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Nigéria vota contra corrupção e terror

Insurgência do Boko Haram e disseminação de desvio de recursos públicos marcam disputa entre candidatos muçulmano e cristão

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

28 Março 2015 | 02h02

Nos mapas de votação das eleições presidenciais na Nigéria, uma linha horizontal se desenha de forma nítida, cortando o país ao meio. No norte, os muçulmanos são partidários de Muhammadu Buhari, ex-ditador militar. No sul, os cristãos votam em Goodluck Jonathan, atual presidente que tenta o segundo mandato.

Os dois se enfrentam mais uma vez nas eleições presidenciais de hoje, mas a histórica divisão do país já não parece tão evidente nesta votação, quando 70 milhões de nigerianos vão às urnas para escolher um novo presidente. Ao todo, 14 candidatos concorrem à presidência, mas apenas Jonathan e Buhari têm chances de vitória.

A corrupção, a desigualdade, o desemprego, uma economia golpeada pela queda no preço do petróleo e a percepção de que o governo é incapaz de combater o terror do grupo Boko Haram servem de combustível para uma oposição que se tornou "metástica", nas palavras de Sarah Chayes, especialista em democracia do Carnegie Endowment for International Peace.

Sarah passou os últimos meses conversando com eleitores de diferentes regiões da Nigéria. "O norte tende a votar no candidato da oposição, mas essa eleição desafia o mapa eleitoral dividido por região e religião. A realidade agora é que o apelo da oposição é realmente nacional. Os nigerianos estão enojados pela corrupção", afirma ela ao Estado. "Mais importante é o fato de Buhari ter a imagem de um governante disciplinado e rigoroso contra a corrupção e de ser um militar, alguém que pode mobilizar as Forças Armadas mais facilmente contra o Boko Haram. É daí que seu apoio vem."

Segundo Sarah, a corrupção se infiltrou em todo o tecido cultural nigeriano. "O dinheiro passou a significar tudo, sobrepondo-se a qualquer outro valor", explica. "Se você tem dinheiro, você é tudo. Se não tem, não é nada. Crianças perguntam aos pais se eles têm dinheiro. As pessoas são intimidadas, seu silêncio é comprado."

Pesquisas mostram que será a disputa mais acirrada da história entre o presidente Jonathan, do Partido Democrático Popular, no poder desde a redemocratização, em 1999, e Buhari, do partido Congresso de Todos os Progressistas, que foi ditador da Nigéria nos anos 80 e perdeu as últimas três eleições. No entanto, a maioria dos eleitores nigerianos - 60% têm menos de 19 anos e votarão pela primeira vez - não se lembra de seu governo. O general conta com o benefício da dúvida.

"Em seu regime (de Buhari), houve uma série de violações, mas os jovens não se lembram. Em 1993, a maioria dos eleitores não tinha nascido ou era muito jovem para lembrar que ele depôs um governo eleito e foi tão incompetente que, após 19 meses, os próprios militares o tiraram do poder", diz J. Peter Pham, diretor do Centro África, do centro de estudos Conselho Atlântico. "Então, hoje há uma divisão religiosa e econômica. O norte se ressente das riquezas do sul, onde está concentrado o petróleo e a atividade produtiva. E o sul se ressente do fluxo de suas riquezas para o norte. Mas há também uma divisão demográfica."

Segundo o analista, os nigerianos, principalmente os jovens, querem mudança. Grande parte da população também atribui a Jonathan o aumento da insurgência dos terroristas do Boko Haram. "Eles acham que um líder militar poderia acabar com o Boko Haram mais rapidamente", diz. "Eu acho que eles estão errados, pois a insurgência é mais infiltrada do que imaginam, mas essa é a percepção entre muitos."

Alegando problemas de segurança, o governo adiou a votação em seis semanas, de 14 de fevereiro para hoje, o que a especialista entendeu como "um esforço flagrante do presidente Goodluck Jonathan e seus ministros de controlar o resultado das eleições". Durante esse período, Jonathan, com o apoio de aliados regionais, ordenou uma ofensiva contra o Boko Haram.

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