Heidi Levine / Reuters
"O presidente Trump disse ontem que as eleições serão apertadas. Posso garantir que serão muito apertadas", disse Netanyahu Heidi Levine / Reuters

Netanyahu convoca israelenses a votar e prevê disputa apertada

Eleitores vão às urnas na segunda legislativa realizada em Israel em cinco meses; pesquisas apontam o partido do premiê empatado com o do opositor Benny Gantz; participação já superou as expectativas

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 06h58
Atualizado 17 de setembro de 2019 | 11h57

JERUSALÉM - O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, pediu nesta terça-feira, 17, aos israelenses que votem nas eleições legislativas e previu uma disputa "apertada"

"O presidente Trump disse ontem que as eleições serão apertadas. Posso garantir que serão muito apertadas", disse o premiê depois de votar em Jerusalém. Ele também pediu aos israelenses que compareçam em grande número às urnas.

Os israelenses começaram a votar nesta terça em sua segunda legislativa em cinco meses, na qual decidirão se mantém Netanyahu no poder, apesar das denúncias de corrupção, ou se elegem o ex-comandante do Exército Benny Gantz.

Os 6,4 milhões de eleitores iniciaram a votação às 7h (1h em Brasília) e poderão fazê-lo até às 22h (16h em Brasília) nas 10.700 seções distribuídas por todo o país.

Pesquisas divulgadas pela imprensa apontam para o Likud (direita) de Netanyahu, no poder há 10 anos ininterruptos, e a formação Kahol Lavan (Azul e Branco) de Gantz, empatados, com 32 assentos cada, de um total de 120 no Knesset, o Parlamento israelense.

Participação supera expectativas

A participação no pleito já superou as expectativas e está dois pontos porcentuais acima do registrado na votação de abril deste ano. O dia vem sendo marcado pela tranquilidade e quase sem incidentes.

Nas quatro primeiras horas após a abertura de urnas, 26,8% dos eleitores votaram, um número que supera as últimas sete eleições no país. Não satisfeitos, os principais líderes políticos nacionais seguiram incentivando a presença popular.

Duas opções distintas

"Raros são os momentos em que os eleitores se defrontam com duas opções tão diferentes, dois caminhos, e precisam escolher qual deles seguir", disse Gantz em um artigo publicado na segunda-feira nos principais jornais do país.

"Sob meu governo, o partido Azul e Branco mudará a direção do comando do Estado israelense em direção a mais democracia. As divisões vão terminar; pelo contrário, ações rápidas serão tomadas para formar um governo de união", garantiu ele, que diz querer liderar o país "no interesse de todos os israelenses" e "não no interesse dos lobistas".

Netanyahu é acusado por seus adversários de permanecer no poder graças ao apoio conquistado dentro dos partidos ultraortodoxos e do movimento de colonização nos territórios palestinos ocupados.

Netanyahu: barrar esquerda e árabes

Nas rádios locais, Netanyahu elogiou seu progresso econômico - com o desemprego num mínimo histórico de 3,7% - e instou seus eleitores a votar em massa para impedir que "a esquerda e os árabes" assumam o poder.

Também atacou o centrista Gantz, a quem considera "de esquerda", bem como a "lista unida" dos partidos árabes, hostis ao Likud, embora não estejam relacionados ao Azul e Branco, e que poderiam desempenhar um papel fundamental na formação - ou não - de um governo de coalizão. 

No domingo, Netanyahu cancelou seu último comício de campanha, estratégia que, de acordo com seus adversários, visaria mobilizar seus eleitores.

Acusações

A eleição desta terça ocorre faltando um mês para Netanyahu comparecer perante a Justiça por "corrupção", "abuso de confiança" e "desfalque", acusações pelas quais ainda não foi indiciado. Uma vitória eleitoral poderia permitir que seus aliados votem por sua imunidade.

