TV Estadão | 12.01.2015
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‘Ninguém pode jogar pedra em ninguém’

Para filósofo e islamólogo suíço, que ‘não é Charlie’, atentados têm raízes no mundo islâmico, mas também no Ocidente

Entrevista com

Tariq Ramadan, filósofo e islamólogo suíço

Andrei Netto, correspondente / Paris , O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2015 | 18h00

Dez dias depois do ataque à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos, os atentados de Paris perpetrados por radicais islâmicos dividem a França e a Europa mais do que a aparente união nacional do último domingo indica. Enquanto em grandes cidades o apoio aos jornalistas e à liberdade de expressão (quase) irrestrita é maciço, nas periferias, onde vive a maior parte dos imigrantes muçulmanos e de seus descendentes, a situação é inversa.

Essa fissura é de certa forma personificada em Tariq Ramadan, professor de Teologia e de Estudos Islâmicos Contemporâneos da Universidade Oxford, na Grã-Bretanha. Neto do fundador do movimento Irmandade Muçulmana, o egípcio Hassan el-Banna, Ramadan nasceu na Suíça e tornou-se talvez a maior autoridade acadêmica em Islã no mundo. Em entrevista ao Estado, do Catar, Ramadan fala por que “não é Charlie”, sobre islamização, radicalização e sobre islamofobia na Europa.

O sr. disse em uma recente entrevista que “não é Charlie”. Por quê?

A expressão de união e o slogan são completamente estúpidos. Está subentendido que ou “Nós somos Charlie”, ou nós somos contra a liberdade de expressão. Eu luto pela liberdade de expressão. Mas a emoção pelas mortes e minha condenação dos atentados não me faz esquecer o que era Charlie Hebdo e a forma como eles faziam humor com geometria variável.

Como assim?

Nos últimos anos, eles atacavam sistematicamente os muçulmanos. Após um massacre de 1,6 mil pessoas, fizeram algo odioso com uma caricatura de uma pessoa com o Alcorão em mãos que dizia que o Alcorão não para balas. Foram covardes. Também publicaram uma charge do filho de Nicolas Sarkozy convertido ao judaísmo, fazendo uma associação ao dinheiro. Depois disso nos dizem que é liberdade de expressão. A liberdade de expressão deve, antes de mais nada, ser igualitária e não insultante.

O sr. acredita que a maioria dos muçulmanos condena os atentados da semana passada?

Sim, claro! É uma imensa, imensa maioria. Os que não condenam são extremistas violentos completamente marginais. Mesmo que hoje eles tenham uma plataforma com o autoproclamado Estado Islâmico, ou com a Al-Qaeda, eles absolutamente não são representativos do pensamento muçulmano no plano nacional, das comunidades e sociedades. Como sábio muçulmano e intelectual, devo não só condenar, mas mostrar quanto o uso dessas referências são traições ao Islã. No último livro que escrevi, retomo essa noção da jihad e da ética da guerra para mostrar que o que é feito por jihadistas está totalmente em contradição com princípios do Islã.

A radicalização de certa juventude da Europa preocupa?

Claro, mas eu já disse e repito: não façamos disso um evento midiático, uma norma pela qual julgaremos a juventude muçulmana da Europa e dos EUA. A radicalização continua a ser um fato marginal, porque a imensa maioria dos ocidentais muçulmanos nos EUA e na Europa vive seu cotidiano dentro da lei.

Qual a raiz da radicalização?

A radicalização tem três razões. A primeira é uma compreensão falsa, dogmática e redutora dos ensinamentos do Islã. A segunda é a compreensão absolutamente problemática e muito simplista da realidade política, das questões políticas internacionais, no Oriente Médio ou no mundo. A terceira é que há hoje no Ocidente uma realidade de estigmatização, um discurso islamofóbico que se instalou. A imensa maioria dos muçulmanos não cai nisso, mas há gente que, a partir do Oriente Médio, usa esse sentimento de frustração ao dizer “o Ocidente não os ama”, “vocês não têm trabalho”, “existe racismo”.

Quem é o alvo desse discurso?

Tanto jovens pouco quanto muito educados. Com frequência nos EUA e na Inglaterra são pessoas educadas que caem na radicalização, ao contrário da França, onde são delinquentes, antes de mais nada. Há um sentimento de frustração e mal-estar, que para alguns se transforma em razões para a radicalização. Por isso, insistir apenas em um regime securitário não é suficiente. A resposta a essa radicalização está nas políticas sociais, educativas, na luta contra o racismo e, em um plano mais geral, no que fazemos no Oriente Médio. Quem são os nossos aliados, com quem trabalhamos, quais são as ditaduras que apoiamos? Há mil e uma questões.

A frustração com o conflito entre Israel e palestinos causa frustração nas periferias europeias?

