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Nenhuma ruptura à vista

Os americanos votaram de novo por mudança em Washington, pois os republicanos de oposição assumiram o controle nas duas Casas do Congresso. Com as atenções se voltando para a disputa presidencial de 2016, este é um momento propício para se ponderar o que tudo isso significa para o papel dos EUA no mundo.

Ian Bremmer, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2014 | 02h01

Em política externa, Barack Obama se revelou um presidente avesso ao risco. Alguns elogiam sua cautela como uma correção sábia aos excessos da "guerra global ao terror" do governo de George W. Bush. Outros advertem que a relutância de Obama em se engajar tornou o mundo um lugar mais perigoso.

Após quase seis anos na Casa Branca, Obama sabe bem que, faça ele o que fizer, sempre haverá alguém descontente com o presidente dos Estados Unidos.

Não que Obama tenha evitado todo e qualquer conflito. Ele enviou mais soldados americanos ao Afeganistão antes de começar o processo de retirada final; aprovou a participação americana nas operações militares multinacionais que levaram à queda e à morte de Muamar Kadafi, na Líbia; falou grosso contra intervenções da Rússia na Ucrânia e impôs sanções a bancos, empresas de energia e fabricantes de armamentos russos; ordenou o bombardeio de militantes islâmicos no Iraque e na Síria.

Durante seu governo, a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) espionou inimigos, aliados e, supostamente, até mesmo integrantes do Congresso americano. Aviões não tripulados (drones) continuam a despejar bombas dentro dos territórios de outros países.

Obama, no entanto, é mais conhecido por sua relutância em assumir novos custos e riscos no exterior. Ele deixou claro, antes mesmo de se tornar presidente, que pretendia não só dar um fim às guerras no Iraque e no Afeganistão, mas evitar o início de novas guerras. "Não fazer besteira", disse ele a repórteres que lhe pediram para explicar sua doutrina de política externa.

Não atacar Bashar Assad na Síria, não enviar tropas à Ucrânia, não enviar mais soldados ao Iraque, a despeito do que os militantes do Estado Islâmico fizerem. Obama não é um "falcão" e não tem a intenção de se tornar um.

Na longa marcha para a eleição presidencial americana de 2016 que começa, o mundo poderá perfeitamente perguntar: como o próximo presidente dos EUA conduzirá a política externa do país?

Por ter servido como a primeira secretária de Estado de Obama, Hillary Clinton, caso seja eleita, seguiria a atitude cautelosa de Obama? Um presidente Jeb Bush restauraria as ambições grandiosas da abordagem neoconservadora de seu irmão? Um outro candidato introduziria algo completamente novo?

O próximo presidente dos EUA, democrata ou republicano, provavelmente, não conduzirá o país para algo muito diferente de seu caminho atual. Isso tem duas razões. Primeiro, mesmo que cada candidato presidencial sério fale duro para impressionar eleitores, todos estão cientes de que os americanos continuam focados inteiramente na política doméstica e no revigoramento da economia do país.

Uma pesquisa Pew Research, realizada no fim do ano passado, revelou que, pela primeira vez nos 50 anos desde que a Pew começou a fazer esse levantamento, a maioria dos americanos disse que os EUA "deveriam se importar com seus próprios interesses internacionais e deixar outros países se saírem por conta própria". Apenas 38% discordaram. Isso é um afastamento de dois dígitos da norma histórica. Oitenta por cento concordaram que os EUA "não deveriam pensar tanto em termos internacionais e se concentrarem mais em seus próprios problemas nacionais".

Nenhum presidente pode manter uma política externa cara e ambiciosa sem um respaldo público confiável. Nos EUA, esse respaldo já não existe - a menos que haja algum outro grande ataque terrorista em solo americano, ele não voltará no futuro previsível.

Segundo, digam o que disserem os candidatos durante a campanha, ambos os partidos reconhecem que não há solução fácil para os problemas internacionais mais intratáveis de hoje. A Rússia não pode obrigar a Ucrânia a permanecer para sempre na órbita de Moscou. Nenhuma potência, nem mesmo a única superpotência do mundo, pode obrigar os russos a pararem de tentar.

Sanções podem infligir danos no longo prazo, mas não mudarão a mente de Vladimir Putin. Este conflito caminha para um impasse e nenhum presidente americano arriscará sua presidência na aposta de que Washington poderá rompê-lo.

Militantes do Estado Islâmico (EI) continuarão com suas ações no Iraque e na Síria. Eles não têm o poder de ameaçar o governo central em nenhum dos dois países ou mesmo de desalojar os curdos de seu território no norte do Iraque, mas Washington não pode derrotar completamente o EI sem enviar soldados novamente ao Iraque. A menos que ocorra um ataque em larga escala do EI em solo americano, o próximo presidente, democrata ou republicano, não pedirá ao povo para apoiar outra guerra no Iraque.

Provavelmente, o próximo presidente tampouco acreditará que um combate político e econômico com a China em apoio a manifestantes pró-democracia em Hong Kong, ou em alguma outra parte, é uma ideia sábia. O mais perto que ele ou ela poderia chegar de provocar Pequim é apoiar a Parceria Trans-Pacífico, um acordo comercial enorme que aprofundará os laços americanos com muitos vizinhos da China.

Quando a próxima rodada de candidatos presidenciais entrar em cena, esperem ouvir uma renovação da retórica agressiva em política externa. Não se enganem. Nos próximos anos, Washington permanecerá à margem dos conflitos mundiais mais caros e arriscados. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group e professor de pesquisa global na Universidade de Nova York 

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