No domingo, o governo Netanyahu realizou seu último conselho de ministros antes das eleições no Vale do Jordão, nos territórios palestinos ocupados, e anunciou a legalização nessa área de uma colônia ilegal sob a lei israelense

O governo decidiu "transformar a colônia selvagem de Mevoot Yericho, localizada no Vale do Jordão, em oficial", anunciou o gabinete do primeiro-ministro. Essa colônia, onde vivem cerca de 30 famílias, permanece ilegal aos olhos da comunidade internacional, como são todas as colônias nos territórios palestinos.

Netanyahu prometeu na semana passada, caso vença as eleições, anexar todas as colônias judaicas no Vale do Jordão, um território estratégico que representa aproximadamente 30% da Cisjordânia ocupada. 

O anúncio foi duramente criticado pelas autoridades palestinas, que acreditam que, se for realizado, equivale à morte do processo de paz. / AFP e EFE

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Eleição em Israel acirra debate sobre Estado secular

Discussão sobre papel dos religiosos ultraortodoxos na sociedade está por trás das forças que definem hoje o futuro de Netanyahu

David Halbfinger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 05h01

JERUSALÉM - Israel terá hoje sua segunda eleição no ano, depois que a coalizão vitoriosa na primeira votação, em abril, desmoronou em razão de divergências entre conservadores laicos e religiosos da coalizão do primeiro-ministro, Binyamin “Bibi” Netanyahu

O que travou a formação de um governo em abril foi Avigdor Lieberman, do Yisrael Beitenu, partido secular e conservador. Há anos, o ressentimento vem se formando entre Liberman e os partidos religiosos da aliança de Bibi. Isso porque, em Israel, homens e mulheres são obrigados a prestar serviço militar, mas os ultraortodoxos estão isentos.

Ao contrário de outros israelenses, eles recebem subsídios para estudar a Torá e constituir grandes famílias. Em um país que se coloca como lar de todos os judeus, os rabinos ultraortodoxos têm o monopólio de eventos como casamento, divórcio e conversões religiosas. 

Em um país cercado de problemas de segurança, a eleição, surpreendentemente, se centraliza na preocupação sobre o quão judeu deve ser o Estado de Israel. “Não tenho nada contra os ultraortodoxos”, disse Lior Amiel, de 49 anos, empresário que fazia compras em Ramat Hasharon. “Mas, no momento, estou financiando o estilo de vida deles.”

Essa eleição deveria ser simples, um rápido reexame para dar a Netanyahu a reeleição ou uma oportunidade aos seus oponentes de derrotá-lo. Em vez disto, tornou-se o que Yohanan Plesner, presidente do Israel Democracy Institute, chama de “campanha crucial pela trajetória do país”.

A jogada de Lieberman pode ter sido uma estratégia para chamar atenção. Da noite para o dia, seu apoio duplicou e ele se tornou o herói dos liberais laicos. Segundo Jason Pearlman, analista conservador, nos últimos anos, os dois principais eixos da política israelense – religião e palestinos – convergiram.

A antiga coalizão de Netanyahu foi uma fusão da direita, que defende uma linha-dura com os palestinos, e ultraortodoxos, que prometem votar em bloco em troca de privilégios. “O que Lieberman fez foi quebrar o lacre, separando os dois eixos”, disse Pearlman.

Líderes liberais e seculares da esquerda e do centro responderam, apoiando Lieberman e afirmando que a população ultraortodoxa, com seus estudantes de religião desempregados e suas grandes famílias subsidiadas, estão impondo uma carga excessiva sobre o Estado. 

Eles se dizem chocados com o fato de os partidos ultrarreligiosos negociarem a imunidade de Netanyahu, que estaria comprando sua liberdade em troca da permissão para que Israel se torne uma teocracia.

Os liberais e seculares estão furiosos com a crescente influência de um grupo quase evangélico de judeus que defendem uma visão antifeminista, antigay e uma ideologia messiânica de extrema direita. “Está cada vez mais alarmante” disse Nitzan Horowitz, líder do partido União Democrática, de esquerda. “As pessoas começam a se sentir ameaçadas.”

