No Brasil, candidata francesa ao FMI defende continuação das reformas no órgão

Em busca de apoio à sua candidatura, a ministra iniciou pelo Brasil um tour internacional, que deve incluir visitas à China, Índia e ao Oriente Médio.

João Fellet, BBC

30 de maio de 2011 | 19h48

Candidata à direção do Fundo Monetário Internacional (FMI), a ministra francesa das Finanças, Christine Lagarde, defendeu nesta segunda-feira em Brasília que o órgão dê prosseguimento às reformas iniciadas nos últimos anos, para aumentar a representatividade de países emergentes na instituição.

"Se eleita, vou zelar para que o FMI represente toda a diversidade de seus membros. Considero que o FMI deve dar prosseguimento às reformas, iniciadas pelo último diretor-gerente, Dominique Strauss-Khan, para garantir representação apropriada de todos os seus integrantes", disse Lagarde, em coletiva de imprensa.

Em busca de apoio à sua candidatura, a ministra iniciou pelo Brasil um tour internacional, que deve incluir visitas à China, Índia e ao Oriente Médio.

O último ocupante do cargo máximo do FMI, o também francês Strauss-Khan, renunciou após ser preso nos Estados Unidos, acusado de abusar sexualmente de uma camareira. Ele nega a acusação.

Após se encontrar com Lagarde, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o Brasil só divulgará seu candidato de preferência após se reunir com todos eles. Por ora, além da ministra francesa, somente o presidente do Banco Central do México, Agustín Carstens, candidatou-se ao cargo. Ele deve vir ao Brasil nesta quarta-feira.

Atuação internacional

Lagarde justificou a escolha do Brasil como primeiro destino em sua viagem ao dizer que o país é muito importante não só pelo tamanho de sua economia, mas por sua atuação no cenário internacional. Além de se encontrar com Mantega, ela se reuniu com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e com o ministro do Desenvolvimento e Comércio Exterior, Fernando Pimentel.

A ministra diz que, nos encontros, expôs suas visões sobre o fundo e ouviu deles suas expectativas em relação ao órgão.

Na semana passada, Mantega defendeu que a direção do fundo seja ocupada por um mandato tampão até 2012, para quando originalmente estava prevista a eleição para a sucessão de Strauss-Khan.

O ministro disse ainda que o próximo diretor do FMI deve ser escolhido por seu mérito, e não por sua nacionalidade, e que a seleção deve levar em conta a crescente inflência das economias em desenvolvimento.

Os últimos dez diretores do Fundo foram europeus, histórico que tem sido criticado por líderes de países emergentes. Eles dizem que, embora o poder econômico das nações em desenvolvimento tenha se multiplicado nos últimos anos, seu peso em órgãos financeiros internacionais não aumentou proporcionalmente.

Na gestão de Strauss-Khan, uma reforma ampliou o peso dos votos do grupo. Ainda assim, o grupo diz que segue sub-representado e se queixa de que os países europeus detenham um terço dos votos totais no órgão.

Escolha por mérito

Na coletiva, Lagarde disse que concorda com Mantega quanto à defesa de que o novo diretor do fundo seja selecionado por seu mérito. "O processo de seleção para o cargo deve ser aberto e transparente".

Ela afirmou ainda que o "fundo tem uma missão universal, e seu caráter de vigilância também deve ter catráter universal".

Ministra francesa de Assuntos Econômicos, Finanças e Indústria desde janeiro de 2007, Lagarde tem tido papel central na articulação de uma resposta europeia à crise de endividamento no continente.

Sua candidatura conta com o apoio do G8, grupo formado pelas potências europeias, Japão, Estados Unidos, Canadá e Rússia.

A ministra, no entanto, é contestada por alguns por não ter formação acadêmica na área econômica (formou-se em advogacia e obteve mestrado em ciências políticas) e por sua atuação numa disputa entre o empresário francês Bernard Tapie, aliado do presidente Nicolas Sarkozy, e um banco estatal.

Ao arbitrar a disputa, em 2007, Lagarde decidiu encaminhar o caso a um painel, em vez de direcioná-lo ao sistema judicial. Segundo a oposição francesa, a decisão de Lagarde beneficiou o empresário.

A Justiça francesa agora avalia se investigará a ação da ministra. Ela nega ter agido para favorecer o empresário.

As candidaturas à diretoria do FMI devem ser anunciadas até o dia 10 de junho, e o Fundo tem até o dia 30 para escolher o novo ocupante do cargo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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