REUTERS/Ronen Zvulun
REUTERS/Ronen Zvulun

Netanyahu conseguirá sair da crise?

O procurador-geral de Israel anunciou que iniciará um processo criminal contra Bibi e desencadeou uma crise em seu governo às vésperas das eleições

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2019 | 05h00

Estamos sem sorte, nós, os humanos. Sempre que escolhemos um personagem para nos guiar, logo percebemos que confundimos ouro com cobre ou zinco. Na semana passada, Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, nos contou que seu chefe é um mentiroso, um vigarista e um racista. Mal nos recuperamos desse choque e eis que outra revelação ocorre: o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, estava senil. Maldição! Mas nós duvidávamos de nós mesmos, pois há tempos o víamos paralisado, surdo e mudo em seu pequeno veículo.

E, hoje, outra decepção: Bibi, um apelido bonito que se refere a Binyamin "Bibi" Netanyahu, primeiro-ministro quase eterno de Israel, seria apresentado à polícia israelense como um especialista em fraude, abuso de confiança e corrupção. Pobre Bibi! As eleições legislativas serão realizadas em 9 de abril. Em que estado estará Bibi?

Suas infrações? Ele se beneficiou da gentileza de dois bilionários, um da Austrália e outro de Hollywood – viagens, joias e favores múltiplos. Com o jornal Yedioth Ahronot, o procedimento foi diferente: Bibi prejudicaria a circulação de um jornal gratuito, Israel Hayom, em troca de artigos bondosos no Yedioth.

E então, aqui está a maior. Bibi conhece Shaul Elovich, dono do gigante site de telecomunicações Bezeq e do site de informações Walla. Então, Bibi vai favorecer Bezeq e, em agradecimento, ele terá uma cobertura elogiosa dos jornalistas de Walla. Todas essas mesquinharias são suficientes para que Bibi seja levado à justiça. Mas em que data? Antes ou depois das eleições legislativas de 9 de abril?

O procurador-geral de Israel anunciou que iniciará um processo criminal contra Bibi. Curiosidade: este advogado, Avichai Mandelblit, fez uma boa parte de sua carreira graças a Bibi. Os israelenses pensavam, portanto, que esse promotor sufocaria o caso. Eles estavam enganados: a mão do promotor não tremeu.

Netanyahu tem pele grossa. Ele grita sua inocência e vai prová-la. Ele tem a intenção de obter seu quinto mandato e continuar por muito tempo ainda. Mas, se ele for acusado, será difícil manter o cargo de primeiro-ministro.

A oposição pediu-lhe dois dias atrás que renunciasse agora. Outros o fizeram, incluindo, por exemplo, Yitzhak Rabin, que havia renunciado a seu primeiro mandato em 1977. Mas Bibi não é do mesmo estofo que Rabin. Ele luta passo a passo. Quando fica sem munição, ele saca a arma fatal. Ele explica que seus inimigos, mesmo que pretendam estar “certos”, são na verdade “auxiliares da esquerda”. E se isso não for suficiente, Bibi recorre à suprema lágrima. Ele mostra que seus detratores são “esquerdistas”, que horror!

Como está a batalha? Certamente, há um bom número de seus apoiadores que não mudarão de linha. Eles defenderão Netanyahu até o fim. Eles vão perdoá-lo por tudo. Mas, mesmo nas fileiras da direita ou centro-direita, há pessoas que gostariam de mudar de primeiro-ministro, desde que o sucessor apresente garantias sobre a questão da “segurança”. Essas são as pessoas que Bibi chama de “esquerdistas”. Entendemos sua preocupação. Seria suficiente que um pequeno número de seus partidários desertasse e Bibi cairia.

O que Netanyahu chama curiosamente de “esquerdistas” conquistaria o poder. Mas os melhores observadores da política israelense sabem que Netanyahu, sem grande esforço, é capaz de se erguer do fundo do abismo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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