No Bronx colombiano, crime deixou de ser coibido

Especialistas dizem que corrupção policial e militar é comum no reduto de viciados de Bogotá

Denise Chrispim Marin / Enviada Especial, BOGOTÁ

21 de junho de 2014 | 18h36

BOGOTÁ - A situação do Bronx de Bogotá não é diferente do que ocorre entre as Ruas 12.ª e 13.º de Cali e outras “basucolândias” da Colômbia. A prefeitura da capital está ciente dos crimes cometidos nessa região do centro – tráfico de pessoas para a prostituição, venda de armas e de drogas e assassinatos. Também sabe da “vista grossa” de policias e militares vizinhos ao Bronx.

A corrupção das autoridades e as ameaças das gangues correm soltas, segundo especialistas. Hermán Suárez, que se recupera do vício no Centro de Acolhimento Javier Molina, em Bogotá, é testemunha de crimes contra quem não pagava ou não respeitava as regras das gangues da “basucolândia” de Cali. “Os seguranças pegavam o cara, o matavam na frente de todo mundo e o desmembravam com machados. Depois, metiam os pedaços em sacos de lixo e os jogavam fora”, afirmou, enquanto entalhava madeira. “Essa era a minha ‘Sessão da Tarde’. Não é diferente do que acontece no Bronx.”

O centro Javier Molina é um dos instrumentos de recuperação de sem-teto da Prefeitura de Bogotá. Há outros três em atividade, segundo Mírian Cantor, psicóloga da Secretaria de Integração Social. Perto do Bronx, há uma unidade do Centro de Assistência Médica aos Dependentes de Droga e um refeitório gratuito.

“Aqui, nosso objetivo é fazer com que 30% dos sem-teto deixem o vício e as ruas e os 70% restantes não causem danos”, afirmou a psicóloga Marcela Calle, colega de Mírian.

Cerca de 300 sem-teto buscam o Javier Molina durante o dia. Outros 300, de noite. Todos podem sair dali quando querem. Na chegada, eles se registram, guardam seus pertences e recebem um jogo de roupas e itens de limpeza pessoal.

Os sem-teto recebem três refeições e dois lanches por dia, têm uma biblioteca, uma quadra de esportes, uma sala de recreação e outra de televisão, uma oficina de carpintaria e dois dormitórios coletivos. Mulheres e transexuais dormem em um, homens, em outro.

No fim da tarde, a busca pela droga torna-se mais intensa. Boa parte dos viciados passa a noite nas ruas para fumar basuco – até 60 papelotes, segundo Marcela. Alguns voltam no dia seguinte ao centro de acolhimento. Alguns preferem não sair.

“Venho para cá para ficar ocupado e não pensar em basuco”, disse Alexander Siabato, de 40 anos, ex-funcionário de controle de qualidade que hoje entalha madeira na oficina do centro Javier Molina.

Adolfo López, de 45 anos, aprendeu a fazer vasos com embalagens de isopor para comida durante os 4 anos e 8 meses de prisão por tráfico de drogas. Era “mula”: levava cocaína, maconha e basuco de Santa Marta para Barranquilla. Provou drogas e gostou. Ainda fuma maconha regularmente e poderá sair em breve do centro de acolhimento.

Com uma versão simplificada da Bíblia debaixo do braço, Juan Carlos, de 51 anos, não quis dar seu sobrenome. Disse ter passado dois anos nas ruas, consumindo cocaína e aguardente. Como mencionou ter vivido no Cartucho, área que antecedeu o Bronx, destruído pela prefeitura em 2006, certamente viveu mais tempo como sem-teto. “Quando derrubaram as paredes do Cartucho, pedaços de corpos foram encontrados entre os tijolos.”

Miguel Ángel, de 41 anos, passou 25 anos nas ruas e hoje faz velas artesanais como internado no centro de acolhimento. Ele, porém, foi vítima direta do conflito entre as guerrilhas e o governo colombiano.Há sete anos, em uma tentativa de deixar o vício, mudou-se com a mulher, grávida, e o cunhado adolescente para uma chácara.

Quando um grupo paramilitar passou a pressionar o jovem para integrar suas linhas, Miguel Ángel o levou a outra cidade. Durante o trajeto, os paramilitares invadiram a chácara e mataram sua mulher. “Hoje eu só quero ter minha própria oficina.” 

Tudo o que sabemos sobre:
Colômbia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.