Netanyahu, o pacificador

Premiê de Israel pode desejar entrar para a história como o herói que estabeleceu a paz, mesmo tendo rejeitado, por anos, a ideia de dois Estados

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2013 | 02h08

Há alguns dias, em Londres, Jimmy Carter afirmou ter negociado com um ex-terrorista, que se tornou político de direita, quando os Acordos de Camp David, que puseram fim ao conflito entre Israel e Egito, foram assinados em 1978. "Ele era a última pessoa que se esperaria estar disposto a um acordo de paz", lembrou.

O indivíduo a quem ele se referiu era o ex-premiê israelense Menachem Begin, que em seu livro de memórias, The Revolt, observou ter ficado conhecido como o Terrorista Número 1 na Grã-Bretanha ao liderar o combate para acabar com o mandato britânico na Palestina e criar o Estado judeu.

Begin admitiu que foi estimulado pelo ódio contra os britânicos. "Tínhamos de odiar a desgraça humilhante da falta de teto do nosso povo", escreveu. E acrescentou: "Tínhamos de odiar as portas fechadas do nosso próprio país para nossos próprios irmãos, pisoteados, e clamando por ajuda num mundo moralmente surdo". Mas, três décadas depois do estabelecimento do Estado de Israel, em 1948, Begin preferiu deixar o ódio de lado e negociar terras em prol de uma paz duradoura.

A conclusão de Carter é a de que Binyamin Netanyahu, um falcão que cresceu sob a influência de Begin, pode também desejar agora entrar para a história como o "herói" que estabeleceu a paz.

A ideia de que Netanyahu, feroz oponente da iniciativa de paz de Yitzhak Rabin, que sempre relutou à noção de dois Estados e há muito tempo é o ideólogo do direito dos judeus a todas as terras bíblicas de Israel, pode se transformar no pacificador, não é nova. Ouvi isso de diversas pessoas que passaram longas horas com o atual premiê, incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

O ceticismo impera, mas é errado descartar a ideia. A controvertida libertação de 104 palestinos não é uma medida tomada por um primeiro-ministro israelense que não leva a sério as negociações. Carter afirmou: "Acho que essa ideia na qual John Kerry tem insistido, de maneira bastante secreta há cinco meses, tem mais chances de sucesso do que imaginava antes de ter conversado com ele".

O contexto do seu trabalho parece adverso, mas talvez não o seja. Ao lado da implosão da Síria e da ruptura religiosa-secular no Egito, o conflito israelo-palestino é um assunto antigo, estafado: seus protagonistas, cansados; os contornos da solução, bem conhecidos; a inutilidade da sua perpetuação, evidente. Na minha visão, mesmo os árabes que há muito usam a questão palestina como um desvio dos seus problemas fundamentais já estão fartos dele. Existe mais exasperação hoje com a inimizade entre sunitas e xiitas do que com a existente entre palestinos e israelenses.

Segundo Carter, uma resolução deve ter por base as fronteiras de 1967, "com uma exceção": que possa haver trocas de terra em área próxima de Jerusalém para os grandes assentamentos judeus e, hectare por hectare, a terra que for cedida pelos palestinos para Israel seja reembolsada. Na sua opinião, o retorno dos palestinos deve ser canalizado para a Cisjordânia e Gaza - "salvo algumas dezenas, ou algo parecido" para Israel.

Sim, o esboço da única possível resolução é bem conhecido. A alternativa nefasta, também. Às vezes, o conflito chega quase ao ponto da paródia. Será que israelenses e palestinos não estão dispostos a se deixar enganar novamente? Menachem Begin também escreveu: "Temos de odiar - como qualquer nação merecedora desse nome odiará sempre - ser governados pelo estrangeiro". E ainda: "Se você ama seu país, só pode odiar aqueles que querem anexá-lo".

Netanyahu deveria ler essas palavras com atenção. Poderá encontrar nelas o estímulo decisivo para uma resolução que garanta aos palestinos um Estado ao lado de Israel. É difícil para ele: o Sinai, ao contrário da Cisjordânia, não faz parte da Grande Israel, terra que Begin acreditava "ser nosso direito natural e eterno". É difícil, sim, mas não mais difícil do que foi para Menachem Begin deixar de usar bombas para se tornar um pacificador. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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