Assessoria de imprensa do Palácio Miraflores / Jhonn Zerpa / AP
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Nicolás Maduro perde poder para os generais

Não foi o chavista quem saiu vitorioso, mas o Exército, sem o qual ele cai

Helio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2019 | 03h00

O fracasso da tentativa de derrubar Nicolás Maduro em 30 de abril mostrou a principal fraqueza de sua ditadura na Venezuela: a dependência dos militares. Não foi Maduro quem saiu vitorioso, mas o Exército, sem o qual ele cai. O episódio transmitiu dois sinais de que generais da alta cúpula podem estar dispostos a negociar uma transição.

Primeiro, a deserção de um deles: o diretor do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), Manuel Ricardo Figuera (demitido por Maduro). Foi o Sebin que tornou possível a libertação do líder oposicionista Leopoldo López (um vídeo mostra que López se livrou da tornozeleira eletrônica, desligada, com um alicate).

Segundo, a informação dos serviços de inteligência americanos de que três nomes essenciais para sustentar a ditadura já negociavam a transição: o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, o presidente do Tribunal Supremo de Justiça, Maikel Moreno, e o comandante da guarda presidencial, Iván Hernández.

Não se sabe por que desistiram. Pode ser estratégia de barganha, resultado de pressão externa (Rússia e Cuba) ou apenas dos erros do movimento liderado por López e pelo presidente interino nomeado pela Assembleia Nacional, Juan Guaidó. Mas ficou claro, diante dos fatos, que Maduro saiu mais fraco. Sua queda é questão de tempo.

Inflação

Salário mínimo não compra 2 caixas de ovos

Pelos números da Assembleia Nacional, a hiperinflação venezuelana foi de 1.623.656% nos 12 meses até março. O FMI prevê para 2019 alta de mais de 10.000.000% nos preços. O site Efecto Cocuyo acompanha o custo semanal de uma cesta de produtos consumidos por uma família venezuelana. Em 2 de maio, eram necessários 242.930 bolívares para comprá-los (R$ 153,42) – ou mais de seis salários mínimos, apesar do aumento de 122% no mínimo em abril, para 40.000 bolívares. Um salário mínimo não compra duas caixas de ovos. A tabela mostra a variação de preços na Venezuela numa semana.

Recuperação

Petróleo não salvará novo governo venezuelano

Mesmo que Maduro caia, levará tempo até que o petróleo venezuelano volte aos níveis de produção do passado. No fim da década de 90, Venezuela chegou a extrair 3,5 milhões de barris diários. Em janeiro de 2016, já eram 2,3 milhões. Em janeiro passado, 1,1 milhão. A produção caiu abaixo de 1 milhão de barris após a implementação das novas sanções americanas, segundo o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). No cenário mais otimista, com queda de Maduro e transição pacífica ainda neste semestre, o CSIS avalia que “a Venezuela terá de lutar para recuperar uma produção de 1,3 milhão de barris por dia até o final de 2020”.

União Europeia

Regra fiscal estimula populismo, diz historiador

O historiador econômico Adam Tooze se insurgiu contra as expectativas de crescimento que servem para avaliar o desempenho fiscal dos países da União Europeia (UE). Para a Itália, o efeito foi dramático. Dez anos após a crise, o potencial italiano foi revisado mais de 15% para baixo, e um crescimento modesto bastou para superar o limite estabelecido pela UE. “Com desemprego perto de 11%, a economia foi declarada superaquecida”, diz Tooze. A tese absurda de que a Itália está na mesma posição em relação a seu potencial que a Alemanha é, para ele, uma receita para inflamar o populismo.

Dúvidas

Corbyn elogiou livro de escritor antissemita

O colunista Daniel Finkelstein, do Times londrino, descobriu um prefácio de 2011 em que o líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn tece loas a um livro do escritor de esquerda John Hobson, conhecido pela leitura antissemita do imperialismo na África do Sul. “Será que Corbyn não leu o livro antes de elogiá-lo? Será que leu e não percebeu que era antissemita? Ou percebeu, mas decidiu que não importava?”, pergunta Finkelstein.

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