Bill Pugliano/AFP
Bill Pugliano/AFP

Nevada é cenário de disputa-símbolo entre ultraconservadores e democratas

A dois dias das eleições legislativas nos EUA, Sharron Angle, do Tea Party, lidera pesquisas no Estado, ameaçando a reeleição do veterano senador Harry Reid, valendo-se de máximas contra o governo 'comunista' de Obama e de ofensas à comunidade latina

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Nenhuma cadeira do Senado dos EUA é tão disputada quanto em Nevada. No Estado mais conhecido por seus cassinos e pelos testes atômicos dos anos 50 e 60, a briga pelos votos da eleição de depois de amanhã envolve uma líder local do Tea Party, a ala de ultradireita do Partido Republicano, e um aliado político e amigo do presidente americano, Barack Obama.

A dois dias da votação, a professora primária e deputada estadual Sharron Angle, com 49% das intenções de voto, ameaça a reeleição do veterano senador Harry Reid, com 45%, valendo-se de máximas contra o governo "comunista" de Obama e de ofensas à comunidade latino-americana.

O rosto redondo e rosado de Sharron e a fala tranquila sugerem uma presença menos tempestuosa que a de Christine O"Donnell, também do Tea Party, candidata ao Senado por Delaware. Mas, nos discursos e na propaganda nas rádios e TVs, a professora de 60 anos mostra ter alcançado o eleitorado conservador de origem anglo-saxônica, capturado o voto de protesto contra a crise econômica no país e conseguido associar a atuação de Obama ao objetivo de converter os EUA ao comunismo.

Assim como Christine, Sharron repete na sua campanha os mantras dos líderes do Tea Party: o gasto público tem de ser reduzido; o Estado não pode interferir no mercado nem em decisões privadas dos cidadãos; e a Constituição americana tem de ser protegida. Com base nesses tópicos, Sharron propõe a eliminação dos Departamentos (ministérios) de Energia e de Educação e da Agência de Proteção Ambiental. Também defende a privatização da Assistência Social, do sistema de saúde pública e da agência responsável pelos veteranos de guerra.

Ao detalhar suas ideias, Sharron bateu de frente com segmentos do eleitorado de Nevada nos quais poderia ter se apoiado. Primeiro, as mulheres. A candidata atacou o projeto de seu opositor de obrigar os planos de saúde a cobrir exames, como a mamografia. A medida significaria, em sua opinião, uma ingerência maior do governo federal sobre o setor de planos de saúde.

Em outro momento, golpeia os hispânicos, que representam 15% do eleitorado. Sharron reiterou várias vezes seu apoio a uma lei aprovada pelo Arizona, neste ano, que permite a abordagem policial aos suspeitos de serem imigrantes ilegais. Em três propagandas na TV, sua campanha associou os latino-americanos a criminosos. Em uma palestra a estudantes, Sharron afirmou que a fronteira entre os EUA e o Canadá é "a mais porosa" e tornou-se porta de entrada de "terroristas". O embaixador canadense em Washington, Gary Dover, reagiu.

Para Fernando Romero, presidente da organização Hispanics in Politics, esses fatos expressam um claro componente racista da campanha de Sharron. "Nevada sempre foi um Estado conservador. Agora, está se tornando ultraconservador. O racismo pesa nessa transformação." Na opinião de David Damore, professor de Ciências Políticas da Universidade de Nevada-Las Vegas, Sharron tem como principal vantagem ser a alternativa a um político que está no Senado há 23 anos. Mas, apesar da dianteira nas pesquisas, dificilmente vencerá a eleição.

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