AP Photo/Alfredo Zuniga
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Nicarágua diz ter prendido assassino de brasileira, mas não detalha crime

Polícia diz que vigilante disparou contra Raynéia Gabrielle Lima, mas homem detido foi capturado com uma carabina M4, de uso exclusivo do Exército; para colegas e defensores de direitos humanos, paramilitares mataram pernambucana

Maryórit Guevara, ESPECIAL PARA O ESTADO / MANÁGUA / Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

28 Julho 2018 | 05h00

A polícia da Nicarágua prendeu nesta sexta-feira Pierson Gutiérrez Solís, de 42 anos, a quem acusa de ser um vigilante particular autor de um disparo que matou na segunda-feira a aluna de Medicina brasileira Raynéia Gabrielle Lima, de 31 anos.

Colegas dela e ONGs de defesa dos direitos humanos sustentam que ela foi assassinada com vários tiros por paramilitares a serviço do presidente Daniel Ortega. A suspeita deste grupo é reforçada pelo tipo de arma usada no crime, de uso exclusivo militar.

O comissário César Cuadra leu a nota de imprensa da polícia na emissora governista Canal 4, revelando que o detido foi capturado com uma arma de fogo tipo carabina M4. O policial não forneceu detalhes sobre o momento do assassinato. 

A carabina M4, produzida pela americana Colt Manufacturing, é usada na Nicarágua apenas pelo batalhão de forças especiais do Exército, o principal grupo militar de apoio a Ortega. É uma versão mais curta e mais barata – custa cerca de US$ 650 – do fuzil de assalto M4A1, adotado nos EUA e em vários países, entre eles o Brasil. 

Fácil de usar, leve e robusta, a M4 emprega munição 5.56mm de alto impacto, pode disparar em rajadas e tem alcance letal efetivo de até 500 metros. É fornecida com mira telescópica. Um lote dessa carabina teria chegado à tropa nicaraguense por meio do redirecionamento de parte de uma compra regular feita em 2007 pelo Ministério da Defesa de El Salvador.

Até esta sexta-feira, o paradeiro do carro de placa M 170-620, que Raynéia dirigia quando foi morta, era desconhecido. O namorado da estudante, aparentemente a única testemunha do crime, não foi localizado. Ela morava no país havia 5 anos e seu diploma de médica foi emitido dois dias após sua morte.

Raynéia foi baleada na noite de segunda-feira e morreu na madrugada de terça. Ela voltava para casa após sair do plantão médico. O crime ocorreu no bairro nobre de Lomas de Montserrat, em uma região em que paramilitares vigiavam a casa de Francisco López, tesoureiro da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FLSN). A região é habitada por políticos da cúpula do governo. Segundo vizinhos, uma série de tiros foi ouvida na noite em que a estudante foi morta. No entanto, as autoridades policiais falam de um único disparo de arma de fogo. 

De acordo com o jornal digital www.articulo66.com, crítico ao governo, o suspeito apresentado pela polícia trabalhava como instrutor de artes marciais na escola Lion Force. Ele tinha deixado de dar aulas em razão da crise de segurança no país. Ainda de acordo com este meio nicaraguense, Solís nunca teria trabalhado como vigilante privado, nem teria experiência com armas de grosso calibre.

Nesta sexta-feira à tarde, antes de a prisão de Solís ser anunciada, o chanceler brasileiro, Aloysio Nunes, considerou “extremamente insuficientes” as informações dadas pela Nicarágua sobre o assassinato da estudante.

Depois da morte de Raynéia, Brasília convocou a embaixadora nicaraguense no País para receber informações sobre o caso. Pouco depois, chamou a consultas seu embaixador em Manágua. Na quinta-feira, o presidente Michel Temer afirmou que o Brasil não pode admitir a morte da estudante sem tomar providências. A Nicarágua, em resposta, também chamou sua embaixadora. Ela deixou Brasília na quinta-feira.

 

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