Nigéria rejeita críticas à segurança da eleição

Diante da ameaça do Boko Haram, autoridades reforçam presença da polícia no país para que violência pós-eleitoral de 2011 não se repita

VINCENT, NWANMA, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

27 Março 2015 | 02h01

Com a aproximação das eleições presidenciais na Nigéria, marcadas para o domingo, veículos blindados e policiais armados com fuzis cercaram o edifício da comissão eleitoral num bairro de Lagos, enquanto os postos de controle da polícia se multiplicam ao longo da Ikorodu Road, a principal artéria da cidade fervilhante de atividade.

O medo da violência em razão das eleições se intensificou e o governo informou que tomou uma série de precauções para garantir a segurança do país no domingo. No entanto, é improvável que a votação se realize no nordeste nigeriano, reduto do Boko Haram, em virtude da ausência de instituições governamentais que funcionem na região. Muitos temem que as forças de segurança do governo não consigam controlar a violência, apesar das várias semanas de preparativos.

"Foram feitos insistentes apelos convocando os membros das várias etnias e religiões a irem às urnas", afirmou John Campbell, ex-embaixador dos Estados Unidos na Nigéria. "Isso é sempre extremamente perigoso num país dividido segundo várias etnias e religiões". Campbell acrescentou que o Exército é muito fraco para impedir que possíveis protestos escapem do controle.

Chris Ngwodo, analista político nigeriano, disse que, em grande parte, essa situação ocorre em razão da falta de recursos e de pessoal. "Não tenho certeza de que fizemos tudo o que poderíamos fazer ou que estejamos preparados como poderíamos", afirmou.

De sua parte, a polícia anunciou a proibição da circulação de veículos em todo o país - com a exceção dos que atendem às emergências - das 8 horas até as 17 horas no dia da eleição. Também prometeu garantir "total segurança ao redor de locais estratégicos e vulneráveis", incluindo campos de refugiados, redações, repartições públicas e hospitais, segundo um comunicado.

Em fevereiro, o presidente Goodluck Jonathan falou da crescente ameaça representada pelo Boko Haram na tentativa de adiar as eleições por seis semanas. Embora os militares terem afirmado que, desde então, conseguiram ganhar terreno contra o grupo islamista, a milícia continua representando um grave perigo. Na quarta-feira, um porta-voz militar informou à Associated Press que centenas de pessoas foram sequestradas pelos combatentes do Boko Haram enquanto se retiravam de uma cidadezinha do nordeste nigeriano, no início deste mês.

No entanto, surge agora um novo tipo de violência. Dezenas de assassinos movidos por razões políticas atuam nas campanhas cada vez mais incendiárias realizadas pelos dois principais partidos. As tensões cresceram significativamente depois que a comissão eleitoral decidiu adiar as eleições para que o Partido Democrático Popular (PDP), governista, tivesse mais tempo para preparar a derrota do Boko Haram.

No entanto, o Congresso de Todos os Progressistas (APC, na sigla em inglês), o principal partido da oposição, acusou o presidente de usar a campanha contra os rebeldes como pretexto para reduzir a força do candidato do APC, o general Muhammadu Buhari, que, segundo a legenda, estava a caminho da vitória. Entretanto, o APC continua determinado a derrotar o PDP, que controla o governo desde que a Nigéria voltou a ter um governo civil, em 1999.

A intensa campanha levou os especialistas a temer a repetição do que ocorreu depois das eleições presidenciais de 2011. A derrota de Buhari para Jonathan, naquele ano, provocou três dias de protestos no norte da Nigéria, nos quais 800 pessoas perderam a vida, segundo a ONG Human Rights Watch.

Com as eleições de 2011 ainda vivas na memória de muitos, os esforços para garantir uma votação pacífica na nação mais populosa da África não se limitam às agências de segurança. O Policy and Legal Advocate Center, ONG com sede na capital nigeriana, Abuja, planeja monitorar as sessões eleitorais em todo o país.

Ao mesmo tempo, a ONG instou ambos os principais partidos a realizarem campanhas pacíficas. "Encorajamos as pessoas a resistirem à tentação de recorrer à violência", diz o diretor executivo da entidade, Clement Nwankwo. "Estamos fazendo o possível para encorajar ao máximo a não violência." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE

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