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Nigéria ignora destino de sequestradas

Dois anos depois, sequestro de mais de 200 estudantes de Chibok pelo grupo radical islâmico Boko Haram permanece sem solução

Sirlene Farias, O Estado de S. Paulo

10 Abril 2016 | 05h00

Dois anos após o sequestro de 276 estudantes de uma escola no vilarejo de Chibok, no nordeste da Nigéria, foram ineficazes os esforços do governo para resgatar as 219 garotas que ainda podem estar em poder do grupo radical islâmico Boko Haram, que prega uma versão mais rígida da sharia (lei islâmica) e é contrário à educação ocidental, principalmente para mulheres. 

As meninas teriam sido levadas para a floresta de Sambisa, a cerca de 100 km de Chibok, e divididas em diferentes grupos. Seu destino, no entanto, ainda é incerto. O descontentamento com a resposta do governo em relação ao sequestro das jovens, que aconteceu em 14 de abril de 2014, continua causando protestos em diversas partes do mundo. 

Grupos ativistas e organizações internacionais pressionam as autoridades nigerianas por ações efetivas no combate ao grupo insurgente, que é acusado de uma série de crimes de guerra e se mantém em atividade na Nigéria, Chade, Camarões e Níger. “Os ataques e sequestros ocorrem, mas em menor escala, em razão das ações de contrainsurgência”, diz a porta-voz do grupo ativista #BringBackOurGirls, Sesugh Akume. “No entanto, não estamos convencidos sobre o progresso nas buscas pelas 219 estudantes tomadas pelo Boko Haram.”

As críticas dos ativistas estão atreladas à falta de assertividade na atuação das forças da Nigéria para o resgate das meninas. À época do sequestro, representantes do então presidente do país, Goodluck Jonathan, disseram que o Exército conhecia o paradeiro das garotas – que, em dado momento, foram dadas como resgatadas. Um ano depois, o atual presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, afirmou que faria o possível para encontrá-las, mas reconheceu que não poderia fazer disso uma promessa.

Paradeiro. “O presidente Buhari admitiu, em janeiro, que há poucas informações sobre a localização das estudantes desaparecidas, mas é bastante possível que algumas, senão todas, ainda estejam vivas”, afirmou Mausi Segun, pesquisadora da ONG Human Rights Watch.

A especialista explica que outros reféns que escaparam do Boko Haram tiveram contato com as adolescentes de Chibok, mas seu paradeiro permanece uma incógnita. Ainda segundo Mausi, as jovens podem ter sido submetidas a casamentos forçados, transformadas em escravas sexuais, convertidas ao Islã ou mesmo vendidas, conforme afirmou o líder do grupo rebelde, Abubakar Shekau, em vídeo divulgado poucos dias após o sequestro.

Os conflitos com o Boko Haram afetam majoritariamente a sociedade civil em vilarejos pobres no norte da Nigéria. O relatório International Alert, da Unicef, divulgado no final de 2015, aponta que cerca de 2 mil mulheres e crianças (meninos e meninas) foram sequestradas naquele ano. 

Além disso, dados da Anistia Internacional revelam que, entre 2012 e 2015, ataques do grupo insurgente deixaram, somente na Nigéria, aproximadamente 9,5 mil mortos e 2 milhões de pessoas desalojadas.

Ainda de acordo com a Anistia Internacional, uma coalizão entre as forças militares de Nigéria, Níger, Chade, Camarões e Benin foi responsável por libertar aproximadamente 1.300 reféns em poder do Boko Haram, mas não foi capaz de encontrar as adolescentes de Chibok.

Mesmo diante desse cenário negativo, familiares apegam-se a qualquer pista que possa esclarecer o que aconteceu às jovens desaparecidas e mantêm a esperança de que elas sejam resgatadas. “As manifestações de preocupação que os familiares recebem do mundo inteiro é o que lhes dá força”, diz Akume, do #BringBackOurGirls.

Esperança. A escassez de informações divulgadas pelo governo nigeriano causa, entre as famílias das vítimas do Boko Haram, certa dificuldade em acreditar em um final feliz e reforça o temor de nunca se obter uma resposta sobre o destino das garotas. “As autoridades não nos ajudaram em absolutamente nada”, afirma Esther Mutali, de 42 anos, cuja filha Dorcas está entre as 219 adolescentes que continuam desaparecidas.

Esther conta reviver diariamente o pesadelo da noite de 14 de abril, quando ouviu disparos de armas de fogo no vilarejo e logo soube que a escola em que estava a filha havia sido invadida. “Não acreditei que os ataques pudessem ter chegado à escola, mas quando fui até lá, na manhã seguinte, me deparei com o prédio incendiado, em ruínas”, diz. “Naquele momento, tudo o que fiz foi gritar por minha filha.”

As notícias de que os terroristas têm usado mulheres e crianças em ataques suicidas aumentam a preocupação dos pais, que temem o envolvimento das adolescentes de Chibok. 

“Se uma delas se converteu ao Islã ou se tornou uma terrorista suicida, provavelmente, foi obrigada a isso. É importante lembrar que elas foram forçadas a acompanhar o Boko Haram”, alerta Mausi Segun, da Human Rights Watch.

Para evitar pensar em um destino como esse para a filha Dorcas, Esther apega-se à religião. “Eu peço a Deus pela segurança da minha família e para nos ajudar a resgatar todas as garotas. Acredito que toda a África e o mundo inteiro estejam rezando e chorando por elas”, diz.

PARA ENTENDER: O grupo mais perigoso do mundo 

O Boko Haram é um grupo radical islâmico cujo nome pode ser traduzido como “educação ocidental é proibida”. Foi criado em 2002 por Mohammed Yussuf, para quem os valores ocidentais eram responsáveis por todos os males do mundo. Seu objetivo era criar um califado islâmico no norte da Nigéria e impor uma versão rígida da sharia (lei islâmica) no país.

Com sua morte, em 2009, Abubakar Shekau ascendeu ao poder, elevando o nível de violência nos ataques do grupo que, entre 2012 e 2013, recebeu treinamento militar e de guerra da Al-Qaeda. Em 2015, o Índice Global de Terrorismo classificou o Boko Haram como o mais violento do mundo, à frente do Estado Islâmico, a quem, no mesmo ano, jurou fidelidade.

O grupo insurgente é responsável por diversos crimes de guerra como sequestros, estupros, recrutamento de crianças-soldados e ataques suicidas, principalmente no norte da Nigéria, mas sua atuação se estende também a Níger, Chade e Camarões. O principal ato terrorista do grupo aconteceu em 2014, quando atacou uma escola no Estado de Borno, no nordeste da Nigéria, e sequestrou 276 meninas, das quais 219 ainda estão em seu poder. 


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