No Cairo, um grito parecido ao de 2011

Ahmed, universitário que ajudou a depor Mubarak, pediu queda de Morsi

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h07

CAIRO - Era tarde de quarta-feira, 3 de julho, e a contagem regressiva para o fim do ultimato lançado pelo general Abdul Fattah al-Sisi ao então presidente do Egito, Mohamed Morsi, corria para seus últimos instantes, pouco antes das 17 horas. Depois de semanas de expectativa e de luta, em meio à euforia crescente, Ahmed Hussein, de 22 anos, pediu para ser erguido sobre os ombros a um amigo ativista.

Destacado em meio à multidão que o cercava, colocou as duas mãos em torno da boca, formando uma concha e, a plenos pulmões, gritou: "Erhal, Morsi!" - "Fo-ra, Mor-si!".

O esforço repetido, que várias vezes fez saltar as veias de seu pescoço, surtiu efeito. Ao seu redor, centenas de jovens, equipados com bandeiras do Egito, desarmados e movidos a entusiasmo, saltaram em movimentos coordenados e responderam em uníssono: "Erhal, Morsi! Erhal, Morsi! Erhal, Morsi!"

Ao lado de milhões de outros jovens que passaram pela Praça Tahrir - do árabe, "Praça da Libertação" - desde janeiro de 2011, Hussein é um dos egípcios que se orgulham desde a quarta-feira de ter derrubado o segundo presidente do país em 30 meses.

Estudante universitário nascido no Cairo, ele é um dos membros da juventude liberal que clama por mais liberdade e democracia e não consegue esperar pelo fim da crise econômica e pela chegada do desenvolvimento.

Por sentir-se tolhido em seus direitos pela Constituição aprovada em dezembro de 2012 e por considerar o governo responsável pelo desemprego, mais forte entre jovens, Hussein não hesitou em aderir com euforia à petição lançada pelo grupo Tamarod - "Rebelde" - em 28 de abril.

O site de internet, que pedia aos signatários o nome e o número de carteira de identidade, alega ter reunido até 29 de junho um total de 22 milhões de assinaturas em favor de sua causa: a deposição do presidente Mohamed Morsi, chefe de Estado havia um ano.

"Nós não precisamos de Morsi no poder. É um homem mau, agressivo, um presidente que faz ameaças todo o tempo, que fala demais e não faz nada", argumentou o estudante Hussein ao Estado, já instantes depois do fim do prazo dado pelas Forças Armadas ao líder político. "Na verdade eu estou errado; Morsi faz algumas coisas. Faz pela Irmandade Muçulmana. Mas a Irmandade Muçulmana não é a maioria no Egito, e nós também somos muçulmanos. Não temos medo da islamização do país, porque o povo egípcio é quem tem o verdadeiro poder."

Durante sua argumentação, acompanhada atentamente por outros jovens que o apoiavam em cada palavra, Hussein buscava na multidão os elementos que comprovavam o que dizia.

Ao topar o olhar com um grupo de mulheres ao longe vestidas com véus integrais, típicos de islâmicas conservadoras, gritou, apontando e orientando seu interlocutor: "Veja, até mulheres de niqab estão aqui pedindo a saída de Morsi. Todo mundo quer que ele saia", argumentou, em meio a novos gritos sincronizados contra o presidente.

'Usurpador de poder'. Questionado sobre o que aconteceria com seu país dentro de alguns minutos, Hussein disse não saber. Mas, claro, esperava pela queda de Morsi como em fevereiro de 2011 esperou pela do ditador Hosni Mubarak, como se ambos tivessem chegado ao poder da mesma forma.

Morsi, na realidade, fora eleito com 51,73% dos votos e com o apoio de mais de 15 milhões de egípcios - incluindo jovens liberais como ele.

Para o universitário, porém, não há diferença. Na sua visão, o presidente islamista agora deposto não passava de um "usurpador do poder".

Prova disso, afirmou, fora a Constituição aprovada em uma noite, sem a bancada de oposição no Parlamento e referendada por pouco mais de 30% dos votos.

"Essa Constituição não é a nossa. Nós queremos uma Constituição para todos os egípcios, e não só para a Irmandade Muçulmana", reiterou. "No Egito ainda não existe democracia."

Impaciente, Hussein permaneceu onde estava, mas deixou que outros jovens que se aglomeravam, ansiosos para falar, tomassem a palavra. Ao seu redor, os ocupantes da Praça Tahrir começavam a vibrar, a gritar e agitar as bandeiras tricolores em vermelho, branco e preto.

Hussein se desvencilhou abrindo espaço entre os que o cercavam, em busca de informações. Muitos nem mesmo sabiam a razão da comemoração, mas gritavam.

Então o jovem voltou pulando sobre os amigos e gritando dois nomes de pessoas que haviam sido presas, membros da Irmandade Muçulmana que participavam do governo de Morsi.

Ao se dar conta do que se passava - o início do golpe militar -, apagou a expressão de surpresa, levou as mãos à boca e entoou com a força que conseguiu reunir: "Erhal, Morsi! Erhal, Morsi!".

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