Netanyahu recebe Lula sob pressão dos EUA e palestinos

Premiê israelense tenta abafar crise provocada com o anúncio de novas construções durante visita de vice de Obama

Denise Chrispim Marin, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

ENVIADA ESPECIAL / JERUSALÉM

O primeiro-ministro israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, receberá hoje o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a cabeça voltada para a crise com os EUA e a sobrevivência do prematuro diálogo de seu país com a Autoridade Palestina, que seria mediado por Washington.

Ontem, Netanyahu determinou que fosse aberta uma investigação sobre o anúncio da construção de 1.600 novas casas em Jerusalém Oriental durante a visita ao país do vice-presidente americano, Joe Biden, na semana passada. A reação do governo de Barack Obama estremeceu as relações bilaterais e pôs em riscos as alianças que sustentam o gabinete de Netanyahu. Apesar de pedir uma investigação, o premiê não mandou conter as construções.

"Sugiro não exagerar a situação e acalmar os ânimos. Aqui houve um incidente que se deu inocentemente", afirmou Netanyahu ontem, durante reunião semanal do gabinete, depois de se referir ao episódio como um "incidente lamentável, doloroso, que não deveria ter ocorrido".

O anúncio da construção de 1.600 casas na área árabe de Jerusalém e da expansão de um assentamento israelense na Cisjordânia foi feito justamente no momento em que Biden costurava o início das negociações indiretas entre Israel e a Autoridade Palestina. Divulgada pelo ministro do Interior, Eli Yshai, integrante do partido direitista Shas, a medida minou a confiança dos palestinos e dos vizinhos árabes no processo de paz e levou a advertências de vários países, como o Brasil. Mas, politicamente, a reação mais grave foi a condenação dos Estados Unidos.

Ontem, o líder do Partido Trabalhista e ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, veio a público lamentar o anúncio das construções. Para Barak, a atitude foi "desnecessária e prejudicial".

Insulto. Na sexta-feira, a secretária de Estado, Hillary Clinton, qualificou o anúncio de um "insulto" ao vice-presidente americano e responsabilizou Netanyahu pelo ato. A reação teve um especial significado, por causa da ligação política de Hillary com a comunidade judaica de Nova York e da tradicional aliança entre os EUA e Israel. No sábado, Hillary e Netanyahu conversaram por telefone por 45 minutos. A líderes europeus com quem também tratou do assunto nos últimos dois dias, Netanyahu explicou o "incidente constrangedor", admitiu ter pedido desculpas a Biden e insistiu que não sabia do anúncio.

Segundo o jornal israelense Haaretz, a reação americana deixou Netanyahu em uma sinuca de bico. O primeiro-ministro terá de escolher entre reagir aos EUA e colocar em risco a aliança com Washington, que protege Israel de um eventual ataque do Irã, ou sofrer uma dispersão dos partidos de direita que apoiam seu gabinete, como o Israel Beiteinu e o Shas. Até ontem, não estava clara a sua escolha.

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