Os partidos religiosos insistem que estão defendendo o status quo que remonta à fundação de Israel e tem por fim preservar o estudo da Torá. Os ultraortodoxos representam apenas 10% dos eleitores – frente aos 44% seculares –, mas têm aumentado seus privilégios graças à habilidade de obter promessas em troca de apoio político. “Não estamos nos tornando uma minoria menor, mas sim uma minoria maior”, disse Yitzhak Zeev Pindrus, deputado do partido Judaísmo da Torá Unida

Os religiosos rejeitam as críticas, taxando-as de antissemitas. “Estão fazendo uma campanha de ódio contra tudo que tem aroma judeu”, disse Eytan Fuld, porta-voz do Yamina, partido conservador. 

O equilíbrio entre Estado e religião está no centro da identidade de Israel. “Somos um Estado nacional judeu e isso é tudo?”, questiona Ariel Picard, estudioso do Shalom Hartman Institute, de Jerusalém. “Ou somos um Estado democrático judeu com valores humanos?”

A pergunta tem consequências reais. Os ultrarreligiosos alertam que o país pode perder sua alma e não será mais socialmente aceitável ou economicamente viável viver como judeus tementes a Deus e seguindo os mandamentos da Torá. Seus oponentes dizem que o país está se tornando um lugar irreconhecível e inóspito. 

Além da isenção de serviço militar, o debate traz à tona a suspensão de regras que proíbem ônibus, trens e lojas de operar aos sábados. Essas discussões, normalmente, envolvem apenas ultraortodoxos e seculares. Desta vez, porém, entrou no debate um outro grupo: judeus que usam o quipá, observam o shabat e são sionistas fervorosos que apoiam a anexação da Cisjordânia.

É a influência crescente de uma ala desse grupo, os religiosos haredis, que tem alarmado os israelenses seculares. A anexação da Cisjordânia eliminaria a solução de dois Estados e a construção de um Terceiro Templo no local do Domo da Rocha, lugar sagrado dos muçulmanos, pode desencadear uma guerra santa cataclísmica.

À medida que o poder de Netanyahu enfraquece, a extrema direita ganha influência, culminando na indicação de nomes para o gabinete, como Bezalel Smotrich, como ministro dos Transportes, e Rafi Peretz, ex-rabino como ministro da Educação.

Em entrevista recente, Peretz defendeu a “terapia de conversão” gay. Smotrich pediu a restauração do “sistema judiciário da Torá”, o que levou a acusações de que ele deseja criar um Estado religioso.

A apreensão aumenta, mesmo entre os eleitores judeus de direita que votam normalmente em Netanyahu. O debate sobre que valores judeus devem ter precedência está dividindo famílias e congregações.

Na sinagoga de Shtiblach, em Jerusalém, Harry Grynberg, de 62 anos, disse que votou no Likud, em abril, mas não votará desta vez – ele disse que apoia agora o partido Azul e Branco, do ex-general Benny Gantz, que prometeu unificar o país a partir do centro.

Netanyahu tem tentado mudar de assunto, trazendo à tona ameaças à segurança do país. “Para ele, essas questões são como uma bomba-relógio”, disse Plesner, do Israel Democracy Institute.

“Ele está em rota de colisão com seus próprios eleitores. A maioria do Likud é secular e não apoia os ultraortodoxos.” A oposição, porém, aprendeu a nunca dar Netanyahu como derrotado. Na última hora, ele sempre tira um curinga da manga.

Gantz será julgado na Holanda

Um tribunal holandês decide hoje se aceita uma ação civil contra Benny Gantz, ex-general e rival de Binyamin Netanyahu. Ismail Ziada, holandês de origem palestina, pede 600 mil euros pela morte de seis parentes em um ataque em Gaza, em 2014. Os advogados de Ziada afirmam que a jurisdição universal permite que a ação seja julgada na Holanda quando o crime envolve um cidadão holandês.  / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO, com REUTERS

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De baby-sitter a salva-vidas, Netanyahu vira personagem em vídeos de campanha

Na reta final das eleições em Israel, premiê se utiliza da mesma técnica das eleições passadas de esquetes cômicas para se mostrar como o protetor do país

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 05h30

JERUSALÉM - Na batalha para estender seu posto como o primeiro-ministro com maior mandato em Israel nas eleições que ocorrem nesta terça-feira, 17, Binyamin Netanyahu alertou eleitores de diversos perigos, da agitação em territórios ocupados a armas nucleares no Irã.

