Sergey Ponomarev/NYT
Sergey Ponomarev/NYT

Ex-aliado de Netanyahu será chave para evitar novo impasse político em Israel

Eleição israelense tem alto comparecimento, mas apuração aponta resultado inconclusivo; formação de um novo governo depende de negociações e Avigdor Lieberman, ex-ministro de Bibi, pode ser decisivo para o futuro do premiê

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 16h17
Atualizado 18 de setembro de 2019 | 14h29

JERUSALÉM - O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, e seu adversário Benny Gantz tiveram desempenho semelhante na segunda eleição legislativa do país nesta terça-feira, 17, em cinco meses. Com base em pesquisas de boca de urna, não era possível dizer se Gantz, líder do centrista Azul e Branco, ou Netanyahu, à frente do conservador Likud, teria o número suficiente de cadeiras no Parlamento para formar um governo após a apuração dos resultados. 

Em duas pesquisas, Gantz aparecia com uma pequena vantagem, enquanto em uma terceira os dois estavam empatados. Não havia um consenso sobre qual dos dois ficará à frente para formar uma coalizão, já que nenhuma delas dava maioria a um dos dois candidatos. 

As projeções divulgadas pelos principais canais de TV do país deram ao Likud 32 cadeiras na Knesset. No total, a coalizão de partidos de direita liderada pelo premiê, que inclui partidos religiosos e ortodoxos, ficaria com 57 assentos.

Já a aliança Azul e Branca, liderada por Gantz, teria 34 assentos. Sua coalizão de centro, que inclui partidos de esquerda, ficaria com 53 parlamentares. Para formar governo, são necessários 61 deputados do total de 120. 

Com esse cenário, o fiel da balança deve ser o partido laico conservador Yisrael Beitenu, do ex-chanceler Avidgor Lieberman, que rompeu com Netanyahu em abril por discordar da aliança do premiê com os partidos religiosos e provocou a convocação de novas eleições.

Após a divulgação das pesquisas, Lieberman afirmou que há apenas uma opção para o país: um governo de unidade entre o seu e os dois maiores partidos. Em um discurso a seus apoiadores, Lieberman disse que a única opção para os dois maiores partidos seria se juntar a ele em coalizão ampla e secular que não ficasse sujeita às demandas dos partidos judeus ultraortodoxos. 

Início de complicadas negociações

De acordo com o New York Times, as pesquisas de boca de urna em Israel são frequentemente imprecisas, mas se o resultado for ao menos similar às projeções a convocação de Lieberman abriria caminho para complicadas negociações. 

Após as eleições de abril, Netanyahu ficou a um passo de formar maioria no Parlamento, mas foi barrado pela resistência de Lieberman, seu ex-ministro da Defesa. Lieberman rompeu com Netanyahu por ser contra um cessar-fogo com o Hamas na Faixa de Gaza e, para se juntar novamente à sua coalizão, exigiu a aprovação de uma lei que obrigue judeus ortodoxos a prestar serviço militar, proposta rejeitada por legendas religiosas. 

O aparente impasse prepara o cenário para um período prolongado de incertezas e manobras políticas complicadas, com Netanyahu em uma posição de barganha relativamente mais fraca. Os partidos podem ser forçados a um governo de ampla unidade, como propôs Lieberman, mas essa alternativa poderia excluir Netanyahu.

Acusações de corrupção

Enquanto Lieberman se recusa a participar de qualquer coalizão que inclua partidos religiosos que tradicionalmente apoiam o premiê, Gantz, ex-chefe de gabinete militar, descartou a possibilidade de sentar-se com um Likud liderado por ele em um momento em que o primeiro-ministro deve ser indiciado por acusações de corrupção nas próximas semanas. 

O procurador-geral de Israel recomendou apresentar acusações criminais contra Netanyahu em três casos separados de corrupção, enquanto aguarda uma audiência de pré-julgamento, programada para o próximo mês. Sem imunidade, Netanyahu estaria sob forte pressão para se afastar.

As atenções se voltam então para o presidente, Reuven Rivlin. Segundo as regras da política israelense, ele determinará entre Netanyahu e Gantz quem terá o mandato para tentar formar a coalizão de governo. O gabinete de Rivlin informou ontem que a decisão de indicar um candidato para formar o próximo governo será guiada, em parte, pela necessidade de se evitar uma terceira eleição. 

Rivlin se reunirá com os líderes dos partidos assim que tiver um resultado claro das eleições, o mais rápido possível, segundo informou seu gabinete. O presidente de Israel, cujo papel é amplamente cerimonial, atribui a tarefa de formar um novo governo ao líder do partido com maior probabilidade de formar uma coalizão majoritária.

Quinto mandato seria recorde

Netanyahu, de 69 anos, é o premiê israelense que ocupou o cargo por mais tempo. Tendo exercido a função inicialmente de junho de 1996 a julho de 1999, ele vem se mantendo no posto desde março de 2009 e busca um quinto mandato que seria recorde.

Segundo seus adversários, o premiê é acusado de permanecer no poder graças ao apoio conquistado dentro dos partidos ultraortodoxos e do movimento de colonização nos territórios palestinos ocupados.

Em um outro resultado desfavorável ao premiê, o partido ultranacionalista Jewish Power, liderado por seguidores do rabino Meir Kahane, que defende a expulsão dos árabes de Israel e a criação de uma teocracia judaica, não conseguiu votos suficientes para ultrapassar a cláusula de barreira, reduzindo o apoio ao bloco de direita em geral.

A participação foi de 69,4% dos 5,9 milhões de eleitores aptos a votar, um resultado um pouco melhor que o de abril, quando 67,9% compareceram às urnas.

Coalizão árabe amplia bancada

As pesquisas de boca de urna mostram também que a coalizão de partidos árabes – a Lista Árabe Unida – deve aumentar o número de cadeiras no Parlamento, das atuais 10 para entre 11 e 13. Com esse resultado, o grupo seria a terceira coalizão mais votada nas eleições. 

Os cidadãos árabes-israelenses – cerca de 20% da população – estão ansiosos para encerrar a era Netanyahu e qualquer aumento de sua representação no Parlamento tira lugares de uma possível coalizão do primeiro-ministro. Na eleição de abril, os partidos árabes decidiram concorrer de forma independente, o que acabou resultando em um desempenho abaixo de eleições passadas e uma participação de árabes de apenas 49%. Nessas eleições, os partidos decidiram se unir, como fizeram em 2015, e formarem uma única coligação. 

De olho no desempenho desses partidos e nas cadeiras que eles podem conquistar, o partido Azul e Branco fez propaganda eleitoral em regiões árabes, com seu líder Benny Gantz concedendo entrevistas a canais de comunidades locais. / NYT, AFP, REUTERS e AP

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.