Netanyahu repete ameaça de exilar Arafat

Membros ultraconservadores do Gabinete de Segurança de Israel pediram nesta quarta-feira que o líder palestino Yasser Arafat seja enviado ao exílio, mas foram incapazes de obter apoio para a proposta. Com o dedo em riste, um desafiante Arafat alertou contra qualquer tentativa de expulsá-lo da região.Enquanto isso, soldados israelenses promoviam uma das maiores incursões dos últimos meses, invadindo Nablus com dezenas de tanques e veículos blindados e prendendo cerca de 30 supostos militantes palestinos. Segundo o Exército de Israel, a maior cidade da Cisjordânia é um santuário de extremistas de onde seus soldados entraram e saíram constantemente durante os últimos sete meses.Pelo segundo dia consecutivo, o novo ministro israelense das Relações Exteriores, Benjamin Netanyahu, repetiu que Arafat deve ser expulso dos territórios palestinos. Num discurso na noite de ontem, Netanyahu prometeu que, se eleito primeiro-ministro nas eleições de janeiro de 2003, sua primeira medida será exilar o líder palestino.Netanyahu repetiu a promessa durante reunião do Gabinete de Segurança realizada hoje. Ele foi apoiado por Shaul Mofaz, o novo ministro da Defesa, disse Rena Riger, porta-voz de Netanyahu.Mesmo com alguns membros ultraconservadores do gabinete apoiando a medida, eles não conseguiram aprová-la, apesar de diversos debates.O primeiro-ministro Ariel Sharon buscou reduzir a influência e o poder de Arafat, e já faz muito tempo que membros de seu governo não têm autorização para negociar diretamente com o líder palestino.Entretanto, recomendações dos Estados Unidos e dos serviços israelenses de segurança contra a expulsão de Arafat influenciaram Sharon a não pôr a idéia em prática.Por sua vez, Arafat respondeu furiosamente a Netanyahu."Netanyahu deve se lembrar de que eu sou Yasser Arafat e que esta é a minha terra e a terra dos meus tataravós", disse ele, nos degraus que levam a seu gabinete na cidade cisjordaniana de Ramallah, logo ao norte de Jerusalém.Arafat passou grande parte dos últimos 12 meses restrito ao interior de seu quartel-general e evitou viagens ao exterior. Israel avisou que ele é livre para ir, mas sugeriu que poderia proibi-lo de retornar aos territórios palestinos.A invasão de Nablus pelos soldados de Israel foi um retaliação a um ataque contra um kibbutz que deixou cinco mortos no último domingo, incluindo duas crianças. O atentado foi perpetrado por um militante das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, uma milícia ligada ao movimento político Fatah, liderado por Arafat. O autor do ataque conseguiu escapar.Autoridades israelenses identificaram o militante suspeito de promover o atentado como Sirhan Sirhan, de 19 anos, morador do campo de refugiados de Tulkarem. Autoridades inicialmente diziam acreditar que ele seria um parente distante do homem que assassinou Robert Kennedy em 1968, quando o irmão de JFK concorria à presidência dos Estados Unidos. Mais tarde, porém, as mesmas autoridades retrataram-se da ligação.Parentes do suspeito disseram não ter laços sangüíneos com o assassino de Kennedy, originário de uma comunidade predominantemente cristã em Taibeh, na Cisjordânia. A família Sirhan de Tulkarem é muçulmana. No início da semana, soldados israelenses vasculharam casas de familiares do suspeito e detiveram dois de seus tios. O suspeito continua foragido.Oficiais dos serviços israelenses de segurança disseram que a ordem para o ataque de domingo veio de milicianos estabelecidos em Nablus.Arafat denunciou a incursão como um "novo crime de guerra".Escoltados por helicópteros armados, veículos blindados entraram na cidade durante a madrugada de hoje. Enquanto os veículos vasculhavam as ruas semidesertas, alguns jovens atiravam pedras e bombas de gasolina."Esta operação prosseguirá enquanto acreditarmos ser valioso destruir a infra-estrutura do terror", disse Mofaz, o ministro da Defesa. "Não temos um prazo definido, nem temos restrições quanto ao tipo de operação."O foco do ataque de hoje era composto por supostas fortalezas de militantes: a cidade velha de Nablus, dois bairros nos arredores da Universidade An-Najah e os campos de refugiados e Balata e Askar.Houve tiroteios esporádicos, mas não informações referentes a feridos.Algumas explosões foram ouvidas na cidade velha, também conhecida como Casbah, aparentemente detonadas por soldados que tentavam arrombar portas. Tanques fecharam todas as saídas existentes de Casbah, um emaranhado de vielas e passagens escondidas que se transformou em cenário de choques violentos em abril. Soldados utilizaram uma escola feminina próxima como base improvisada.Israel declarou Nablus uma zona militar de acesso restrito. Soldados impediam a ação de jornalistas e fotógrafos, proibindo entrevistas e imagens. Segundo o Exército, 30 supostos militantes foram detidos.A invasão ocorre num momento no qual o enviado especial norte-americano David Satterfield se reunia com negociadores palestinos. Ele está em busca de opiniões sobre o plano de paz proposto pelos Estados Unidos - que abrange reformas administrativas no governo palestino, recuo do Exército de Israel e um Estado palestino provisório já em 2003.Funcionários palestinos negaram versões de que os EUA tivessem concordado com a sugestão de Sharon, para que o plano de paz fosse adiado até as eleições gerais de 28 de janeiro no Estado judeu. Autoridades israelenses reclamam que o plano não atende às suas preocupações de segurança e é inaceitável em seu formato atual."Ao contrário do que vêm dizendo os israelenses, o senhor Satterfield nos informou que o governo norte-americano concluirá seu trabalho sobre este mapa (para a paz) e declarará seu formato definitivo no meio do próximo mês", disse o negociador palestino Saeb Erekat.Em outro desdobramento, Mofaz disse ao parlamento que o Exército identificou 102 postos avançados de assentamentos judaicos na Cisjordânia que não têm autorização do governo. Durante o mandato do antecessor de Mofaz, Binyamin Ben-Eliezer, o Exército desmantelou 23 postos avançados ilegais, no mês passado.Mofaz disse que a maior parte dos postos avançados tenta obter permissões, e sugeriu que não tentará removê-los no atual momento.

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