No Brasil, disputa também é acirrada

Os americanos residentes no Brasil podem estar longe de casa, mas nem por isso a disputa entre George W. Bush e John Kerry foi menos acirrada do que dentro dos EUA. Republicanos e democratas se mobilizaram para assegurar que seu candidato saia vitorioso na votação desta terça-feira. Ajudados pelas representações oficiais do Partido Democrata e do Partido Republicano fora dos EUA - Democrats Abroad e Republicans Abroad -, os americanos tiveram que se registrar e requerer a "absentee ballot", cédula especial para votação fora do território americano que deve ser enviada por correio para os EUA até o dia da votação, ou seja, amanhã. O processo não é fácil, já que cada Estado tem regras diferentes e nem todos sabem onde encontrar instruções para se registrar. Este ano, a votação foi dificultada ainda mais pelo fato de que muitas "absentee ballots" não chegaram, obrigando os eleitores americanos a usarem a cédula de emergência chamada "write-in ballot". Apesar das dificuldades, os americanos não desanimaram e fizeram questão de participar, sabendo que nesta eleição cada voto conta. Muitas escolhas, no entanto, foram mais contra o candidato do partido rival do que a favor de Bush ou Kerry. E foi justamente essa rivalidade que motivou muitos americanos a votar pela primeira vez. Aos 66 anos, a empresária Carole Faulman Martino nunca tinha votado nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. A americana, que aos 21 anos enfrentou a família tradicional luterana para casar-se com um brasileiro católico e vive há 45 anos no Brasil, preferia deixar para os moradores do país a escolha do presidente. "Vivendo fora e com poucas informações, julgava que não tinha direito a dar minha opinião", diz. Porém, a disputa acirrada e a insatisfação com a política republicana fizeram Carole finalmente se manifestar. A americana votou em Kerry para impedir a reeleição de Bush. "Hoje o presidente americano é quase o presidente do mundo, o que ele fizer vai afetar todos nós. Bush está conduzindo uma jihad americana, um absurdo." A empresária disse ter aprendido com os brasileiros a tolerância às diferenças e a não dar tanta importância aos bens materiais. Segundo ela, esses valores são contrários aos do atual presidente, que "só conhece o Texas e só se preocupa com dinheiro e petróleo". A professora de inglês Patricia Murphy é ainda mais radical em sua posição anti-Bush. A brasileira, que é filha de pai americano e morou durante dois anos nos EUA, quer "tirar o anti-Cristo do poder". Patricia afirma que sempre se considerou americana, mas nunca achou que seu voto fosse fazer diferença. Ela já tinha planejado votar nas eleições passadas - "para barrar Bush" -, mas, como perdeu o prazo para se registrar, teve de esperar quatro anos para participar das eleições. Patricia confessa que não via muita diferença entre democratas e republicanos, mas que sempre simpatizou mais com as posições democratas. Desta vez, a situação mudou completamente. "Para mim, o Bin Laden está escondido no rancho do Bush, afinal os dois são da mesma quadrilha." A professora gostou tanto da experiência que pretende continuar votando nas próximas eleições. Entre os republicanos, o cenário não é diferente: há quem vote em Bush e há quem vote contra Kerry. O vice-presidente do Republicans Abroad, Richard Carlson, faz parte do primeiro grupo. "Pessoalmente não prefiro nem um nem outro, mas acho que Bush tem mais experiência do que Kerry para gerir a máquina executiva americana". Ele reconhece, no entanto, que a polarização entre democratas e republicanos é muito maior nesta eleição. Entre os anti-Kerry, Carlson define dois grupos. Os que criticam a posição do senador contra a guerra do Vietnã e os que simplesmente não gostam das políticas democratas liberais. Carlson prefere não entrar em polêmica. "Quem quiser brigar que brigue."

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