O conflito entre Israel e Palestina é central. Na consciência de muitos, o não tratamento desse caso, ou o tratamento a geometria variável, com o verdadeiro massacre de 2 mil civis, tem um impacto. Além disso, pode haver um choque quando a marcha de “Je SuisCharlie” tem na primeira linha o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu.

O sr. acredita que a desestabilização decorrente da Primavera Árabe tem impacto na Europa?

Sim e não. A Primavera Árabe tem na Tunísia, o país mais próximo da França, um processo sem violência, mesmo que haja questões sobre quem está no poder. Mas houve um processo político-eleitoral bem gerenciado. Não é a mesma realidade na Líbia, na Síria, no Egito, claro. Não creio que o levante árabe tenha causado um impacto sobre o Ocidente. O que tem um impacto é o que chamo de “referência iraquiana”, criada quando George W. Bush disse que democratizaria o Oriente Médio.

Onde esse “modelo iraquiano” foi replicado?

O que aconteceu no Iraque e é o que se passa na Líbia: derruba-se o ditador, desestabiliza-se o ambiente político, mas se preserva a influência econômica e petrolífera. Observe o que acontece na Síria: a desestabilização do regime. No Egito há um retorno da mão de ferro, com alguém que é 100% americano na sua visão, na gestão e na suas decisões internas e sobretudo no apoio dos EUA. A paisagem do Oriente Médio é de desestabilização, com algo de novo: a fratura entre os xiitas e os sunitas e a vontade dos movimentos extremistas de levar essa a luta ao Ocidente pelas redes sociais, o que atrai jovens para o combate.

A quem responsabilizar: o mundo muçulmano, no qual os terroristas se abrigam, ou o Ocidente, onde eles se situam?

A primeira responsabilidade cabe aos muçulmanos, que devem fazer a crítica clara do que aconteceu. As sociedades majoritariamente muçulmanas são Estados com pouca liberdade de pensamento, pouca liberdade política, corrupção e repressão terríveis. A violência não vem do nada.

E quem é o co-responsável?

As sociedades ocidentais, em dois níveis: o primeiro aspecto é o das relações internacionais, marcado por incoerências. Esquecemos princípios democráticos quando há interesses econômicos, como é o caso da Arábia Saudita, do Catar, dos Emirados Árabes, do Bahrein. Não se exige democracia desses países. Além disso, os Estados ocidentais europeus não têm políticas sociais, não têm política urbana, não têm mais política educativa, deixam-se influenciar pela retórica populista de extrema direita, de islamizar todos os problemas. A cada vez que há um problema na escola, um problema de Justiça social, diz-se que é o Islã e é preciso que os muçulmanos se integrem. Mas não tem nada a ver com isso. Ninguém pode jogar pedra em ninguém. O mundo muçulmano não é simplesmente vítima e dizer que o Islã é uma religião de paz não resolve nenhuma questão fundamental.

O sr. não acredita que o discurso de extrema direita seja marginal na França e na Europa?

Penso o contrário. Não me inquieta o crescimento dos partidos de extrema direita. No fundo, eles continuam a ser uma minoria. O que é grave é a normalização de seu discurso. Quando você observa as declarações do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, ou da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, verá que há uma normalização do discurso de extrema direita. Partidos de esquerda e de direita assumem posições pouco claras. Todos na classe política da França continuam a falar de “franceses de origem estrangeira”, mesmo após três ou quatro gerações. Isso começa a ficar inquietante. Cameron defende a ideia de britishness, dizendo que é necessário que os imigrantes se conciliem com “nossos valores”. É como se os muçulmanos ainda fossem estrangeiros. O discurso majoritário no Ocidente, e em particular na Europa, não considera o Islã uma religião europeia ou ocidental.

O senhor acredita que é preciso mudar conceitos como o de secularismo para adaptar-se a este novo ambiente?

Não, ao contrário! Eu creio que a França deve aplicar o secularismo totalmente e igualmente a todos os seus cidadãos, sem dois pesos. O problema do secularismo é que ele é aplicado de forma dogmática, estigmatizando uma população. Não é igualitário, nem inclui todos os cidadãos. Temos de chegar a um secularismo irrestrito, igualitário e inclusivo.

O sr. não crê que essa marcha do domingo vai nesse sentido?

Tenho dúvidas. Creio que é uma unidade emotiva, face a um drama, e não em torno de um projeto. Todas as proporções preservadas, é a versão dolorosa do que foi a unidade da vitória na Copa do Mundo de 1998, quando estivemos juntos para dizer algo. Mas se você observar o discurso, verá que nada foi resolvido.

É dessa forma que se pode superar a ideia difundida do choque de civilizações?

Sim. Essa unidade foi um indício de que podemos superar a ideia do choque de civilizações. Mas a ideia de alguns ao descer às ruas foi a ideia de uma unidade contra. Para a maioria foi uma unidade “contra o terrorismo que mata”. Mas para alguns foi uma unidade “contra o Islã”, “contra os muçulmanos”, “contra os que nos impedem de viver juntos”.

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