Nepal procura uma deusa

Procura-se deusa. Benefícios: acomodações em palácio, serviço pessoal 24 horas, adoração pública garantida, escola e deveres de casa opcionais. Exigências: máximo até 5 anos e disposição para ocupar o cargo até o início da puberdade. O anúncio parece oferecer o emprego dos sonhos de qualquer menina, mas não são muitas as crianças do Nepal candidatas a essa vaga. Por quê? A resposta vem da antiga deusa Rashmila Shakya. Ela diz que sua vida de deusa foi ótima enquanto durou mas que, assim que chegou à puberdade começaram seus pesadelos. Rashmila foi praticamente expulsa do palácio onde morava, e chegou ao lado de fora do palácio totalmente despreparada para enfrentar o mundo real. Com base na experiência de Rashmila e de outras jovens como ela, poucos são os pais que desejam que suas filhas se transformem em deusas. A maioria deles prefere que as meninas estudem para obter um emprego bem pago no futuro. ?Com a modernização da sociedade, que fica cada vez mais comercial, as pessoas estão perdendo o sentido da religião e das tradições e muitos pais preferem ver suas filhas como engenheiras e médicas?, diz Tej Ratna Tamrakar, que comanda uma região de Katmandu em que se concentram palácios e templos. Mesmo assim, autoridades religiosas do Nepal vão passar abril e maio - primeiro mês do calendário religioso do país - procurando uma nova deusa. Eles esperam apresentá-la ao público em outubro, pouco antes do Desain, a maior festa do país. Para atrair candidatas, o governo está oferecendo à próxima deusa uma pensão de US$ 40 por mês. Pode parecer pouco, mas vale mais do que a moeda de ouro que a deusa anterior recebeu do rei.Pureza virginalAs deusas do Nepal, chamadas kumari (palavra do idioma nepalês que significa virgem) são adoradas tanto pelos hindus como pelos budistas, que acreditam que essas jovens abençoam o rei e o povo com paz e prosperidade. O problema é que, quando uma kumari tem sua primeira menstruação, ela se transforma numa mortal e deve ser afastada dos palácios e templos. No passado, passar a infância como uma deusa era a garantia de um futuro seguro e tranquilo. Mas, atualmente, o Nepal tem uma lei que determina igualdade de direitos às mulheres, que estão se destacando cada vez mais no mercado de trabalho.Essa realidade não condiz com a vida de deusa em um palácio. Rashmila Shakya, a antiga deusa, atualmente tem 20 anos e tenta se adaptar à "vida normal". "Quando era deusa, me levavam a todos os lugares, eu não precisava sequer caminhar ou ir ao mercado, e tudo o que eu dizia era respeitado. Agora, minha vida mudou completamente".Rashmila vive atualmente com os pais em uma casa simples, de alvenaria, nas proximidades de um manguezal. Quando deusa, ela tinha dúzias de empregados, um tutor que a acompanhava uma hora por dia, mas que, como simples mortal, não podia jamais ordenar que ela estudasse e sua família nunca tinha problemas financeiros. O lado ruim é que a deusa não pode ter muitos amigos, só pode sair dos palácios por alguns minutos por ano, deve sempre vestir vermelho e estar com os cabelos presos. Além disso, a kumari tem que ter olhos, cabelos, dentes e pele perfeitos.

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