'Ninguém apresentou alternativa a essa guerra'

Pessimista sobre futuro presidente, líder de grupo que exige fim da violência no México defende venda controlada de drogas

Entrevista com

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL, CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h05

Em março do ano passado, traficantes de Temixco, 100 quilômetros ao sul da Cidade do México, executaram sete jovens. A morte de um deles, Juan Francisco, de 24 anos - entre 47,5 mil ligadas ao crime organizado em seis anos -, afetou diretamente a eleição vencida domingo por Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI). A vítima era filho de Javier Sicilia, escritor que, sem ser um dos grandes nomes da literatura mexicana, é hoje o poeta mais famoso do país.

Sicilia comandou protestos contra a violência que reuniram milhões em 40 cidades sob o lema "estamos hasta la madre" (estamos fartos, em tradução livre). No dia 28 de maio, em encontro com candidatos transmitido ao vivo, deu uma bronca em cada um, cara a cara.

"Os 12 anos de governo de seu partido deixam como herança um imenso cemitério", disse à candidata do PAN, Josefina Vázquez. "O senhor é a intolerância, a surdez, a confrontação, o oposto da 'república amorosa' que propõe", afirmou ao esquerdista Manuel López Obrador (PRD). "Durante sua campanha, não ouvi uma menção aos delinquentes que há em seu partido", afirmou a Peña Nieto. A carraspana pública o tornou uma celebridade social, a voz da indignação mexicana.

O sr. ganhou notoriedade ao criticar cada candidato ao vivo. Acha que o ganhador entendeu a mensagem?

Tomara que sim. Temos 70 mil mortos, 20 mil desaparecidos e 250 mil que tiveram de sair de zonas dominadas pelo crime. O assunto não é um tema menor e mais, não é um assunto de segurança. Tem a ver como a subordinação à política de segurança dos EUA. Infelizmente, ninguém apresentou uma alternativa a essa guerra às drogas. Tudo indica que continuaremos essa política absurda.

Qual sua proposta?

A proibição das drogas é a causa. Defendo que se regule e controle a venda, como fez o Uruguai recentemente e, historicamente, faz a Holanda. O outro problema é o controle das armas. O arsenal que vem dos EUA está armando o crime organizado. Se é verdade que não há controle mexicano sobre a rota das drogas, os EUA falham em evitar que as armas cheguem aqui.

A relação entre governadores do PRI e o narcotráfico lhe parece um mau presságio?

É um tremendo mau presságio. Mas todos os partidos são iguais. O país está governado por todos eles, em diferentes níveis. Queremos uma limpeza, mas preocupa que tenhamos 98% de impunidade no país. Para o criminoso, saber que pode ser punido em 2% das vezes é um estímulo considerável.

Essa subordinação aos EUA, considerada histórica pelos mexicanos, piorou recentemente?

Nos últimos meses piorou e ainda vai piorar. Os EUA começam a falar de "narcoterrorismo", o que leva a um racismo, a uma visão depreciativa do imigrante, "esse tipo que vem do México, esse lugar estranho, selvagem". Essa guerra complicou tremendamente a vida dos imigrantes latinos nos EUA. Eles sofrem extorsão a distância, porque ainda têm parentes aqui. Se não pagam, matam seus parentes.

Assusta um poeta ter um presidente com fama de inculto?

Sim, absolutamente. Vejo Peña Nieto como um homem extremamente pragmático, com uma visão estreita de um Estado monopolizador da política. E isso inclui achar que o Estado é o dono da violência legítima.

O que conseguiu o movimento que o senhor lidera? É mais difícil ocorrer o que passou a seu filho?

Estamos igual ou ainda pior. Há 98% de impunidade. Qualquer um nessas condições deploráveis pode ser assassinado ou sequestrado. E um Estado que usa o Exército nas ruas abre a porta para a violação dos direitos humanos. Conseguimos evitar três vezes que uma lei que permitia patrulhas do Exército definitivamente fosse aprovada. No entanto, ela está congelada, esperando não se sabe o quê.

No que essa experiência

mudou sua poesia?

Desde a morte do meu filho, deixei de fazer poesia.

Como é ser o rosto da

indignação de um país inteiro?

(Pausa) Não sou um ativista. Sou um poeta, um homem de leitura, de espaços pequenos, de formação de alunos. Tem sido muito difícil viver do ativismo. Sobretudo com o peso de tantas mortes nas costas.

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