Cezaro de Luca/EFE
Cezaro de Luca/EFE

Nisman ligou Caracas a plano para proteger Irã

Documento de promotor aponta para ativismo de missão da Venezuela em Buenos Aires que teria causado a irritação até mesmo de Néstor Kirchner

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 02h06

O promotor Alberto Nisman, encontrado morto com um tiro na cabeça no dia 18, envolveu Roger Capella, ex-embaixador venezuelano na Argentina, na denúncia em que acusou a presidente Cristina Kirchner de proteger iranianos indiciados por praticar um atentado contra a associação judaica em que morreram 85 pessoas em 1994.

Nas 300 páginas do documento divulgado na íntegra no dia 20, Nisman menciona oito vezes a Venezuela como interessada em acobertar os altos funcionários iranianos indiciados pela Justiça argentina.

Ele aponta o diplomata venezuelano como um dos organizadores de uma manifestação contra a sentença que ordenava a captura de sete ex-funcionários iranianos pela explosão do carro-bomba na Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia). "Capella foi quem estimulou em novembro de 2006 Luis D'Elía (líder social kirchnerista) a se mobilizar contra a Justiça argentina", afirmou Nisman, referindo-se a uma marcha diante da embaixada iraniana. O nome de D'Elía aparece mais de 200 vezes na denúncia.

O ativismo de Capella contra a sentença argentina não era secreto. O ex-embaixador chavista aparece em fotos e vídeos no ato. Na época, o presidente Néstor Kirchner manifestou sua irritação com a iniciativa de Capella ao presidente venezuelano, Hugo Chávez. Em sua primeira entrevista coletiva após ser reeleito, em 2007, o venezuelano disse que mudaria o representante do país na Argentina.

Se a menção a Capella não é uma revelação, Nisman marcou com ela a distância entre os governos de Néstor e Cristina sobre o atentado. O ex-presidente, morto em 2010, nunca pôs em dúvida o rumo da investigação. Já Cristina e seu chanceler, Hector Timerman, segundo o promotor, fizeram um acordo com o Irã para que os indiciados fossem ouvidos em seu país, algo que nunca ocorreu. A razão para o acerto, segundo gravações que Nisman assegurava ter, seriam comerciais. O Irã ajudaria o setor energético argentino com petróleo e a Argentina retribuiria com produtos agrícolas.

A oposição argentina usou a menção a Capella para reforçar sua teoria de que o plano para abafar o caso tinha raízes geopolíticas. "Achamos que o memorando de entendimento com o Irã é produto de um acordo geopolítico e ideológico. O Irã foi colocado na América Latina por Chávez, para criar um polo de poder. Para participar desse polo, a Argentina deveria 'resolver' o caso Amia, uma vez que esse era incompatível com um acordo ideológico com o Irã. Por isso, o kirchnerismo mudou radicalmente a linha da Justiça sobre a responsabilidade iraniana", disse ao jornal venezuelano El Universal a deputada Patricia Bullrich, do partido União para Todos, uma das mais ativas na cobrança por avanço no caso Nisman. O Estado enviou a Capella perguntas sobre sua participação no episódio, mas não obteve resposta.

Investigação. Ontem, a promotora Viviana Fein, que investiga a morte de Nisman, disse haver novas evidências de que o disparo que o matou, de uma arma calibre 22, foi feito pelo próprio promotor a menos de 2 cm da têmpora direita. Esta semana serão periciados os computadores, tablets e os três celulares do promotor.

Isso não havia ocorrido porque a ex-mulher de Nisman, Sandra Arroyo Salgado, pediu que uma perícia independente acompanhe o trabalho oficial. Ela insiste que o promotor foi assassinado ou pelo menos induzido a se matar. Depois de apontar um suicídio como a causa mais provável da morte do promotor, a presidente passou a falar de um homicídio com objetivo de prejudicá-la.

Também esta semana serão rastreadas imagens de 150 câmeras da região da torre no luxuoso bairro de Puerto Madero em que vivia Nisman. Não há mais homenagens ou curiosos no local. As câmeras mais próximas de seu apartamento, no 13.º andar, não estavam funcionando no dia da morte do promotor.

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