Nigerianos e a rejeição do Japão

Organização civil se empenha para que imigrantes africanos sejam bem-vindos e vistos como socialmente conscientes

Dreux Richard, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2011 | 00h00

A União Nigeriana do Japão é uma organização civil que representa os imigrantes do país mais populoso da África. Foi fundada duas vezes em 21 anos, e a nova entidade tem menos de um ano. Sua história confusa reflete os conflitos econômicos e sociais vividos pela comunidade nigeriana no Japão nas últimas décadas.

Seus membros são trabalhadores de fábricas e empreendedores do setor de entretenimento noturno de passagem pelo país. Eles têm sido responsabilizados por alguns problemas ligados ao crime em Tóquio, especialmente por uma série de incidentes relacionados com mistura de drogas em bebidas e notas de consumo com itens falsos, o que levou a Embaixada dos Estados Unidos em Tóquio a emitir um alerta em 2009 para os turistas não visitarem Roppongi. Mas salvo esses incidentes, a história desses imigrantes no Japão tem sido escrita com muito esforço.

O presidente de honra da União Nigeriana, Okeke Christian Kevin, sabe que herdou um problema difícil de solucionar, e precisa resolver se o seu desejo é aumentar a mobilidade social de seus representados. Para esse fim, a União Nigeriana organizou duas arrecadações de fundos para ajudar as vítimas do tsunami, na esperança de que os nigerianos de Tóquio comecem a ser vistos como imigrantes socialmente conscientes que investem no bem-estar do país que adotaram.

Kennedy Fintan Nnaji é o atual presidente da Imo State Union, uma das maiores e mais ativas organizações que fazem parte da União Nigeriana. Fundada em 2002, a organização sempre se empenhou, mesmo quando a União Nigeriana ficou inativa.

Okeke e Njani presidem essas organizações num dos momentos mais promissores na história da Nigéria. O segundo evento para arrecadação de fundos foi realizado no dia em que o presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, assumiu o cargo. Muitos membros da comunidade nigeriana no Japão, a maioria de língua Igbo - 3.500 pessoas, oficialmente, mas é provável que o número seja muito maior - esperam que a eleição justa e transparente de um outsider da etnia Ijaw para presidente indique o fim da marginalização que caracterizou a vida no seu país natal.

No evento de arrecadação de fundos, Nnaji atacou aberta e agressivamente o sistema, o que Okeke não poderia fazer por causa de sua posição. O debate desencadeado por Nnaji seria muito mais importante se as 40 autoridades da União Nigeriana não superassem em número os 36 presentes ao evento. A participação fraca evidenciou o grande obstáculo que a nova União Nigeriana enfrenta: a profunda amargura sentida por muitos nigerianos que trabalham na vida noturna de Tóquio, muitos sentindo-se discriminados por uma sociedade fechada onde o seu sucesso é recebido com racismo e xenofobia.

"Há dois tipos de imigrantes que chegaram aqui como trabalhadores", disse Kennedy Fintan Nnaji. "Aqueles que querem ganhar o máximo possível no curto prazo e depois voltar à Nigéria, e os que tentam se inserir na vida japonesa." Muitos imigrantes nigerianos não fazem parte de nenhuma dessas categorias quando chegam ao Japão. Se decidem investir na cultura, isso vai depender das experiências vividas aqui e, dependendo das circunstâncias, alguns que poderiam "se integrar na sociedade" se tornam pessoas calejadas e oportunistas.

Hip-hop. Em 2005, a alfândega começou a confiscar carregamentos de roupas estilo hip-hop de empresas nigerianas. Elas ocasionalmente vendiam produtos falsificados. A resposta da mídia e dos políticos locais teve uma conotação racista e xenófoba, insistindo para as autoridades japonesas reformularem o perfil dos africanos, associando os crimes à etnia dos que os cometeram.

Como reação, muitas lojas de moda hip-hop fecharam. Alguns proprietários passaram a exportar peças automotivas ou componentes elétricos, mas muitos não tinham o conhecimento necessário do negócio.

Em 2006, a comunidade nigeriana passou por mais uma migração econômica, desta vez focada no setor de entretenimento noturno e, especialmente, para Roppongi, onde alguns empresários nigerianos já estavam bem estabelecidos. Quase que imediatamente, começaram as acusações de mistura de drogas em bebidas servidas nos bares e adulteração de contas de consumo para aumentar seu valor. As queixas eram por demais numerosas para a embaixada dos EUA ignorar, e ela, então, emitiu um alerta a respeito, nomeando vários clubes.

Os nigerianos que trabalham na área do entretenimento noturno sentem que foram levados a isso e depois chamados de trapaceiros. Muitos esperam conseguir voltar à estabilidade do trabalho na fábrica. Embora não se deva culpar a sociedade japonesa por ser relativamente fechada, também não se pode culpar os imigrantes nigerianos pelo profundo ressentimento com a maneira dura como foram tratados por tentar encontrar um lugar na periferia dessa sociedade.

"Não importa quanto tempo você vive no Japão, jamais será amigo de um japonês", disse Basil, dono do Treasures Gentlemen"s Club, em Roppongi. Casado durante 14 anos com uma japonesa, os sogros se recusaram a conhecê-lo. Ele pretende retornar à Nigéria, onde, depois de ter se divorciado, casou-se novamente e tem filhos.

Os desafios enfrentados pelas famílias nigerianas dão a exata dimensão dos custos sociais ocultos da marginalização da comunidade - custos que não podem ser convenientemente limitados a Roppongi, ou à população imigrante. Depois do evento de arrecadação de fundos, Okeke tentou fazer uma divulgação para atrair mais doações. Ele não tem nenhum conhecimento de relações públicas, nem contato com a imprensa, mas conseguiu que um jornal japonês e uma revista fizessem uma reportagem sobre a história da União Nigeriana. Também recorreu a instituições beneficentes multinacionais, num esforço para criar parcerias com organizações mais experientes na realização de trabalhos sociais.

Ressentimento. Mas ele precisa lutar com décadas de ressentimento. Em junho, a instituição beneficente que receberia o dinheiro organizou um evento para arrecadar doações em conjunto com a União Nigeriana, esperando conseguir uma grande cobertura da mídia. Menos de 24 horas antes do evento, os membros da União cancelaram o encontro, alegando que já tinham feito o suficiente e era indecoroso pedir ao presidente da União que solicitasse mais doações dos cidadãos japoneses.

Oeke não se desencorajou. "Estou lutando para que todos vejam o sentido da unidade", disse. "Considero prioritário limpar a imagem dos nigerianos aqui, de modo que fique clara a contribuição deles como membros produtivos da sociedade."

Seja qual for o resultado, Kennedy Fintan Nnaji tem um papel-chave. Se conseguir registrar a Imo State Union como organização não lucrativa, terá criado a maior oportunidade jamais vista para ajudar a comunidade nigeriana a se afirmar como autêntica colaboradora da sociedade japonesa. "Minha missão na Imo State Union é conseguir envolver as pessoas na sociedade civil e no serviço à comunidade", disse. "Somos estrangeiros. É nossa obrigação mostrar ao Japão o que somos e o que podemos fazer. Se formos humildes e trabalharmos diligentemente, seremos reconhecidos."

Os planos de Okeke e Nnaji podem ser bastante astutos para funcionar e dar voz às infatigáveis esperanças de seus membros menos obstinados. Mas terão pouco resultado se a comunidade, no geral, já estiver muito cansada para ouvi-los. "Trabalhar individualmente numa terra estranha é difícil. Precisamos nos expressar com uma única voz", disse Nnaji. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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