Ali MARTE / AFP
Ali MARTE / AFP

Nigéria desmobiliza quase 900 crianças-soldados que lutavam contra o Boko Haram

Grupo de 894 menores, incluindo 106 meninas, fazia parte da Força Operacional Civil Conjunta, milícia criada em 2013 para proteger comunidades dos ataques do grupo extremista em Maiduguri, no noroeste do país

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2019 | 11h54

MAIDUGURI, NIGÉRIA - Quase 900 crianças soldados que integravam uma milícia apoiada pelo governo da Nigéria para combater os insurgentes do Boko Haram na região nordeste do país foram desmobilizadas nesta sexta-feira, 10, informou a ONU.

O grupo de 894 menores de idade, que incluía 106 meninas, integrava a Força Operacional Civil Conjunta (CJTF, na sigla em inglês), uma milícia criada em 2013 para proteger as comunidades dos ataques do grupo extremista em Maiduguri.

"Elas eram utilizadas por grupos armados em funções de combate ou não. Foram testemunhas de massacres e de violência", declarou Mohamed Fall, representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para a Nigéria.

Segundo um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 2017, a Nigéria tinha mais de 15 milhões de crianças com entre 5 e 14 anos forçadas a trabalhar, "algumas das quais usadas como soldados em conflitos armados".

"Continuaremos a lutar até que não existam mais crianças nas fileiras dos grupos armados na Nigéria", disse Fall em seu comunicado, afirmando que ainda há milhares de menores de idade em condições similares.

As milícias civis foram criadas para proteger as comunidades do grupo extremista islâmico no nordeste da Nigéria e são financiadas e apoiadas pelas autoridades do país. Elas apoiam as Forças Armadas, particularmente nos postos de controle ou para garantir a segurança dos campos de deslocados.

Elas foram, no entanto, criticadas muitas vezes por abusos cometidos contra civis ou crimes extrajudiciais, incluindo o recrutamento de crianças para suas tropas: um embaraço para a comunidade internacional que financia e arma a Nigéria em sua luta contra o Boko Haram.

"Desde setembro de 2017, quando o CJTF assinou um acordo prometendo tomar medidas contra o uso de crianças nas tropas, 1.727 crianças e adolescentes foram libertadas e não houve novo recrutamento", diz o Unicef em sua declaração.

O conflito com o Boko Haram já matou mais de 27 mil pessoas desde 2009 e mais de 1,7 milhão de pessoas ainda não puderam voltar para suas casas.

Posicionamentos

Em meio a liberação de quase 900 crianças soldados na Nigéria nesta sexta-feira, 10, o presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, realizou uma reunião com os chefes de segurança do país. Na ocasião, o governo elogiou os esforços para combater a insegurança, e destacou a diminuição no número de sequestros como prova do sucesso. O posicionamento foi contrariado por analistas, segundo o jornal nigeriano Vanguard. 

O chefe do staff Naval, almirante Ibok Ekwe-Ibas, indicou que “o número de sequestros diminuiu e, no geral, sinto que a situação da segurança está melhorando”, como prova da melhora, Ibas citou uma operação em que a polícia nigeriana resgatou 27 vítimas sequestradas, dentre elas cinco chineses.  

O Vanguard citou Okechukwu Nwanguma, coordenador nacional de Rede de Policiais Aposentados da Nigéria, que discordou da visão otimista do governo: “A situação da segurança na Nigéria continua a se deteriorar, a despeito do fato de que combater a insegurança é um dos compromissos da administração de Buhari.”   

Outro ex-membro das forças de segurança nigerianas que desacredita nos esforços de Buhari é Dennis Amachre, que foi diretor do Serviço de Segurança do Estado: “No norte, há o Boko Haram, banditismo e no oeste, há cultismo, sequestros, e outros”.  

O também nigeriano Daily Trust escreveu em editorial nesta sexta-feira, 10, acerca da estratégia do governo com o grupo islamista: “A estratégia adotada, que é a dizimá-los, deve ser revista, já que, aparentemente, essa estratégia não pode eliminar os combatentes.” 

E acrescentou: “A situação onde os soldados sacam o Boko Haram de uma comunidade e o movem para outros campos de batalha sem deixar para trás um plano de segurança, está levando ao retorno do Boko Haram a vilas e cidades liberadas anteriormente.”  / AFP

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