Oswaldo Rivas/Reuters
Oswaldo Rivas/Reuters

Nicarágua é país que mais piorou em ranking da paz

Violenta repressão do governo de Daniel Ortega a opositores deixou 325 mortos desde abril de 2018 e agravou a crise política 

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2019 | 05h00

O conflito causado da repressão do presidente Daniel Ortega aos protestos de opositores levou a Nicarágua a registrar o maior declínio no Índice Global da Paz (GPI, na sigla em inglês) que, no geral, pela primeira vez em cinco anos, registrou uma leve melhora global. A Islândia lidera a lista e o Afeganistão está em último entre os 163 países avaliados.

O ranking considera três principais critérios, chamados domínios: conflito em andamento, proteção e segurança e militarização, para cada um há uma pontuação específica. Segundo a avaliação, a Nicarágua caiu 54 posições e ocupa a 120.ª posição. 

O relatório destaca um aumento da presença de forças “paramilitares” alinhadas ao governo desde o início do conflito, em abril de 2018. Desde então, a repressão já causou a morte de 325 pessoas, incluindo a estudante brasileira Raynéia Gabrielle Lima, e a prisão de mais de 700. 

Na segunda-feira, o governo de Ortega aprovou uma lei de anistia que libertou, até ontem, 104 presos políticos. A lei também isenta os responsáveis pela repressão. Outros 386 detidos já haviam sido transferidos para prisão domiciliar. 

As recentes medidas de Ortega, na avaliação do pesquisador Thomas Morgan, um dos responsáveis pelo índice do Instituto para Economia e Paz (IEP, na sigla em inglês), dificilmente reverterão a situação no país rapidamente. “Dada a crise na Nicarágua, eu não esperaria nenhum grande avanço este ano, talvez uma pequena recuperação”, afirmou Morgan, em entrevista ao Estado

Entre os presos políticos libertados estão os jornalistas Miguel Mora, proprietário e diretor do canal 100% Notícias, e a jornalista da emissora Lucía Pineda Ubao. Eles foram presos em dezembro, acusados de “fomentar e incitar o ódio e a violência”. 

Luis Galeano, jornalista investigativo da emissora, recebeu a mesma ordem de prisão, mas conseguiu deixar o país e se exilar nos EUA. A perseguição a jornalistas no país, segundo explicou Galeano ao Estado, vem de longa data, pelo menos de 2007, e também pressionou empresários para que não anunciassem nos meios de comunicação que não eram pró-governo. “Havia um entendimento de que, se era independente, era inimigo.” 

O estudo mostra que a Venezuela, que ocupa a 144.ª posição e é o país menos pacífico da América do Sul, teve uma participação na deterioração da paz na Nicarágua. Com seu colapso econômico, Caracas reduziu drasticamente a ajuda para a Nicarágua, forçando cortes nos benefícios do governo e agravando a já instável situação econômica e política. “Uma conclusão que podemos tirar do GPI é que os países não podem se isolar. Os conflitos sempre terão consequências para os vizinhos e para a região”, afirma Morgan. 

Polarização no Brasil 

O Brasil está entre os cinco países cuja estabilidade mais deteriorou no último ano, segundo o Índice Global da Paz. Para os pesquisadores, houve piora nos três “domínios” utilizados para a medição, fazendo o País cair da 106ª para a 116ª posição. 

O levantamento afirma que houve uma deterioração “notável” de conflitos internos em razão da violência renovada entre grupos do crime organizado nos últimos três anos.  

O relatório destaca que as eleições de 2018 foram marcadas pelo alto grau de polarização entre PT e PSL, do presidente Jair Bolsonaro. “A polarização tem continuado em 2019 e é provável que aumente ao longo do ano.” 

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