REUTERS/Oswaldo Riva
REUTERS/Oswaldo Riva

Nicarágua omite detalhes de morte de brasileira; testemunha-chave se esconde

Diplomacia brasileira e defensores nicaraguenses de direitos humanos cobram dados sobre assassinato de pernambucana de 31 anos, mas não recebem nem detalhes do calibre da arma e número de disparos

Maryórit Guevara, ESPECIAL PARA O ESTADO, MANÁGUA, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2018 | 21h33

O governo da Nicarágua ignorou nesta quarta-feira, 25, instituições locais de defesa dos direitos humanos e a diplomacia brasileira, que pedem informações básicas sobre o assassinato na terça-feira da pernambucana Raynéia Gabrielle Lima, de 31 anos. As ONGs e o reitor da universidade em que ela cursava Medicina sustentam que a estudante foi morta por paramilitares a serviço do presidente Daniel Ortega. O governo diz que um segurança privado a matou, mas não detalha o calibre da arma e o número de tiros que a atingiram.

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Gonzalo Carrión, defensor do Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (CENIDH), estranhou a pressa com que foi divulgado na terça-feira pela polícia o primeiro e único comunicado de imprensa, em que se atribui a um vigilante a responsabilidade pela morte.

“A polícia desqualificou apressadamente qualquer hipótese que vincule os paramilitares ao fato, indicando que o alvo da investigação é um vigia. Mas há várias perguntas soltas. Que guarda, de que empresa, que tipo de arma tinha? Dentro do atual cenário de insegurança, há leis que impedem seguranças de trabalhar armados”, questiona Carrión.

O crime ocorreu quando a estudante de Medicina do sexto ano e seu namorado, um nicaraguense, se dirigiam a uma casa no bairro Lomas de Montserrat, uma região nobre de Manágua. Esta região, onde vivem muitos funcionários do governo de Ortega, é controlada por paramilitares. Um desses grupos de milicianos, segundo a versão sustentada pelos estudantes, vigiava a casa de Francisco López, tesoureiro da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), que dá suporte a Ortega. Nesta área ocorreu a abordagem.

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Moradores da região, que pediram anonimato por segurança, disseram na quarta-feira, 25, que perto das 23 horas de segunda-feira escutaram uma rajada com aproximadamente dez tiros. A estudante brasileira dirigia um veículo e o namorado conduzia outro, atrás dela. A hipótese principal, sobre a qual a polícia não emitiu parecer, é que ambos foram interceptados em um semáforo por homens encapuzados. A brasileira teria ficado nervosa e movimentado o veículo. A informação de que o carro foi metralhado não foi confirmada.

Até a quarta-feira, 25, não se sabia o paradeiro do veículo de placa M 170-620. O namorado da brasileira, que chegou a ser internado em choque após levá-la ao hospital, estava escondido.

“Não há informação de quantos disparos a atingiram, nem sobre onde está o veículo, retirado rapidamente do lugar. Não houve nem isolamento da cena do crime, algo comum neste tipo de delito. É preciso estar atento, porque dependemos da informação da polícia e é preciso suspeitar da polícia”, pondera Carrión.

Um comunicado docente da Universidade Americana (UAM), onde Raynéia estudava, lamentou o assassinato e condenou a “repressão, a violência e a criminalização contra a população nicaraguense”. Os professores convocaram as autoridades universitárias a se pronunciar por todos os estudantes que tiveram de sair do país em razão da situação sociopolítica. Segundo relato de parentes, a brasileira não estava envolvida nos protestos estudantis contra Ortega. 

O Instituto de Medicina Legal (IML) de Manágua emitiu um comunicado no qual afirma que a estudante morreu em razão de “feridas de arma de fogo no tórax e no abdômen”. Não foi detalhado quantos disparos a atingiram, nem o calibre da arma. 

O IML afirmou que o cadáver será entregue às autoridades brasileiras tão logo elas se apresentem para retirá-lo. O instituto acrescentou que os requisitos para a remoção do corpo foram repassados a Marta Cuadra, delegada para assuntos consulares da embaixada brasileira.

A mãe de Raynéia, Maria José da Costa, afirmou na quarta-feira, 25, que até o momento não tinha recebido informações ou ajuda das autoridades brasileiras. Em entrevista à Rádio Nacional de Brasília, programa da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Maria José disse que sua principal preocupação no momento é o retorno do corpo de Raynéia ao País para que ela possa ser enterrada de forma digna. “Estou às cegas. Minha filha morreu há mais de 24 horas e ninguém toma providências. Eu quero que ela volte o mais rápido possível para Pernambuco, para ter o enterro que merece”, disse Maria José ao programa Revista Brasil, da EBC.

 O governo brasileiro tem tido dificuldades em obter informação sobre o caso. Convocada a dar explicações na última terça-feira, a embaixadora da Nicarágua no Brasil, Lorena Martínez, chegou ao Itamaraty com a nota distribuída à imprensa pela Polícia Nacional de seu país. Não deu nenhum esclarecimento adicional, segundo fontes.

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Nas notas que divulgou sobre o caso, o Itamaraty deixou clara sua insatisfação com as informações recebidas. Na terça-feira, a pasta afirmou que a estudante foi “atingida por disparos circunstâncias sobre os quais está buscando esclarecimentos.” 

O mesmo documento diz que o governo brasileiro “exorta as autoridades nicaraguenses a envidarem todos os esforços necessários para identificar e punir os responsáveis pelo ato criminoso.” Em nota divulgada na quarta-feira, 25, o Itamaraty volta a dizer que o governo e a embaixada têm insistido às autoridades nicaraguenses sobre a “necessidade imperiosa de pronta elucidação do caso.” / COLABOROU LU AIKO OTTA

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