Horas antes das eleições começarem nesta terça-feira, 17, ele fez um novo alerta: para sexo em dia de eleição.

O dia de votação é um feriado nacional em Israel, e o partido de Netanyahu, o Likud, publicou um vídeo de última hora para estimular seus apoiadores a irem votar.

No roteiro, a propaganda pede para que a população não gaste o dia livre indo à praia, descansando no sofá ou, como sugerido por uma cena com quatro pés por debaixo de lençóis, fazendo uma farra na cama.

O vídeo encerra com a mensagem de que, enquanto você está aproveitando o dia, “a esquerda está se preparando para assumir o governo”.

O recado final pode ter soado estranho para analistas políticos dos Estados Unidos, que costumam criar um clima de vitória e prosperidade ao final da camapanha. Em contraste, a mensagem de Netanyahu foi: estou perdendo.

As últimas pesquisas de opinião em Israel mostraram a corrida entre o atual premiê e o ex-chefe de Estado Maior do exército, general Benny Gantz, do Azul e Branco, muito próximos ou com uma singela vantagem do Likud.

Com a esperança de motivar sua base eleitoral a ir votar pela segunda vez em cinco meses, já que Netanyahu foi eleito em abril, mas não conseguiu formar governo, o premiê tem feito uma campanha ostensiva, mas para alguns, desesperada e com a sensação de jogo perdido.

Diversos vídeos de campanha nos últimos meses mostram Netanyahu como protagonista em papeis diferentes, orientando seus eleitores a votarem nele, como a melhor alternativa aos seus inimigos.

Em uma cena filmada na praia, “Bibi” aparece como um salva-vidas que pede para que os banhistas no mar “se mantenham à direita, é muito mais seguro”.

Sob a imagem de “protetor”, ele alerta os jovens que depende deles escolher aquele “que vai mantê-los seguros”.

No vídeo, Netanyahu destila indiretas a um dos integrantes do partido opositor Azul e Branco, Moshe Ya'alon, além de criticar Avigdor Lieberman, do Yisrael Beitenu, ambos ex-ministros de Defesa do atual premiê, e hoje opositores políticos.

A mensagem final do vídeo mostra Bibi olhando diretamente para a câmera e falando com os “cidadãos de Israel”. “No mar agitado do Oriente Médio, nós provamos que estamos mantendo Israel como uma ilha de estabilidade e segurança”.

O humor nas campanhas eleitorais de Netanyahu não é uma novidade. Em 2015, um vídeo que viralizou mostra o premiê tocando a campainha na casa de um casal surpreso, anunciando: “Você ligou para uma baby-sitter? Você tem um Bibi-sitter”.

A mulher pergunta: “Você vai cuidar de nossos filhos?”. Netanyahu responde que as únicas alternativas seriam seus principais adversários nas eleições de 2015: o então líder do Partido Trabalhista, Isaac Herzog, e a ex-negociadora de paz Tzipi Livni.

As eleições de setembro de 2019, não previstas no início do ano, mexeram com os cálculos usuais do fragmentado sistema político israelense, em parte porque o receio de baixa participação de eleitores exaustos pode se concretizar.

O momento da campanha, coincidindo com as férias de verão no país, também alterou as regras. Alguns candidatos apareceram em praias perto de Tel Aviv, seus sapatos sociais misturados na areia.

O partido Azul e Branco de Gantz levantou outdoors nas praias da vizinha ilha de Chipre, com a esperança de serem notados por isralenses passando férias. / W. POST

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Gilles Lapouge: O último tango do premiê em Jerusalém

Primeiro-ministro de Israel é tão inteligente, tão imperioso, tão eloquente, que não se pode prever nada

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 05h37

Os israelenses voltam hoje às urnas para eleger seus representantes. Não é preciso dizer que o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, está à frente do partido de direita, o Likud, há 10 anos. Como ele é sagaz, seguro de si, eloquente e nem um pouco tímido, essas eleições são para ele uma “tarefa simples”. Mas, desta vez, elas assumem um caráter singular. 

