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No bairro natal, os valores de Jorgito

Flores tem diferenças econômicas e culturais

Rodrigo Cavalheiro, correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 03h00

BUENOS AIRES - Jorge nasceu em uma casa alugada pela família Bergoglio no número 268 da Rua Varela, bairro de Flores, saída oeste de Buenos Aires, em 1936. Na região em que ficou conhecido como um perna de pau para o futebol, havia sítios misturados às primeiras casas. Multiplicavam-se imigrantes atraídos por emprego, essencialmente espanhóis e italianos, como seus pais, Mario e Regina. 

Nas décadas seguintes, judeus, paraguaios, bolivianos e peruanos encorparam a área de classe média, na qual hoje camelôs africanos vendem relógios e cintos falsos. Se a pregação de tolerância e respeito à mistura cultural e religiosa característica de Francisco tem origem em sua infância, o DNA de Flores é o responsável. Moradores lembram que a região melhorou quando Bergoglio estava nas zonas mais pobres e incentivava os chamados “curas villeros”, padres envolvidos diretamente com os mais pobres. 

O curioso é que a região evoluiu também quando Bergoglio a abandonou repentinamente. Desde que adotou o nome Francisco, ele não voltou ao país. Sabe do que acontece em Flores telefonando do Vaticano, principalmente para o pároco da Basílica de San José, que frequentava quando criança. Surpreendeu-se ao saber que agora há turistas entre as casas de classe média e ruas de paralelepípedo. “Não acreditou quando disseram que vinha gente de outros países ver onde tinha nascido, jogado bola, estudado”, afirma o guia Daniel Vega, que por duas horas faz o roteiro por Flores, às quintas-feiras, às 15 horas. Nas últimas semanas, jornalistas equatorianos e bolivianos estavam entre os turistas. 

Os visitantes atraíram mais policiamento e estabelecimentos comerciais tentam se equilibrar entre a homenagem ao vizinho e o lucro com a fé alheia. Em geral, limitam-se a imagens de Francisco nas vitrines, mas há inovadores. 

A cinco quadras da casa em que nasceu Francisco, fica a Habemus Pizza & Pasta. “Estamos em Flores e tínhamos que dar um nome. Os clientes acham engraçado”, diz um dos donos, Federico Hochmam, de 40 años. Referência à expressão em latim dita quando a fumaça branca anuncia um novo pontífice, “habemus papa”, o letreiro é alvo comum das câmaras. Outros são a casa em que nasceu, o colégio primário, a residência em que cresceu e a pracinha onde jogava bola antes dizer à mãe que seria médico. Indagado por ela anos depois sobre as bíblias no quarto, corrigiu-se. “Serei médico de almas”, disse à mãe, segundo Vega.


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