Netanyahu surpreendido

Os eleitores israelenses elegem hoje os 120 deputados da Knesset, o seu Parlamento. A campanha eleitoral foi bastante apagada, o que é insólito neste país passional, muito politizado e dividido entre duas visões do futuro radicalmente opostas.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2013 | 02h02

Essa inércia tem duas razões. A primeira é que, para os israelenses, "o jogo está feito". O atual primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, deverá, por lógica, se manter no cargo. A segunda razão decorre da primeira: para os israelenses, seja com entusiasmo ou resignação, a hipótese da criação de um "Estado Palestino" não está na ordem do dia. Na sua opinião, o processo de paz entre Israel e Palestina, mesmo que alusões retóricas sejam feitas nos discursos, está num estado de "morte clínica".

Devemos concluir que Netanyahu, ator e porta-voz da "direita nacionalista" de Israel, terá uma expressiva vitória? Não é certo. Na verdade, o premiê está sendo surpreendido, à sua direita, por personalidades ou partidos mais resolutos.

É o caso, por exemplo, do seu ex-ministro do Exterior, Avigdor Lieberman, líder da formação ultranacionalista "Israel Beiteinu (Israel Nossa Casa). Mas Netanyahu, que comanda o grande partido de direita Likud, associou-se com Lieberman.

Não, o perigo para o atual primeiro-ministro é representado por um outro partido, também de direita, a agremiação nacionalista religiosa Habayit Hayehudi (Casa Judaica). O líder deste partido de extrema-direita é um homem de 40 anos, Naftali Bennet, orador talentoso que dominou a campanha eleitoral. Não cessou de extrapolar os programas já rudes de Netanyahu. Por exemplo, prometeu não realizar nenhuma retirada de colonos dos territórios palestinos ocupados nos próximos quatro anos.

Seus rivais de direita deverão, portanto, limitar a provável vitória do Likud. O partido pode obter apenas 34 assentos na Knesset, frente aos 42 que detém atualmente. É provável, portanto, que Netanyahu, embora vencedor, tenha de forjar uma coalizão para poder governar. Que coalizão? Duas possibilidades apresenta-se uma aliança entre Binyamin Netanyahu, Avigdor Lieberman e alguns partidos de centro, partidários de uma retomada de negociações com os palestinos. Mas Netanyahu consentiria a contragosto tal possibilidade, aparentemente.

Mais coerente e mais provável seria uma coalizão de direita, abrangendo o Likud e Netanyahu, o partido de Lieberman, Israel Beiteinu, e também a Casa Judaica, de Naftali Bennet.

Podemos imaginar que, se uma coalizão deste tipo for constituída após as eleições legislativas no país, alguns rangidos de dentes serão ouvidos nas relações entre Israel e o presidente americano, Barack Obama, que nunca manifestou afeição por Netanyahu.

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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