Pela primeira vez, Netanyahu perde sua soberba. Em geral, ele costuma fazer campanhas mínimas, um pouco desdenhoso. Este ano, abandonou seu “orgulho”, fez reuniões – com o grande talento de sempre –, usou as redes sociais e respondeu a perguntas de jornalistas na TV.

Ao mesmo tempo, ele multiplicou os anúncios para atestar que, uma vez eleito, liderará uma política firme em relação a tudo o que se refere aos palestinos.

No último conselho de ministros, ele se ocupou da Cisjordânia. Legalizou uma colônia perto de Jericó. Alguns dias antes, havia prometido que anexaria o Vale do Jordão.

As razões para esse ativismo? Netanyahu, seja pela perversa conjuntura ou por falta de tato, sabe que sua presença perpétua está em posição delicada. 

Certamente, ele conseguiu alguns importantes feitos. Atualmente, ele deve se aliar ao rabino Meir Kahane, que é racista e xenófobo, e ao partido fundamentalista Noam, que se retirou da luta.

Segundo pesquisas, mesmo com essas adesões, ainda lhe faltariam de 7 a 10 assentos para alcançar uma maioria tranquila. 

Às dificuldades de Netanyahu acrescenta-se outro elemento, menos político do que psicológico. Ficamos impressionados quando analisamos a principal equipe política israelense pelo número de ex-amigos, apoiadores, colaboradores de Netanyahu que se apresentam nessas eleições, mas em campos opostos ao Likud. Parece uma bola de “fantasmas”, os antigos amigos de Bibi.

É o caso de Avigdor Lieberman, cuja carreira seguiu a de Netanyahu até a ruptura. O veredicto de Avigdor é cruel: “Binyamin pode ser mais inteligente que as pessoas de seu grupo, mas está sozinho no topo porque se importa apenas consigo mesmo.

Exceto por sua família e alguns amigos obstinados, ele não tem aliados. A culpa é dele”. Hoje, Lieberman lidera outro partido, o Yisrael Beiteinu, que está prestes a obter um recorde de deputados. 

Um homem do seu partido, o Likud, pensa parecido: “Há um desgaste. Como ele coleciona inimigos, está obrigado a cuidar de tudo. Isso explica por que Netanyahu, perdendo seus ministros ao longo dos meses, foi forçado a ocupar seus lugares.

Hoje, além de ser premiê, ele gerencia as pastas da Defesa, Saúde e, temporariamente, Trabalho e Diáspora. Mais um pouco e o governo de Israel estará ocupado por 15 Netanyahus”.

Os únicos que ousam defender pontos de vista um pouco diferentes são os generais. Eles têm um medo: que Netanyahu não submeta suas escolhas militares e políticas ao aliado americano. Por exemplo, a decisão repentina de anexar o Vale do Jordão deu o que falar nas casernas. 

O jornal Maariv recebeu ecos do tumulto. Houve raiva e abuso verbal: como é que uma decisão tão séria pode ser tomada sem consultas prévias?

Então, essas eleições seriam o “último tango” de Netanyahu? O homem é tão inteligente, tão imperioso, tão eloquente, que não se pode prever nada. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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Binyamin Netanyahu: premiê de Israel contra tudo e todos

Atual primeiro-ministro israelense busca quinto mandato - o que o tornaria o chefe de governo mais longevo do país - para ser lembrado como 'o protetor de Israel'; opositores o acusam de ser autocrata, ávido por poder e 'amigo da mentira'

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 13h53
Atualizado 09 de abril de 2019 | 08h39

TEL-AVIV - Com o mesmo orgulho e estilo de sempre, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu trava uma nova batalha eleitoral decisiva, mostrando a força e o carisma que permitiram que ele superasse situações difíceis. 

