Reithera via REUTERS
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Nenhum país está a salvo enquanto todos os países não estiverem a salvo, diz epidemiologista da OMS

Para a diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da Organização Mundial da Saúde, Katherine O’Brien, vacinas devem ser alocadas de acordo com necessidades, não contratos

Entrevista com

Katherine O’Brien, diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da OMS

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 05h00

A vacinação lenta em diversos países pode favorecer a circulação e mutação do coronavírus, colocando pressão mesmo sobre países com altas taxas de imunização, afirma a diretora do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da Organização Mundial da Saúde (OMS), Katherine O’Brien. Para ela, o cenário exige coordenação global. “As fronteiras dos países não são impermeáveis ao vírus”, afirma. Confira a entrevista:

Quais são, hoje, os principais gargalos da cadeia de abastecimento de vacinas?

Há um grande número de desafios. A primeira coisa a se dizer é que estamos em um cenário difícil. Os países pobres e médios representam quase metade da população mundial, mas só 17% das doses administradas foram para estes locais. Há países vacinando crianças, enquanto outros nem completaram a vacinação de trabalhadores de saúde. Nós sabemos que isso não vai levar ao fim da pandemia. O abastecimento é uma questão central e está relacionado com isso. Não há vacina suficiente para imunizar todo mundo que queira ser imunizado. Não temos capacidade de produção para tudo isso, então os meios de alocar vacinas precisam ser calculados em termos de necessidade e de impacto para a saúde pública, não com base em competição de contratos e de quem pode pagar. Parte do problema é a disponibilidade de matéria-prima, outra parte é onde a produção está sendo feita. 80% de toda a capacidade global de produção de vacinas contra a covid-19 está concentrada em só 10 países. A África, por exemplo, precisa importar 99% das vacinas que precisa. 

Com o avanço das campanhas, estes problemas podem aparecer também durante a segunda onda de imunização?

Certamente. Mas há ações que podem ser tomadas para diminuir em curto prazo os problemas de suprimento e desigualdade. Por exemplo, países que compraram muitas doses e estão muito à frente em suas campanhas de vacinação podem começar a compartilhar vacinas, como vários já estão fazendo. Mas isso precisa acontecer em uma grande escala. Segundo, eles podem trabalhar com os fabricantes para que permitam que suprir o programa Covax se torne uma prioridade. Outra coisa que os fabricantes podem fazer é priorizar o compartilhamento de insumos, para que a produção aconteça em lugares que possam garantir acesso equânime. Outra ação seria financiar completamente o Covax. Três ou quatro bilhões de doses poderiam ser adicionadas ao programa. É nisso que estamos focando agora, e que nos ajudariam no futuro, em 2022. 

Negacionismo e negligência por parte de alguns governos, como aconteceu na Tanzânia, e hesitação de parcelas da população também desempenham um papel neste cenário?

Liderança política é muito importante no apoio a programas de vacinação. E o que queremos enfatizar é que as vacinas não deveriam ser politizadas. Precisamos de liderança política para tranquilizar a população em cada país, e a tomada de decisões de líderes políticos é fundamental para este acesso. O papel da mídia social também é muito importante, já que ela pode apoiar ou propagar desinformação sobre as vacinas. Então há uma responsabilidade real das companhias e canais de fornecer informação correta. Confiança em relação à vacina pode ser uma barreira, absolutamente, e pode ser um desafio. O que queremos enfatizar é que as vacinas são produtos salva-vidas. É muito importante que líderes façam esse papel para divulgar informações corretas.

Sabemos que o cenário atual da vacinação no mundo expõe a desigualdade entre os países. Mas ele pode também ampliar esta desigualdade?

Está expondo e sim, pode aumentar. Acho que sempre há um risco. Se falharmos agora na resposta à desigualdade que já existe em relação às vacinas contra a covid-19, certamente o cenário pode se tornar pior. E essa é a responsabilidade de todos os países, no mundo todo, que se comprometeram via declarações à OMS e em outros fóruns, entendendo que a pandemia não vai acabar a não ser que haja distribuição equânime das ferramentas que temos para terminar com ela. Dissemos repetidamente: nenhum país está a salvo até que todos os países estejam a salvo. Isso é real. Enquanto partes do mundo não estiverem protegidas, o vírus continuará a circular e a mudar, colocando pressão mesmo nos países com altas taxas de imunização. Precisamos de coordenação global: as fronteiras dos países não são impermeáveis ao vírus. 

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