Nisman queria ajuda do CS da ONU para extraditar iranianos

Chance de levar suspeitos de atentado contra Amia à Argentina era pequena; governo não apoiava estratégia do promotor

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 22h54

BUENOS AIRES - O promotor Alberto Nisman deixou um documento assinado dirigido ao Conselho de Segurança (CS) da ONU com um pedido de extradição de iranianos apontados pela Justiça argentina como autores do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994. A informação publicada nesta segunda-feira, 23, pelo jornal argentino La Nación despertou crítica da cúpula do governo de Cristina Kirchner, que definiu a estratégia como impossível.

Segundo o jornal, o papel está em um cofre da promotoria. A intenção de Nisman seria usar a pressão da comunidade internacional para forçar o Irã a extraditar os acusados com pedido de captura emitido pela Interpol. Entre eles, estão o ex-comandante da Guarda Revolucionária Mohsen Rezaei e o ex-adido cultural da embaixada iraniana em Buenos Aires, Mohsen Rabbani.

Não está entre as atribuições do CS definir extradições. Há antecedentes em que o grupo interveio na busca de procurados com pedidos de captura, mas em situações extremas, como no caso do vazio institucional na Líbia. Isso indica que Nisman não via solução mais viável para levar os suspeitos à Argentina. 

Diante da recusa de Teerã em extraditar seus cidadãos, o governo argentino firmou com o país em 2013 um acordo que permitia a coleta de depoimentos, no Irã, dos suspeitos de planejar o atentado que matou 85 pessoas. O interrogatório nunca ocorreu e o memorando não entrou em vigor, por falta de aprovação no Parlamento iraniano. 

Nisman foi encontrado em seu apartamento com um tiro na cabeça quatro dias depois de acusar a presidente Cristina Kirchner, o chanceler Héctor Timerman e dirigentes de usar esse pacto para acobertar os iranianos em troca de acordos comerciais. Segundo o La Nación, Nisman havia sondado o governo sobre a possibilidade de o documento ser levado ao CS e recebido uma resposta negativa. 

O secretário-geral da Presidência, Aníbal Fernández, recorreu à Constituição para ressaltar que relações exteriores são “prerrogativas do presidente”, o que faz com que nenhum juiz ou promotor possa fazer um pedido informal de extradição. “Se a audácia ou ausência de vergonha o estimulasse a fazer isso, não teria nenhuma resposta, como é lógico”, escreveu Fernández em seu blog.

“Há empenho em querer nos exibir um herói (Nisman) quando na realidade encontramos com uma personalidade de mentira que não deixou de bancar um herói”, criticou.

Queda. De acordo com a pesquisa feita pela consultoria Management and Fit, a popularidade de Cristina caiu para 29,8%, ante os 32,5% registrados antes de Nisman acusá-la de conspirar para encobrir um suposto envolvimento do Irã no ataque contra a Amia.

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