Netanyahu, de 69 anos e 13 como chefe de governo, espera alcançar nas eleições desta terça-feira, 9, um quinto mandato como premiê, o que permitiria bater em meados de julho o recorde de longevidade no poder de David Ben Gurion - primeiro chefe de governo de Israel.

Seus êxitos diplomáticos, sua imagem de garantidor da segurança de um país diante de múltiplas ameaças e o crescimento econômico, deixaram pouco espaço para seus rivais por muitos anos.

No entanto, este ano, as pesquisas preveem uma disputa acirrada contra o general Benny Gantz, ex-chefe de Estado-Maior, líder de uma lista de centro-direita, que o critica por seu "vício pelos prazeres do poder".

Além disso, os eleitores sabem que Netanyahu, ganhando ou perdendo, provavelmente será acusado de corrupção.

Adorado ou odiado, "Bibi", como todos os israelenses o chamam, demonstrou ao longo de sua carreira política sua formidável capacidade de enfrentar situações adversas.

 

Precoce e duradouro

Ele foi o mais jovem primeiro-ministro a assumir o posto em Israel, de 1996 a 1999. Em 2009 voltou ao posto de premiê, após ter ocupado vários postos ministeriais nos governos de Ariel Sharon. Esta permanência no poder causa admiração, tanto entre seus partidários quanto entre os críticos.

"Quando Bibi perder, haverá momentos em que Israel vai se arrepender de não ter um líder de estatura internacional, reconhecido mundialmente, que - gostando ou não - todos prestam atenção quando toma a palavra", escreveu recentemente o jornal Haaretz, que não esconde sua hostilidade em relação a Netanyahu.

Neto de rabino, filho de um historiador ultrassionista, Netanyahu nasceu em 21 de outubro de 1949 em Tel-Aviv. Ele passou parte de sua infância nos Estados Unidos e estudou no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Em seu retorno a Israel, serviu cinco anos em uma unidade das forças especiais israelenses, sendo ferido em 1972 em uma operação de resgate de reféns em um avião desviado por palestinos.

Netanyahu evoca frequentemente a morte de seu irmão Yoni na operação israelense para resgatar reféns de outro voo no aeroporto de Entebbe, em Uganda.

No início dos anos 1980, lançou-se na carreira política apadrinhado por Moshe Arens do partido Likud (direita), que o nomeou à embaixada de Israel nos Estados Unidos e, em seguida, embaixador na ONU. Em 1988 foi eleito deputado pela primeira vez e em 1996 se tornou primeiro-ministro.

Nos últimos anos, Netanyahu designou o Irã como o novo "Amalek", inimigo mortal, de Israel, o que lhe permitiu desenvolver novas relações com os países árabes, em particular a Arábia Saudita.

Também foi o responsável por Israel alcançar o status de potência tecnológica mundial que serve de "modelo para o resto do mundo".

A chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos deu novo impulso às ambições de Netanyahu, que nesta campanha exibe como troféus pessoais a transferência da embaixada americana para Jerusalém e o reconhecimento da anexação das colinas do Golan.

Seus adversários o acusam de ser um autocrata, ávido por poder, amigo da mentira, que nunca quis a paz com os palestinos e cujo discurso antiárabe prejudica as bases da democracia israelense. 

Israel deverá escolher entre um homem que "fala inglês com um sotaque de Boston, maquiado, vestindo ternos caros", líder de um sistema "viciado aos prazeres do poder, da corrupção e do hedonismo" ou um governo "autêntico, com capacidade de escuta", afirmou Benny Gantz, seu principal adversário.

"Só os fortes sobrevivem", diz Netanyahu. "Quero que um dia lembrem de mim como o protetor de Israel". / AFP

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Benny Gantz: general linha dura desafia Netanyahu nas urnas em Israel

General e ex-chefe do Estado-Maior de Israel promete unidade e tolerância zero contra os corruptos para quebrar os dez anos de governo do atual primeiro-ministro; adversários criticam sua inexperiência e seu programa de governo considerado genérico

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 13h53
Atualizado 09 de abril de 2019 | 08h40

TEL-AVIV - O general Benny Gantz, ex-chefe do Estado-Maior de Israel, se colocou em apenas algumas semanas como o único nome capaz de tirar o lugar do atual primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, com uma personalidade dura e um programa impreciso.

