Clay Enos/DC Comics-Warner Bros. Pictures
Clay Enos/DC Comics-Warner Bros. Pictures

Netanyahu briga até com a Mulher Maravilha para ficar no cargo

Primeiro-ministro israelense se desentendeu com a atriz Gal Gadot, que interpreta a heroína nos cinemas, ao defender que não votar em seu partido seria o mesmo que dar maioria aos partidos árabe-israelenses

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 11h06

TEL-AVIV - Não passa pela cabeça de ninguém enfrentar a Mulher Maravilha. Mas o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, não hesitou em recorrer à retórica populista e se meteu em um debate sobre a minoria árabe israelense com a atriz que vive a super-heroína no cinema.

A disputa em que a atriz israelense Gal Gadot, a intérprete de personagem da DC Comics, assumiu o papel de justiceira começou com um dos principais argumentos de Netanyahu, segundo o qual não votar no Likud (direita) nas legislativas desta terça-feira, 9, seria como dar maioria aos partidos árabe-israelenses.

Segundo ele, trata-se de escolher entre "Bibi, ou Tibi": Bibi é seu apelido, e Tibi, o nome de um dos líderes árabes-israelenses.

Outra conhecida atriz israelense, Rotem Sela, se exasperou com esse raciocínio e disse que os árabes, ou os eleitores de esquerda, também são seres humanos e que Israel é "um Estado de todos os cidadãos".

"Israel não é o Estado de todos seus cidadãos", respondeu Netanyahu. "Segundo a lei fundamental sobre a nação adotada no ano passado, Israel é o Estado-nação do povo judeu, e apenas do povo judeu", afirmou, referindo-se a um texto que faz os israelenses não judeus temer que serão marginalizados.

Depois das palavras de Rotem Sela, Gal Gadot a apoiou, mas pediu tolerância e diálogo. "Ame a seus vizinhos como ama a si mesmo", afirmou Gadot ao premiê.

Precedente de 2015

"Netanyahu não é apenas culpado de racismo, mas de racismo deliberado", disse Sawsan Zaher, vice-diretor do Adalah, um defensor árabe dos direitos humanos de Israel. "Que consequências para os árabes nas ruas podem ter incitações ao ódio como essas?", questionou.

Descendentes dos palestinos que ficaram em suas terras após a criação de Israel em 1948, os árabe-israelenses representam cerca de 17,5% da população do país. Eles têm a nacionalidade israelense e podem votar. Vários partidos os representam nas eleições.

Em 2015, Netanyahu já havia dito, no mesmo dia das eleições, que os árabes votavam "em massa". Foi amplamente criticado, inclusive por Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos.

Alguns especialistas acham que as declarações de Netanyahu não são sinceras, mas uma maneira de permanecer no cargo.

O atual primeiro-ministro, que voltou ao poder há dez anos, enfrenta desta vez o general Benny Gantz, ex-chefe de gabinete. Também está sob ameaça de ser indiciado por corrupção. Nos últimos anos, ele se voltou mais e mais à direita.

As pesquisas indicam que o Likud, seu partido, deve perder para a formação centrista de Gantz em número de cadeiras, mas os resultados de outros partidos de direita lhe permitirão formar uma maioria no governo.

Trump e Netanyahu

Netanyahu não quer deixar nada ao acaso e incentiva os partidos nacionalistas religiosos a aceitarem em sua lista candidatos de um partido de extrema direita, considerado racista. 

Seu objetivo é garantir à direita o maior número possível de assentos para formar uma coalizão, mesmo com o risco de que um representante desse partido de extrema direita entre no parlamento.

"Sua verdadeira luta é permanecer como primeiro-ministro e não ir para a prisão", diz Gideon Rahat, do israelense Instituto para a Democracia.

O discurso de Netanyahu sobre a "caça às bruxas", da qual ele seria vítima, é semelhante ao de seu amigo Donald Trump, que usou a mesma imagem em sua campanha.

A campanha de Netanyahu é a do "nós contra eles", segundo Reuven Hazan, professor de Ciência Política. E este deve ser o caso, porque, até 9 de abril, Netanyahu "vai lutar por sua sobrevivência", conclui. / AFP

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