JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

‘No Brasil, é onde estou mais protegido’ 

Acusado de financiar terrorismo por Ancara, turco teve extradição negada e diz que agora só quer seguir em frente 

Entrevista com

Ali Sipahi, empresário turco naturalizado brasileiro 

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2019 | 05h00

O empresário turco naturalizado brasileiro Ali Sipahi veio para o Brasil aos 19 anos para estudar. Formou-se em Letras e passou a trabalhar para a Câmara de Comércio Brasil-Turquia na qual era parte de sua função fazer uma ponte entre os dois países. Hoje, só pode ficar de um lado. Depois que o Supremo Tribunal Federal negou o pedido de extradição feito pelo governo de Recep Tayyip Erdogan sob a acusação de financiar terrorismo, ele respira aliviado, mas a tensão não foi embora. Sipahi é ligado ao grupo opositor turco Hizmet, considerado terrorista por Ancara. Em entrevista ao Estado, o empresário, sócio de uma rede de fast-food de comida turca em São Paulo, conta que ainda tem pesadelos com a cela, onde passou 34 dias sem saber se seria mandado para o país que o considera financiador de terrorismo. Livre, sabe agora que se pisar na sua terra natal, será preso.

O golpe já o tinha prejudicado antes do pedido de extradição? 

Sim. Na Câmara de Comércio eu passei a não ter nada para fazer. Eu recebia três empresários por semana, viajava muito. Depois, houve o golpe, e nada. E eu tinha de sustentar minha família, então comecei a trabalhar como motorista de Uber. Conheci a Rua Augusta, buscando e levando passageiro. Notei que não havia comida turca, daí surgiu essa ideia (de abrir restaurante) com amigos turcos. Eu já trazia muito lahmajun (nome para pão com carne e pizza turcos, que virou o nome do restaurante) congelado da Turquia. Fizemos empréstimos, mas acabamos gastando o

dobro. 

Foi nesse contexto a transferência que o governo diz que era para financiar o terrorismo? 

Não, a transferência foi presente de casamento. Quando nos casamos na Turquia, em 2013, havia essa tradição de as pessoas darem ouro de presente. Escolhemos depositar em dinheiro na Turquia, já que íamos sempre para lá. E isso acabou resultando em um processo que mudou minha vida. 

Como o processo mudou o sr.? 

Foi uma experiência horrível. Você nunca imagina que isso vá acontecer com você, como nos filmes. Nos primeiros dias em que fiquei preso, eu estava chocado, principalmente pelo motivo da minha prisão (financiar terrorismo). Quando se faz algo de errado, sabe-se que haverá uma consequência. Mas eu não fiz nada. Estava vivendo minha vida normal, trabalhando. Tirando minha família que está lá, não tenho uma relação forte com a Turquia, nem fico dando minhas opiniões nas redes sociais. Sou muito focado nos meus negócios. 

Como foi a prisão? 

No dia em que voltei dos EUA, eu tinha três reuniões marcadas com meus fornecedores aqui. Do nada, saindo do aeroporto, dois políciais federais me aguardavam. Na realidade, quando passei na imigração, notei que eles estavam olhando muito para a gente, pensei que fosse por causa do véu da minha mulher, que chama atenção. Ela achou que eu estava exagerando. Na saída, me chamaram e me disseram que havia um mandado de prisão. Pensei que era uma brincadeira. Me mostratam a decisão. Perguntei por que e eles me mostraram que era por causa do depósito de 2013 e por trabalhar na Câmara de Comércio. Perguntei: 'E agora?' Daí me levaram. Fiquei 34 dias na prisão.  

Primeiro houve a prisão, depois a Justiça entendeu que não havia motivo para extraditá-lo. O que aconteceu na sua opinião? 

Foi um pedido da Turquia camuflado numa perseguição política. Acho que eles (autoridades brasileiras) trataram o caso de uma maneira muito técnica. Não pensaram muito na parte política. Como financiar terrorismo é um crime no Brasil, assim como na Turquia, focaram nessa parte. Com isso, expediram um mandado de prisão.