Antes de se lançar à batalha eleitoral em dezembro, o ex-paraquedista de 59 anos era novato em política. Há meses se especulava se ele seria um adversário perigoso para Netanyahu pela aura de prestígio que cerca sua trajetória e seu papel como chefe militar.

Atualmente, a lista de centro-direita Azul-Branco (as cores da bandeira nacional) lidera as pesquisas ou aparece empatada com o Likud de "Bibi" Netanyahu.

"Nos dias em que eu dirigia a unidade de combate Shaldag em operações em território inimigo arriscando nossas vidas, você, Binyamin Netanyahu, passava com coragem e determinação de uma sessão de maquiagem para outra para aparecer na televisão", afirmou, em fevereiro, ante seus simpatizantes.

Gantz propõe aos israelenses mão forte para defender o país, uma visão liberal sobre questões sociais e religiosas e, acima de tudo, uma alternância a Netanyahu. "Israel deve escolher: Bibi antes de tudo ou Israel antes de tudo", resumiu.

O general promete unidade após anos de divisões e "tolerância zero" contra os corruptos no momento em que Netanyahu enfrenta uma possível acusação de corrupção.

Gantz espera obter os votos dos eleitores do centro e uma parte da coalizão de direita de Netanyahu para se tornar o terceiro ex-comandante do Estado-Maior de Israel a chegar à chefia do governo, depois de Yitzhak Rabin e Ehud Barak.

"Supermercado"

Seus oponentes criticam um programa que descrevem como "supermercado", no qual tudo é encontrado. 

Gantz nasceu em 9 de junho de 1959 no sul de Israel, na aldeia de Kfar Ahim, fundada com a contribuição de seus pais, imigrantes que sobreviveram ao Holocausto.

"De muitas maneiras minha vida começou antes de eu nascer, começou quando minha mãe Malka deixou o campo de concentração de Bergen-Belsen", comentou ele em fevereiro, em Munique, durante uma conferência de segurança. 

"Eu digo aqui em Munique: o povo judeu e o Estado judeu nunca deixarão seu destino nas mãos de outros. Nós protegeremos e garantiremos o futuro de nosso povo".

Ele se alistou no exército como recruta em 1977, passou nos testes de seleção dos paraquedistas e subiu postos. Dirigiu a Shaldag, unidade de operações especiais da aviação, depois comandou uma brigada e finalmente uma divisão na Cisjordânia ocupada.

Ele foi adido militar de Israel nos Estados Unidos de 2005 a 2009 e chefe do Estado-Maior de 2011 a 2015. Liderou duas guerras na Faixa de Gaza.

Em um de seus vídeos, ele se vangloria do número de "terroristas" palestinos mortos durante a campanha de 2014 em Gaza, sem mencionar as vítimas civis, e em outro diz que não tem vergonha de buscar a paz com os árabes.

A plataforma Azul-Branco defende a separação entre israelenses e palestinos, mas não menciona a chamada solução de dois Estados. 

Sobre esta questão, o estatuto de Jerusalém, a anexação de parte do Golan ou a política em relação ao Irã, é difícil estabelecer diferenças entre o programa de Gantz e o ponto de vista de Netanyahu.

Os oponentes de Gantz criticam sua inexperiência política e acreditam que, como oficial supremo, ele era indeciso e relutava em assumir riscos. Eles também o culpam pelo que consideram falta de preparação na guerra de 2014 em Gaza. 

Gantz é formado em História pela Universidade de Tel-Aviv, tem mestrado em Ciências Políticas pela Universidade de Haifa e mestrado em Gestão de Recursos Nacionais pela Universidade Nacional de Defesa dos Estados Unidos. Ele é casado e pai de quatro filhos. / AFP

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