'Netanyahu voltará a usar Irã para tirar foco de palestinos'

Para analista, centristas não moderariam retórica do premiê frente a Teerã nem seu uso político para evitar negociações de paz

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2013 | 02h05

Mesmo se vier a liderar uma coalizão de centro-direita, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, não mudará a fórmula que vem marcando sua diplomacia: falar o tempo todo sobre a ameaça do programa nuclear iraniano para nunca ter de se explicar sobre o crescimento dos assentamentos em território palestino e a falência da solução de dois Estados. A previsão é de Meir Javedanfar, analista iraniano-israelense e colunista do portal Al-Monitor, de análise do Oriente Médio. A seguir, a conversa com o Estado.

O fato de Netanyahu ter perdido poder com a eleição reduz o risco de uma guerra com o Irã?

Por enquanto, nada mudou e isso tem mais a ver com o Irã do que com Israel. Enquanto a república islâmica não aceitar trabalhar seriamente com a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU), a posição israelense não será alterada. Mas é importante notar que Netanyahu sempre usou a questão iraniana, dentro e fora de Israel, para tirar a atenção do problema palestino e do crescimento dos assentamentos. E isso não deve mudar.

Mesmo se ele se aliar a figuras de centro, como Yair Lapid e a ex-chanceler Tzipi Livni?

Lapid foi a grande estrela das eleições, mas seu partido, o Yesh Atid (Há Futuro), fez uma campanha centrada em questões internas - principalmente os privilégios dos haredim (judeus ortodoxos) e o tamanho do governo, hoje com impressionantes 35 ministérios. Embora secundário, o tema do processo de paz também está presente em seu projeto político. Não é verdade que ele o ignora completamente. Lapid prometeu por exemplo que, se integrar o governo, pressionará pela retomada das negociações. Mais ainda, lutará contra o financiamento público de assentamentos ilegais (diferentemente da lei israelense, a comunidade internacional considera todas as construções judaicas em território palestino ilegais). Será que ele conseguirá fazer isso em uma coalizão de centro-direita? Tenho minhas dúvidas.

Sobre Irã, qual é a posição dele?

Lapid entende que Israel não deve tentar liderar uma campanha internacional contra o programa iraniano, pois isso somente pode ser feito por EUA e Europa. Mas ele, como todo o establishment político israelense, compartilha a ideia de Netanyahu de que 'a opção militar deve estar sobre a mesa'. Isso não é sua prioridade, portanto dificilmente veremos ele comprar briga com o premiê em razão de Teerã. Seu foco será a laicidade e a economia.

O sr. falou que o problema iraniano é usado por Netanyahu para desviar a atenção dos assentamentos. Como funciona isso?

Foi essa a estratégia que ele usou em todo seu segundo governo. O Irã é um problema real e ele se aproveitou disso para colocar de lado a questão palestina e a solução de dois Estados. Com o Bayit Yehudi (partido de extrema direita, do empresário Naftali Bennett) na coalizão, certamente os assentamentos continuarão a crescer. E o principal: se Netanyahu não fizer isso, seu partido, o Likud, acabará perdendo ainda mais eleitores de direita para Bennett, que não tem pudores em defender os colonos e dizer que um Estado palestino "nunca vai existir".

Como o sr. avalia hoje a influência do Irã sobre as facções palestinas, principalmente depois de o Hamas ter se aproximado do Egito e das monarquias do Golfo?

Sem dúvida essa capacidade de influência diminuiu muitíssimo em relação às últimas duas décadas. Hoje, apenas a Jihad Islâmica recebe ordens de Teerã. O restante dos grupos militantes, incluindo o Hamas, não.

Como ficam os riscos de Israel tentar um ataque unilateral ao Irã, sem apoio dos EUA ou dos europeus?

Netanyahu pode até ameaçar lançar um ataque unilateral, mas duvido que ele o faça. Uma recente pesquisa mostrou que apenas 26% no país acreditam que Israel deveria agir sozinho militarmente contra o programa nuclear iraniano. Mais do que um suicídio político, isso seria também um suicídio estratégico, pois Israel ficaria ainda mais isolado no mundo.

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