EFE/Ernesto Mastrascusa
EFE/Ernesto Mastrascusa

‘Ninguém disse que o caminho seria fácil’

Para negociador das Farc, paz é possível, mas políticos precisam entender caráter político e rebelde da guerrilha

Entrevista com

Lucas Carvajal, integrante da delegação da paz das Farc

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2016 | 05h00

Após quase um mês do plebiscito que rejeitou o acordo de paz fechado pelo governo do presidente Juan Manuel Santos com as Forças Armadas Revolucionária da Colômbia (Farc), as delegações continuam realizando conversações em Havana para apresentar um novo acordo. “Temos recebido propostas de todos e há desde assuntos já abordados no acordo até questionamentos irrelevantes ou impraticáveis”, explica ao Estado, em entrevista por e-mail, o integrante da delegação de paz da guerrilha Lucas Carvajal. 

O guerrilheiro do Bloco Ocidental Comandante Alfonso Cano, de 31 anos, o mais jovem negociador das Farc, afirma que os grupos políticos que lideraram a campanha pelo “não” ao acordo precisam entender o processo. “O que eles não podem é ignorar as lógicas próprias de uma negociação como a que realizamos durante mais de quatro anos e negar o caráter político e rebelde de nossa organização.”

Um acordo ainda é possível?

Claro que sim. É a forma mais racional e correta de termos um desenvolvimento real do país. Nenhum projeto de país sério pode ser feito com uma guerra de grande escala no meio do caminho. 

Qual a visão das Farc sobre as propostas de ajuste no acordo feitas pelo ex-presidente Álvaro Uribe? Existem pontos que podem ser alterados?

As propostas dos porta-vozes do ‘não’ são heterogêneas. Uribe e o Centro Democrático não são os únicos que partilham dessa opinião política: há setores conservadores, cristãos, liberais. Temos recebido propostas de todos e há desde assuntos já abordados no acordo até questionamentos irrelevantes ou impraticáveis. O que eles não podem é ignorar as lógicas próprias de uma negociação como a que realizamos durante mais de quatro anos e negar o caráter político e rebelde da nossa organização.

Como foram esses quatro anos de negociação?

Posso responder sobre minha experiência. Cheguei a Havana em abril de 2013, meses antes do fechamento do primeiro acordo, o da Reforma Agrária Integral. Eram momentos de muita desconfiança mútua, um acordo final de paz era quase impensável. O trabalho seguinte foi construindo novos cenários. Devo dizer que a Mesa de Negociações demonstrou uma capacidade surpreendente de se manter nos momentos mais difíceis. Isso prova que há uma disposição conjunta e um compromisso sério em avançar até uma solução política para a guerra. Foi por isso que alcançamos um acordo tão avançado e um respaldo unânime da comunidade internacional.

Quais foram os principais desafios nesse período?

Na minha opinião o ponto sobre vítimas e o subitem da Jurisdição Especial para a Paz. Esses foram os verdadeiros entraves para o acordo final, por isso demoramos tanto para construí-lo, as posturas das duas partes eram radicalmente distintas. A discussão levava cerca de um ano e foi preciso criae uma comissão jurídica fora da Mesa para que o ponto da Justiça fosse desenrolado. Depois de muito esforço, conseguimos um acordo sério, no qual as vítimas do conflito estão no lugar central, o crime político é reconhecido e estão presentes as bandeiras internacionais em matéria de Justiça e direitos humanos. Com esse ponto conseguimos dar um grande passo ao esclarecimento da verdade do conflito.

Como o senhor e os outros negociadores das Farc receberam o resultado do plebiscito?

Nós vimos juntos o resultado em um local de Havana. O resultado nos surpreendeu, porque ia de encontro ao senso comum. Mas assimilamos o resultado com muita maturidade e cabeça fria: ninguém nos disse que esse caminho seria fácil. E aqui estamos, dispostos a construir, ampliar, o consenso nacional. A paz é uma determinação de toda nossa organização e vamos atuar por ela.

Qual é o principal papel das Farc hoje?

Em um país onde existe exclusão política, terrorismo de Estado e perseguição em razão das ideias políticas, as Farc-EP têm sido um espaço para a resistência e a luta pelas mudanças. Se eu não tivesse ingressado nas filas da guerrilha estaria preso hoje ou desaparecido. Com a transição para a paz, todos os homens e mulheres que fizeram parte desse esforço coletivo passarão a ser promotores ativos da reconciliação nacional e da construção de um novo país. 

As Farc mudaram?

Todo exército muda com o tempo. Em 1964 as recém-nascidas Farc-EP enfrentavam um inimigo qualitativamente diferente em meio a um contexto global totalmente diferente. A partir dali tivemos várias mudanças. O que se manteve foi a nossa política de paz: desde Marquetalia a insurgência pedia a solução política do conflito. E estamos alcançando isso. Foi isso que sonharam nossos fundadores: um país sem exclusão política, com uma política agrária democrática e com desenvolvimento para todos. 

O que pensa sobre a negociação do governo com o ELN?

É um passo enorme na obtenção do fim definitivo da guerra. Ocorreram tropeços e dificuldades, mas isso é normal em todo processo de paz. Nos alegra porque o ELN é uma organização irmã com a qual temos objetivos comuns. Publicamente nos colocamos à disposição para qualquer necessidade durante esse processo. O resultado final deve ser um movimento popular fortalecido. 

 

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