Como foi depois? 

No primeiro momento, também não entendemos nada, não sabíamos como agir. Foi a primeira vez que isso aconteceu com alguém da comunidade (turca) no Brasil. Já ouvimos outros relatos em outros países, mas geralmente não foi desse jeito. Na Inglaterra, pelo que ouvi, a pessoa foi chamada, ouvida e recebeu uma tornozeleira eletrônica, mas não foi presa. Foi uma falta de informação das entidades daqui e acabei ficando preso 34 dias. Depois, arrumamos um advogado especializado nisso, que são poucos no Brasil. Demorou um pouquinho. Depois do meu interrogatório, minha soltura foi deferida. 

Por que e como o sr. veio para o Brasil? 

Vim para o Brasil em 2007 quando eu tinha 19 anos. Eu tinha completado o ensino médio. Eu sempre quis estudar fora. Surgiu uma oportunidade porque o movimento tinha uma escola aqui no Brasil, com conhecidos na Turquia. Falei com meus pais, que financiaram boa parte dos meus estudos aqui. Fiz curso de português e me formei em Letras. A Câmara de Comércio me convidou para trabalhar como tradutor, primeiramente. Depois, comecei a organizar missões empresariais pela Turquia. Levamos mais de mil empresários para a Turquia. Naquela época, o governo era aliado. Quando levávamos importadores brasileiros para a Turquia, quem pagava a hospedagem deles era o governo Erdogan. Era iniciativa do governo levá-los à Turquia. Havia poucos tradutores juramentados, e eu fiz esse trabalho até 2016. 

Os primeiros anos do governo Erdogan foram muito bem vistos. O que o sr. acha? 

Quando ele chegou, fez várias reformas para o país entrar para a União Europeia. Fez muitas coisas pela Turquia. Mas quando começaram os problemas (acusações) de corrupção na Turquia, ele mudou 100%. Ele virou uma outra pessoa e começou a fazer pressão contra opositores e os que não gostam dele.

O marco foram as acusações?

Sim. Depois disso, começou a perseguição de opositores, fiscalizações nas escolas. Depois do golpe, ele anunciou que quem estava no movimento (Hizmet), era terrorista. De um dia para outro, acho que umas 400 mil pessoas viraram terroristas. 

O sr. cogita voltar para lá? 

Minha mulher tinha saudade da família dela. Nós estávamos pensando em visitar a Turquia no ano que vem, ver os pais dela. Com isso agora, nunca mais. Se eu for, eu vou ser preso. E ela também, porque tinha conta no mesmo banco. Não posso arriscar a vida dela com essa viagem. 

O sr. temeu associação com grupos terroristas? 

O que também me deixou muito preocupado foi o uso da palavra terrorismo. Hoje em dia quando se fala em terrorismo, as pessoas pensam em Al-Qaeda, Estado Islâmico, outras grupos violentos. No meu caso, eu não entendia o motivo. O que eu fiz de terrorismo? A gente ‘aterrorizou’ as comidas e as pessoas gostaram. Mas de mal, nunca fizemos nada. Nem meus amigos, nem ninguém da comunidade.  

E o futuro? 

Quero continuar minha vida aqui. É o lugar onde estou mais protegido, pelas leis, pela Justiça. Quero continuar aqui com minha família, minha vida, meu negócio. Meu filho (de 4 anos) nasceu em Belo Horizonte. 

É uma página virada? 

É uma experiência que eu nunca vou esquecer. É um fato firme que aconteceu na minha vida e nunca vou esquecer. Até hoje, quando acordo, olho para os lados para ver se estou na prisão. Já sonhei com a prisão várias vezes. É trise, foi uma experiência horrível. Claro que eu aprendi algumas coisas com isso também, conheci uma prisão aqui. 

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