre atividades ilícitas vinculadas com terrorismo.

 

estadão.com.br: O atentado em Atocha mudou a relação da Espanha com o mundo muçulmano?

Justo Zambrana: Mudou em parte. A relação da Espanha com os imigrantes muçulmanos é de respeito mútuo e muitos já estão adaptados à vida e aos costumes do país. Temos uma longa história de convivência com países muçulmanos e nosso futuro está conectado com o deles.

 

No entanto, devemos reforçar o compromisso da sociedade civil contra ideologias e comportamentos extremistas e violentos. E isso deve ser feito por meio do diálogo, que permite evitar processos de radicalização. O governo deve, por fim, ser capaz de acabar com desigualdades e atitudes que provocam os sentimentos de humilhação, ódio e frustração que as organizações terroristas usam como desculpa para recrutar novos membros.

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